Guestpost: Por que Geografia?, de Humberto Júnior (Beto)



SamanthaO Humberto Júnior, conhecido também como Beto,  é um querido leitor e amigo aqui do Meteorópole. Ele escreve no ótimo Habeas Mentem. Ele é geógrafo e nesse guestpost ele conta para os leitores porque decidiu cursar geografia. Fala também do trabalho como professor  e da pós-graduação que está realizando no momento. Beto conta as barreiras que encontrou ao longo da graduação, da dificuldade de conciliar trabalho e cursos da faculdade.

Como no relato da Sybylla, encontro um ponto em comum muito importante: a prensença do apoio da família e/ou de amigos. A mãe da Sybylla e a mãe do Beto foram pessoas que apoiaram seus filhos em suas trajetórias, mostrando a importância do educação. E o mesmo elemento também está presente em minha história pessoal: meus pais sempre me incentivaram e mostraram que aprender era importante e que me traria frutos no futuro.

Observando os jovens que atendo em meu trabalho, percebo que aqueles que recebem o apoio da família são os mais empenhados em aprender. Há pais que por uma série de razões não conseguem transmirir para os filhos a importância da educação. 

Deixo vocês com as palavras do Beto =). E muito obrigada por compartilhar a sua história e permitir que eu a publicasse no meu querido bloguinho.

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Ao ser convidado pela Samantha para escrever esse guestpost (meu primeiro, aliás) me senti honrado. Afinal o Meteorópole é um dos meus blogs preferidos e sempre estou por aqui, lendo, aprendendo e de vez em quando comentando.

Assim como a colega Sybylla, que escreveu um relato maravilhoso há algum tempo, também sou Professor de Geografia, embora afastado das salas de aulas – pelo menos por enquanto.

Em meu blog, eu já escrevi contando o que eu queria ser quando crescesse. Finalizei dizendo que optei pelo curso de Geografia, mas não dei detalhes sobre como foi essa escolha. Aproveito o convite da Samantha para fazê-lo agora.

Embora tenha estudado em escolas particulares por determinados períodos, a maior parte de minha vida estudantil foi em escolas públicas. Era bom aluno, mas confesso que aprendi muito pouco na escola. Boa parte do conhecimento que adquiri nesse período se deu pelo meu amor à leitura. Era lendo que eu aprendia sobre aquilo que deveria aprender na escola.

Ao prestar vestibular pela primeira vez, mesmo indo muito bem nas demais disciplinas, fui muito mal na de língua estrangeira o que acabou por me eliminar. Queria cursar jornalismo na Universidade Federal de Sergipe (minha única opção, já que eu não tinha condições de pagar uma particular), mas esse fracasso me desanimou bastante. Minha mãe ainda pensou em pagar um cursinho de inglês para mim, mas eu não queria onerar ainda mais as despesas de casa. Separada do meu pai, era minha mãe quem bancava as contas da casa com seu salário de Encarregada de uma rede de supermercados daqui de Sergipe. Meu pai contribuía com uma pequena quantia que era destinada quase toda pra as despesas com educação minha e de meu irmão. Nessa época eu queria mesmo era contribuir com a renda e não ser motivo para mais uma despesa. Decidi que era melhor fazer outro curso onde língua estrangeira não tivesse tanto peso quanto no de Jornalismo e fui atrás de um emprego para ajudar em casa.

Deu para perceber que minha mãe ficou consternada com minha decisão, mas ela soube fingir bem que não. E o mais importante: me apoiou. Aliás, bem mais do que isso, pois partiu dela a sugestão mais acertada que já fiz na minha vida. Enquanto eu pensava em prestar um novo vestibular para História, disciplina que eu me dava muito bem na escola, minha mãe apareceu com a ideia de tentar para Geografia. Eu até que me dava bem em Geografia na escola, mas não era essa necessariamente a minha disciplina preferida. Pra ser sincero eu achava essa uma disciplina chata demais. Era muita decoreba, um monte de nomes e descrições sem nenhuma finalidade ou objetivos óbvios. Minhas boas notas em Geografia se davam exclusivamente pelo meu gosto por mapas e por minha boa memória. No que dependesse de mim eu jamais teria escolhido esse curso. Mas minha mãe tinha um colega de trabalho formando nessa área, e encheu a bola do curso, tecendo elogios rasgados de como ele era maravilhoso, esplêndido, verdadeira última Coca-Cola do deserto! Convenceu minha mãe pelo entusiasmo e ela me convenceu com seu jeitinho de mãe. E lá fui eu prestar vestibular para Licenciatura em Geografia. Passei e, para minha surpresa, com uma ótima pontuação. Isso foi em 2003.

Humberto e sua mãe durante a formatura no curso de Geografia. Foto: Acervo Pessoal
Humberto e sua mãe durante a formatura do curso de Geografia. Acervo Pessoal

Eu ainda não sabia, mas essa acabou sendo uma das melhores coisas que já me aconteceram. Se antes eu não via a menor graça na tal da Geografia, logo no primeiro semestre de curso, em meio a disciplinas com nomes que me davam frio na espinha, (Climatologia Sistemática, Geologia I ou ainda Introdução ao Pensamento Geográfico foram as que mais me amedrontavam), tive o privilégio e a honra de conhecer um Professor que era uma verdadeira lenda no curso: Professor Edvaldo Teles. Esse verdadeiro Mestre foi o responsável por me ensinar (e a muitos) uma Geografia bem diferente daquela decoreba que (não) aprendi na escola. Uma Geografia rica, vibrante e muito mais interessante! Foi graças ao Professor Edvaldo que conheci e aprendi a amar a Geografia!

Uns cinco meses antes eu tinha conseguido meu primeiro emprego na mesma rede de supermercado na qual minha mãe trabalhava, mas numa loja diferente. Trabalhava como empacotador das 13hr15m às 22hr15m. Só quem já trabalhou em supermercado sabe o quanto é duro e exaustivo. Eu chegava em casa literalmente moído. Não eram raros os dias em que chegava mais de meia noite, morto de fome e cansaço. Isso tudo ganhando um salário mínimo. Quando passei no vestibular minha jornada diária ficou ainda mais puxada. Acordava às cinco da manhã, para estar pontualmente as sete na universidade, depois de pegar dois ônibus. Lá pelas onze e meia o professor liberava e eu corria pra pegar mais dois ônibus para o trabalho. Lembro com um misto de terror e saudade as aulas da querida Professora Acácia, famosa por falar muito e por ser extremamente pontual. Ou seja, ela só nos liberava meio dia em ponto depois de muito falar.

Essa jornada louca durou por toda minha graduação e cobrou um preço alto, pois muitas vezes eu simplesmente não conseguia acordar cedo, devido ao cansaço do trabalho. E assim acabei reprovando em algumas matérias por faltas, já que estas começavam às sete horas. Isso me complicou bastante, pois eram disciplinas obrigatórias para se cursar outras tantas mais a frente. Em miúdos: formatura em quatro anos? Não mais, amigão! Na realidade levei sete anos e meio para me formar por causa disso.

Nesse longo período enfrentei vários problemas tanto na universidade, como no trabalho. De professores desestimulados a chefes intransigentes. De um curso e universidades sucateados a desemprego. Mas também obtive muitas felicidades. Tive mestres maravilhosos, ensinamentos valiosos. Também cultivei amizades duradouras que me ajudaram no meu momento mais difícil e souberam me manter focado e estimulado quando eu já tinha desistido da luta e do curso. Junto a esses amigos ajudamos a tirar o curso da estagnação em que se encontrava, apoiando professores comprometidos e dispostos. Parando de apenas apontar os problemas que todos já sabiam quais eram, botamos a mão na massa e passamos a fazer parte da solução. Ajudamos a montar laboratórios, organizamos e participamos ativamente de eventos além de uma série de outras atividades que nos brindaram com a nota máxima na avaliação feita pelo MEC.

E, talvez, o mais importante de tudo: descobri na licenciatura uma vocação.

Ainda durante a graduação comecei a lecionar numa escola particular no bairro onde morava e me identifiquei de uma maneira que jamais acharia possível. Se com o saudoso Professor Edvaldo aprendi a amar a Geografia, foi em sala de aula que aprendi a amar o ofício da licenciatura. Ensinar tornou-se o mais grato e feliz presente que ganhei em minha jornada na Geografia. E foi com muita dor que precisei trocar a licenciatura por outro emprego. Infelizmente o Brasil ainda é um país que paga muito mal seus professores e quando uma oportunidade de emprego melhor remunerada surgiu, fui prático e não perdi a oportunidade.

Mas não abandonei totalmente as salas de aula. Faço atualmente uma pós-graduação em Docência e Licenciatura no Ensino Superior e pretendo sim voltar a ensinar. Ensinar Geografia, a ciência que, embora não tenha sido meu sonho de criança, aprendi a amar como se fosse!