Resenha de “O Sonho da Sultana”, de Roquia Sakhawat Hussein



Antes de fazer a resenha deste conto, vou falar duas coisas:

– Quem foi Roquia Sakhawat Hussein?

– Por que você deve ler? [Sim, vou falar isso antes de fazer a resenha rsrs não há regras]

Quem foi Roquia Sakhawat Hussein?

Roquia Sakhawat Hussein nasceu em 1880, em um vilarejo localizado em Bengala. A região é conhecida por ter um golfo com o mesmo nome,  Golfo de Bengala, que é o maior do mundo. Atualmente, a região de Bengala foi dividida: há o estado indiano de Bengala e o país Bangladesh. São regiões muito chuvosas, inclusive alguns recordes de precipitação mundial pertencem a esta região:

– Maior quantidade de chuva acumulada em um ano:  26470mm em Cherrapunji, Índia (1860-1861)

– Maior média anual total: 11872mm em Mawsynram, Índia.

Veja abaixo essas localidades na Índia. Elas são muito próximas, por isso aumente o zoom do mapa para conhecê-las.

É possível notar que os dois locais mencionados (marcados com balõezinhos no mapa acima) ficam na região de Bengala, onde nasceu Roquia (falei de outros recordes de precipitação nesse post). Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com a biografia de Roquia, bom, na verdade tem muito a ver com o conto que vou resenhar, então guardem essa informação rs

A autora era de uma influente e abastada família muçulmana. Aprendeu diversos idiomas, incluindo o bengali, que era um “idioma das massas”, já que a elite muçulmana preferia usar o persa ou o árabe. Ela preferiu usar esse idioma para que sua obra tivesse maior alcance. Como muitas moças muçulmanas daquele tempo (e até dos dias de hoje), Roquia casou-se muito cedo. Aos 16 anos, era casada com um magistrado que felizmente a apoiou em continuar seus estudos e a apoiou em sua carreira literária. Em 1902, Roquia lança seu primeiro trabalho: Pipasha, um ensaio escrito no idioma Bengali (o título significa sede neste idioma).

Depois que ficou viúva, Roquia fundou uma das primeiras escolas voltadas para a educação formal de garotas muçulmanas: Sakhawat Memorial Girl’s High School. A escola começou apenas com 5 alunas, mas logo tornou-se um sucesso. É uma das mais importantes escolas femininas e está em funcionamento até hoje na cidade de Calcutá.

Uma das coisas que Roquia defendia e deixava muito claro em seu trabalho é que as meninas merecem educação formal assim como os meninos. Isso é uma questão não resolvida até hoje em muitos países muçulmanos. Quando escrevi a resenha do excelente Cabul no Inverno, falei um pouco sobre esse tema. Ou seja, no início do século passado Roquia tratou de questões que ainda são discutidas até hoje. Falou de pontos que infelizmente estão longe de serem completamente resolvidos. Isso que torna a obra de Roquia tão importante e tão única. Uma das pioneiras e uma das expoentes do feminismo no mundo muçulmano.

Por que você deve ler?

Vou separar meus argumentos em tópicos principais:

– Porque é Ficção Científica Feminista: esse trabalho foi um dos pioneiros em colocar a mulher como protagonista, como tomadora de decisões, na ficção científica. Há trabalhos mais recentes (do tal “moderno Ocidente”), que colocam as mulheres como a namoradinha do herói, a bonitona (eye candy), a sexy burra, dentre outros estereótipos.

– Porque é Ficção Científica “antiga”: adoro ver o que as pessoas pensavam em termos de “modernidade” e como elas imaginavam as tecnologias avançadas que ainda não dispunham. Fico surpresa como algumas “profecias” se cumpriram, enquanto outras ficaram bonitas e interessantes somente no papel.

– Porque é um trabalho de uma cultura diferente da nossa: isso é muito importante! Sair um pouquinho do universo dos escritores ocidentais nos ajuda a expandir nossos horizontes e a aprender mais sobre outras culturas, tentando ver os mesmos assuntos que lidamos diariamente sob outra pespectiva

Onde consigo pra ler?

A Sybylla e a Aline Valek fizeram uma edição gratuita em português. A Sybylla fez a tradução e a Aline Valek fez a edição, a revisão e a capa. E olhem que capa mais linda (a imagem segue na sequência)!

Há uma ilustração muito graciosa também no interior do livro, pouco antes da breve biografia de Roquia. A propósito, a maioria das informações na breve biografia que escrevi foi obtida no livro.

Ah sim, já contei que é gratuito?  Está sob uma licença Creative Commons, pode ser livremente distribuída e compartilhada desde que a autoria da tradução seja mencionada, o conteúdo não seja modificado e não haja nenhum uso comercial. Para baixar o conto de Roquia e conhecer também a obra de Ficção Científica brasileira Universo Desconstruído (prometo uma resenha, que está mais do que atrasada), clique aqui.

Finalmente, a resenha:

03_livro
Capa da edição brasileira, com ilustração maravilhosa da Aline Valek

A Sultana está descansando em uma poltrona, refletindo sobre a condição da mulher indiana. Ela deve estar pensando na desigualdade entre os gêneros e no fato de as mulheres terem que ficar sob a purdah. Quando uma mulher que ela não conhece surge e passa a conversar com ela. Ela logo fica amiga dessa mulher a passa a chamá-la de Irmã Sara. A Sultana então nota que não está em sua cidade, mas sim em um lugar estranho que num primeiro momento passa medo e estranheza. Nesse novo mundo, bastante avançado tecnologicamente, as pessoas vivem em paz e as mulheres estão no poder.

O enredo é basicamente este e é incrível como em poucas páginas tantos temas são abordados. E mais incrível ainda é que o livro foi escrito no início do século XX e ainda assim é bastante atual.

As relações da mulher com o trabalho são mencionadas. A autora deixa claro sua opinião sobre a eficiência feminina. De acordo com a obra, os homens passavam 7h trabalhando, mas passam a maior parte do tempo fumando ou conversando. Eles não são eficientes. Já as mulheres trabalham apenas 2h por dia (a Irmã Sara trabalha em um laboratório, por exemplo) e usam o restante do dia para cozinhar e embelezar o mundo com arte e jardinagem. Sim, para a autora, cozinhar é uma delícia. Confesso que concordo muito com essa parte 🙂

Temos que ressaltar também que a obra descreve uma utopia: um mundo belo, com flores e artes. Casas confortáveis e aconchegantes, além de belos jardins em todos os lugares. A ciência serve as pessoas: faz com que elas tenham uma vida melhor. O mundo da Irmã Sara também é um mundo mais limpo, sem lama e aparentemente sem poluição!

A Mulher e a Academia é um outro tema abordado no conto. Uma das revoluções no mundo da Irmã Sara foi através da educação formal para mulheres. Havia uma ‘competição’ (no sentido positivo da palavra) entre universidades, em que as pesquisadoras competiam pela melhor invenção. Inclusive uma das invenções ajuda na vitória de uma batalha, que foi motivada pelo fato de a Rainha ter permitido que refugiados de outro país mais cruel vivessem livremente em seu país. Ou seja, até a guerra parece ter um motivo lógico.

Sobre a vitória nesse armistício, a luz solar foi usada como arma. Bom, percebi que a autora (que era poliglota e falava também inglês), provavelmente tinha referências greco-romanas. Quando Perseu degolou Medusa, para evitar que eles cruzassem o olhar, ele poliu seu escudo para que a luz solar cegasse Medusa e ela virasse a cabeça para o lado. Há também a lenda de que Arquimedes teria orientado os soldados romanos a polirem seus escudos a ponto de transformarem-nos em espelhos côncavos. Dessa forma, quando os navios do inimigo estavam chegando no porto, os soldados se organizavam em um semi-círculo e direcionavam seus espelhos para refletirem raios solares nos navios dos inimigos de maneira focalizada. Reza a lenda que dessa forma os navios inimigos pegaram fogo. Bom, há esse texto muito bom que discute essa lenda.

Mas também né, provavelmente a cultura greco-romana sofreu influências de outros povos. Sendo assim, pode ser que exista uma lenda persa, árabe ou indiana semelhante à de Perseu ou semelhante à história de Arquimedes. Nunca se sabe.

Ao falar dessa possível inspiração, não quero de forma alguma desmerecer o trabalho de Roquia. Pelo contrário: ela era uma mulher inteligente, bem educada, que certamente leu todo tipo de material que era disponibilizado a ela. Acredito que ela seja uma inspiração :).

E por falar ainda em luz solar, no mundo da Irmã Sara há uma tecnologia que permite “armazenar” a luz solar, para que assim o calor possa ser usado para cozinhar. Achei tão fantástico! No início do século, a maioria das casas de diversas regiões do planeta usavam fogão a lenha ou fogareiros. Minha mãe, quando era criança na década de 1960 e morava em uma cidade do interior da Bahia, conta que cozinhava com fogão a lenha também. Ainda hoje muitas pessoas utilizam esses tipos de fogões e sonham com eletrodomésticos que facilitem o trabalho diário. Por outro lado, há pessoas que conservam o fogão a lenha por nostalgia ou apenas para aquecer a comida.

A Energia Solar é bastante promissora. Regiões como o Sertão Nordestino, em que há poucos dias nublados por ano, seriam muito beneficiadas com a implantação desta fonte de energia, que é limpa. A grade sacada de Roquia foi ter percebido o caráter limpo desse tipo de energia e foi ter imaginado que em uma civilização mais avançada tecnologicamente a Energia Solar seria uma importante matriz energética.

Outro tema abordado na obra é a obtenção de água das nuvens. A propósito, se vocês observarem bem a linda capa da edição brasileira, vão notar um encanamento de água que desce das nuvens. Segundo o conto, canalizar a água das nuvens faz com que não ocorram tempestades e possibilita que a água seja usada na irrigação, por exemplo. Se a gente pensar bem por alto, isso até que seria possível. Mas como manter os encanamentos estáveis e como fazer com que eles saiam de onde as nuvens se formam?

No entanto, a água que vem das nuvens é aproveitada em algumas regiões do planeta. O catanieblas ou aparanieblas é uma espécie de rede usada em algumas regiões do Deserto do Atacama (falamos desse assunto aqui). Essa rede capta as gotinhas das nuvens, que escorrem por um encanamento. A água é usada principalmente para irrigação dos cultivos da região.

As nuvens do nevoeiro passam por redes como esta.As gotículas das nuvens ficam ‘presas’ nas redes e escorrem para um reservatório. Essa água então é usada para o consumo e para a irrigação.

Acredito que Roquia pensou nisso em O Sonho da Sultana justamente por vivem em uma área onde o regime de monções traz chuvas tão intensas todos os anos. Talvez observando aquela chuva toda, gerando inconvenientes e tragédias, ela pensou em aproveitar aquela água de outra forma.

Algumas pessoas podem discordar, mas vejo na ficção científica esse caráter “previsor”. A nossa imaginação cria soluções para nossos problemas. Como os autores de ficção científica normalmente tem um interece por ciência e sempre estão de olho nas novidades e nas descobertas, acredito que essas tais “previsões” saiam de maneira bastante natural. Roquia, na minha opinião, previu a importância da Energia Solar como fonte de energia limpa e previu também a captação da água das nuvens. No então, esses não são os méritos principais da obra de Roquia como um todo (não apenas do conto “O Sonho da Sultana”). Roquia imaginou um mundo com maior igualdade entre os gêneros, principalmente dentro do universo que ela vivia (ela era uma muçulmana indiana). Sua imaginação, na verdade, é o sonho de todas as mulheres de todo o mundo.

É importante avisar aos “desavisados apressados” que o objetivo das feministas não é oprimir os homens. O objetivo é a luta por nossos direitos. Pode até existir alguma ou outra mulher que se diz feminista e pretende que os homens sejam oprimidos, mas nem preciso dizer que esse pensamento é totalmente equivocado. O “Sonho de Sultana” deve ser enxergado como uma obra de questionamento: e se os homens fossem submissos? e se eles ocupassem a posição de oprimidos? Acredito que o principal objetivo de trabalhos que colocam mulheres em posições de opressoras seja exatamente este. É um equívoco e uma enorme desonestidade intelectual pensar o oposto (e há quem o faça pelos confins da internet).

Se eu recomendo o conto? Mas é claro que sim =). Leiam! Ele é curtinho, a tradução da Sybylla está muito boa. Há inclusive boas notas, explicando termos da religião muçulmana e referentes a época em que viveu Roquia.

P.S.: Apenas para deixar bem claro, a tecnlogia do mundo da Irmã Sara propõe que a água seja canalizada a partir de nuvens de tempestade, os Cb’s (ou antes de se tornarem Cb’s, quando aunda são Cu’s). Os Cumulonimbus e os Cumulus são nuvens de desenvolvimento vertical e normalmente possuem bases mais altas que as nuvens baixas (Stratus – St), que formam os nevoeiros. A base das nuvens Cu ou Cb fica numa altura em torno de 1,5km-2,0km. Já os nevoeiros podem inclusive se formar bem perto da superfície, por isso é mais fácil alcançar nuvens St do que nuvens Cu ou Cb. A tecnologia dos catanieblas recolhe a água de nuvens de nevoeiro (St).

Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.
Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.

Para mais informações sobre tipos de nuvens, seus nomes e suas alturas típicas, veja esse post.