Resenha de “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley

Na verdade, é pretensão demais que esse texto venha a ser uma resenha de Admirável Mundo Novo (AMN). Vou escrever algumas de minhas impressões sobre o livro para convencer quem ainda não leu o livro a lê-lo.

É pretensão porque é um livro com muitas camadas. E eu não tenho condições e muito menos conhecimento para falar sobre cada uma delas. Vou falar daquilo que percebi. Outros resenhadores vão falar outras coisas, mas é sempre assim (e isso é muito bom).

Bom, esse é um daqueles romances anti-utópicos sobre o futuro da humanidade. Num determinado momento, passaram a contar os anos com a.F. e d.F.: antes de Ford e depois de Ford. Ford é aquele da linha de montagem, que a gente aprende nas aulas de História do Ensino Básico. Foi o cara que criou a montagem em série, fazendo com que dessa forma o custo de um produto ficasse mais barato e mais pessoas pudessem consumi-lo. Até hoje todas as fábricas usam a ideia da linha de montagem e a aplicação inicial de Ford foi para a produção de automóveis.

E muitas vezes, Ford é confundido por Freud em AMN. Como faz muito tempo desde que Freud e Ford caminharam pela Terra, por alguma razão acredita-se que ambos são as mesmas pessoas. Acho isso muito interessante e fico pensando nas figuras históricas da Antiguidade: talvez façamos confusões semelhantes.

A história de AMN se passa em mais ou menos 600 d.F. (não lembro o número exato). Convertendo para a escala real de tempo, seria século XXIV mais ou menos, já que Henry Ford nasceu no século XIX. Mas como é o mundo nessa anti-utopia? Os seres humanos são fabricados em lotes, em linhas de montagem. Há um laboratório de ponta em Londres, onde um grupo de alunos vai conhecer todo o processo de fabricação de seres humanos.

No processo descrito a esse grupo de alunos (que tem como objetivo dar um panorama inicial ao leitor), podemos perceber que não há a participação de um “pai” ou uma “mãe”. Embriões são completamente gerados em laboratório, através de matrizes armazenadas em laboratório e pré-selecionadas. Não é como o processo de fertilização in vitro dos dias de hoje, em que a origem do material genético é completamente documentada e conhecida.

Ainda na “fábrica”, as pessoas são condicionadas biologicamente e psicologicamente a desenvolverem um papel na sociedade. Então se um grupo de indivíduos vai trabalhar em uma tarefa que exija não ter medo de altura, os embriões são condicionados a “gostarem” de altura: são virados de cabeça para baixo e só recebem nutrientes nessas condições (por exemplo). Além disso,cada embrião tem uma casta pré-determinada: alfas, betas, gamas, deltas e épsilones (ou ipsilones). Dentro de cada uma dessas castas há também subdivisões: alfa mais mais, beta menos, etc.  Os alfas são aqueles que estão em posição de liderança. Os deltas e os ipsilones são aqueles que desempenham as tarefas mais pesadas e que exigem menos esforço intelectual.

Como todas as castas já condicionadas desde o período embrional, não há revolta social. Todos estão encaixados ao que foram designados. Para fazer com que os deltas e ipsilones “pensem menos”, é inserido álcool em sua nutrição na fase embrional. Além disso, a estatura de todos os indivíduos também é determinada ainda na fase embrional: se para algumas tarefas braçais é importante que o sujeito tenha baixa estatura, isso é determinado.

Os “lotes” de pessoas são encomendados pelos governos. Há administradores (que naturalmente são alfas ‘mais mais’) que verificam a necessidade de uma determinada quantidade e subtipo de casta, para que o equilíbrio de suas nações seja mantido.

Todas as castas são estimuladas a consumir, desde a fase embrional. O consumo move a sociedade. Ninguém remenda roupas ou consome coisas ‘velhas’ (livros antigos, filmes antigos). Falando em livros antigos, eles são severamente censurados e ninguém tem acesso a qualquer obra antiga, principalmente aquelas que mencionem a ideia de individualidade, amor romântico, castidade, etc.

Ninguém tem hobbies ou esportes que não dependam da aquisição de bens. Os esportes (como nomes malucos, como tênis em superfície de Riemann) são feitos exclusivamente para que as pessoas consumam. Ninguém fica sozinho: as pessoas são condicionadas a interagirem entre si desde pequenos e o sexo tem um papel central nessa interação. Não existe o conceito de amor ou união estável: todos são de todos. A propósito, pessoas que não tem uma vida sexual ativa ou que saem várias vezes com um mesmo parceiro são consideradas problemáticas. Viram “o assunto da vizinhança” e esse tabu da sociedade retratada em AMN pode inclusive prejudicar no trabalho. Bernard Marx, um dos personagens da obra, não sai com muitas pessoas e é visto como uma aberração, um sujeito que provoca desbalanço na sociedade.

Vamos jogar tênis nessa nova quadra que construí.

Vamos jogar tênis nessa nova quadra que construí.

Ah sim, os nomes dos indivíduos: são designados nas fábricas, dependendo dos lotes. Eu comecei a rir sozinha quando entendi isso, porque lembrei de The Sims. Eu costumava jogar muito o primeiro The Sims. No jogo, você podia criar os moradores da cidade, escolher suas fisionomias, as características de suas personalidades, construir suas casas e procurar empregos para eles. Isso é muito AMN! Ah sim, nas expansões do jogo (como a da Ilha de Férias), surgiam personagens “aleatórios” criados pelo próprio jogo para interagir com os personagens que você criou. Muito, muito AMN. O jogo é cheio de referências a AMN e eu só fui entender isso depois que li o livro.

Onde está meu soma?

Onde está meu soma?

No jogo The Sims, há algumas famílias “criadas” pelo jogo que tem o sobrenome de escritores famosos. Em AMN, os “sobrenomes” são nomes de escritores, filósofos, políticos, personalidades históricas, etc do passado. Ah sim, e o fato de duas pessoas partilharem um sobrenome não queria dizer absolutamente nada, já que não existe o conceito de relações familiares na obra.

Depois que a gente entende a sociedade em AMN, vem o momento de desbalanço: entendemos que existem reservas de “selvagens”. Selvagens são pessoas que ainda tem relações monogâmicas duradouras, que ainda geram seus filhos e estão completamente alheios as vantagens e desvantagens do “Admirável Mundo Novo”. Uma reserva de selvagens em particular fica nos Estados Unidos. Os selvagens são povos indígenas, mas não 100% indígenas, há alguma miscigenação também. O conceito de “pai” e “mãe” é um tabu escandaloso para os sujeitos “fabricados”. Bernard Marx, o personagem que mencionei, é uma espécie de psicólogo e pretende ir na reserva de selvagens para vê-los de perto. Leva consigo Lenina Crowe, uma vacinadora do Centro de Incubação e Condicionamento, laboratório de Londres que “fabrica” pessoas. A propósito, Londres é uma metrópole muito importante na história.

Uma questão interessante de Lenina é a cor da roupa: ela usa verde. Verde é a cor associada ao uniforme dos Gamas, mas ela é uma Beta. E ela repete com frequência que “está feliz por não ser uma Gama”. O aprendizado das pessoas funciona em boa parte por hipnoterapia: enquanto crianças e adolescentes, ouvem repetidas vezes as lições (de higiene, de ordem social, etc) enquanto estão dormindo. Essa frase que Lenina repete sempre faz parte do condicionamento. Todos os indivíduos, de castas diferentes, são condicionados a estarem felizes dentro da casta determinada. Bernard Marx é um dos responsáveis pela implantação desse condicionamento, então ele é um sujeito que sabe desses detalhes da sociedade e é possível notar em seus discursos uma espécie de crítica a esses métodos. Marx cria problemas com seus superiores porque é um cara muito crítico e não “se encaixa” na sociedade: ele não é promíscuo, por exemplo.

Ah sim, Marx é muitas vezes considerado o fruto de um erro: ele é alfa mais, porém tem baixa estatura. Costumam dizer que “colocaram álcool no bocal enquanto ele era embrião, acidentalmente”. É um sujeito com um “defeito de fábrica”, por assim dizer.

Então Marx e Lenina vão a essa reserva de selvagens. Pouco antes de saírem, o diretor do  Centro de Incubação e Condicionamento, Thomas Tomakin, que é chefe de Marx e Lenina, conversa com Marx sobre a viagem. Ele conta que certa vez, muitos anos antes, foi para a Reserva de Selvagens com uma moça. E que um acidente aconteceu e a moça desapareceu. Ao que parece, ele faz isso para advertir Marx, para dizer que a viagem é perigosa.

Quando chegam em segurança a Malpaís (nome da Reserva de Selvagens), Marx e Lenina ficam horrorizados com o que veem: sujeira, miséria, gente velha (no “Admirável Mundo Novo”, não há gente velha: as pessoas fazem tratamentos para não parecerem velhas), roupas remendadas, etc. Lenina parece ainda mais horrorizada que Marx. Quando volta a hospedaria, Lenina toma soma.  Soma é uma espécie de droga que todos usam para ficarem bem e esquecerem dos problemas. A droga faz dormir, faz o indivíduo ficar desligado. Não tem os efeitos danosos do álcool e a soma é inclusive parte do pagamento semanal das castas inferiores. A soma é portanto algo como antidepressivos/álcool/outras drogas. Seria a tal da panaceia universal.

Ambos ficam surpresos ao ver dentre os habitantes de Malpaís uma mulher muito gorda, velha e sem dentes (na percepçãode Marx e Lenina). A mulher logo identifica-se como Linda, a tal namorada do diretor que desapareceu muitos anos antes. Ela contou que ficou perdida, não encontrou Tomakin e foi ‘acolhida’ em Malpaís. Na verdade. ela logo percebeu que estava grávida. Se estivesse na civilização, esse problema seria rapidamente resolvido e ela não teria o bebê. Com vergonha, acabou ficando em Malpaís e teve um filho, John.

Esse menino cresceu em Malpaís, não foi bem recebido pelo lugar (pois era branco, filho de mãe solteira, etc). Ah sim, Linda é tida como uma “depravada”, já que sai com todos os homens do local. Uma espécie de prostituta na visão dos selvagens, mas ela está apenas fazendo aquilo que é condicionada a fazer. John é desprezado pelos outros rapazes de sua idade de Malpaís. Sua “mãe”, Linda – que não permite que ele o chame de mãe – , vive falando sobre a vida “fora das cercas da reserva”, na civilização.

Marx, quando conhece John, vê uma oportunidade de ridicularizar e expor o diretor do Centro de Incubação e Condicionamento, já que eles não tem um bom relacionamento (Marx é tudo como um cara esquisito, que não se encaixa). E John vê uma oportunidade de conhecer a vida fora da reserva e talvez acredite que fora da reserva será bem recebido e não se sentira só e isolado por conta do preconceito.

Dessa forma, Marx acaba levando Linda e John para a civilização. Linda é tida como uma aberração e tratada com nojo e desprezo. Ela tem 44 anos, mas os efeitos do álcool (ela tornou-se alcoólatra em Malpaís, uma vez que lá não tinha a soma) e dos anos a fizeram parecer ter muito mais do que isso. Na verdade, ninguém envelhece no “Admirável Mundo Novo”, já que há solução para esse mal.

E por falar no título da obra, “Admirável Mundo Novo”, John é um ávido leitor de Shakespeare. Ele tem acesso a obras do autor em Malpaís e toda sua noção de moral é formada em cima da obra de Shakespeare. Como ele é isolado em Malpaís, ele até que consegue absorver algumas coisas da cultura dos selvagens, mas sua moral é bem permeada por obras como A Tempestade, Hamlet e Otelo.

“Oh, admirável mundo novo que encerra criaturas tais!”

 É uma das falas de Otelo e John a repete quando fica espantado com o mundo novo que acaba de conhecer.

Ah sim, John tem uma noção de ‘amor romântico’ e ‘sofrimento pelo amor’ totalmente moldada por Shakespeare. Quando conhece Lenina, ele se apaixona. Quando ela quer ter relações sexuais com ele, ele fica revoltado com ela e a considera “vagabunda”. Não com essa palavra, mas com essa ideia.

Acho que a essa altura da minha resenha já fiz muitas revelações do enredo. Não vou dizer o que acontece depois que John e Linda chegam na civilização, mas o choque deles é impressionante. John não consegue se encaixar na civilização. Enquanto em Malpaís ele sofria preconceito e não tinha amigos, na civilização ele não consegue ficar sozinho um momento sequer. Todos querem conhecê-lo, querem vê-lo, querem saber mais sobre um indivíduo que tem “pai e mãe”. Como Marx não é um sujeito muito popular, ele usa sua “amizade” com John (que é chamado de O Selvagem em boa parte do livro) para ser popular. John eventualmente percebe isso e fica de saco cheio. Ele apenas quer ficar sozinho, ter um momento só dele. Ele acaba se reconhecendo como indivíduo único: não é como um selvagem de Malpaís e nem é como um habitante do mundo civilizado.

A morte também surge como um dos temas da obra: a morte das pessoas não é chorada no Admirável Mundo Novo. É como uma máquina que quebra e é substituída por outra da mesma casta. As pessoas passam seus últimos dias em hospitais alegres. Crianças visitam os hospitais onde ficam as pessoas que estão quase morrendo. A visita é alegre, as crianças ganham sorvete, para condicioná-las de que a morte é uma coisa normal e até boa, por significar renovação num mundo que quer “tudo novo” a todo momento. As pessoas são cremadas e seus restos mortais são aproveitados na indústria. John, por outro lado, tem uma ideia completamente diferente da morte.

Ah sim, minhas críticas são duas:

–  Achei o livro racista: muitas das castas mais ‘baixas’ sempre são descritas como indivíduos de pele negra;

– Achei o livro machista: as mulheres são condicionadas a servirem os homens sexualmente. Embora, claro, elas gostem disso, percebo um condicionamento e um desbalanço nas relações. Não vi mulheres alfa também. são todas no máximo beta.

Sei que vão dizer que “ah, mas o livro foi escrito na primeira metade do século XX”, mas minha opinião de 2014 me mostra racismo e machismo. E se aparecer algum leitor aqui que vem despejar sua ironia e suas male tears diante de minha observação, que passem bem. Claro que apesar dessas ‘críticas’, que na verdade estão mais para observações, isso não significa que o livro é ruim e ninguém deve lê-lo. Pelo contrário, o livro é ótimo, é um clássico e é inevitável que façamos comparações com os dias atuais.

Agora o fato engraçado: meu exemplar de AMN foi obtido em uma troca. Troquei um porta-batom de acrílico pelo livro (se não me engano rs). O exemplar tem prefácio escrito por um filósofo-astrólogo que faz um certo sucesso na internet (e tem até seguidores). Sem nomes, porque não quero colaborar com o chorume em bytes. Enfim, só por ter escrito o prefácio o nome do sujeito aparece na primeira página, logo após uma breve biografia de Aldous Huxley. Achei tão desnecessário e tão egocêntrico. Daí que resolvi ler o prefácio escrito pelo sujeito (apesar de meu conceito já formado) e antes de começar a bocejar, comecei a rir da cara de pau dele. O filósofo-astrólogo sugere que a obra não é muito boa, mas Huxley é um cara maneiro. Oi? rs. Como se fosse contemporâneo e íntimo do escritor hahahahaha. O filósofo-astrólogo e mala nasceu em 1947 e Aldous Huxley morreu em 1963. Como o mala-sem-alça-astrólogo-filósofo é de uma desonestidade intelectual costumeira, num cenário absurdo é bem capaz de ele reivindicar uma amizade com o escritor rs.

Enfim, abandonei a leitura do prefácio (coisa que raramente faço, sou dessas chatas que leem o livro de ponta a ponta) e fui direto para o livro.

Há, no entanto, uma nota do autor bem no começo da edição que li. Nessa nota, Huxley fala do que teria escrito diferente e faz algumas colocações críticas sobre a obra. Essa nota é bem interessante e ajuda a compreender melhor a obra.

Bom, se recomendo AMN? Claro que sim! Uma obra fundamental da ficção científica e uma crítica à sociedade de consumo, para não mencionar outras coisas que não percebi ou não me lembro. É um daqueles clássicos que devem ser lidos, já que são usados como referência em outras obras do nosso tempo.

Na Livraria Cultura há duas edições que recomendo:

Edição de bolso da Globo;

Essa da Biblioteca Azul;

Agora quero ler o que parece ser um ensaio do Aldous Huxley: Regresso ao Admirável Mundo Novo.  De acordo com o comentário da Livraria Cultura:

Neste livro, o autor defende a necessidade da raça humana educar-se em liberdade, antes que seja muito tarde. A atenção de Aldous Huxley é focalizada no que ele considera os dois maiores perigos à raça humana, à parte da bomba H – superpopulação e superorganização.

Ou seja, é um ensaio em cima de alguns temas que foram abordados em Admirável Mundo Novo. Pretendo ler e acho que vai me ajudar a conhecer mais sobre o autor e sobre a obra.