As Latitudes dos Cavalos



Capa do single, lançado em janeiro de 1972. Fonte: Wikimedia Commons
Capa do single, lançado em janeiro de 1972. Fonte: Wikimedia Commons

Eu estava ouvindo a música A Horse with no name, do America e lembrei que tinha lido que a música se chamaria Desert Song.

A música descreve uma viagem no deserto do Arizona e do Novo México em direção ao Oceano Pacífico e é uma de minhas músicas favoritas.

And the sky with no clouds / The heat was hot and the ground was dry

Pura meteorologia! Pelo que li, o grupo inspirou-se em gravuras de cavalos feitos por Escher e em “desertos” que aparecem em pinturas Salvador Dalí. Como se os cavalos de Escher tivessem “saído” da gravura (o que quase é possível) e entrado no quadro de Dali. Impressionantemente criativo.

Abaixo, algumas das gravuras de Escher que retratam cavalos. Escher costumava deixar o apreciador “confuso”, tentando pegar todos os detalhes da imagem:

Escher Escher

E em diversos trabalhos de Dalí, o “fundo”, o “horizonte ” parece ser um deserto. Em dois de seus trabalhos, A Persistência da Memória e O Grande Masturbador o “fundo” é na verdade uma região do litoral da Catalunha, o Cabo de Creus. Bom, a verdade é que olhando assim parece mesmo um deserto:

A Persistência da Memória, de Salvador Dali
A Persistência da Memória, de Salvador Dali
O Grande Masturbador, Salvador Dalí
O Grande Masturbador, Salvador Dalí

Daí fiquei com vontade de escrever um post falando das Latitudes dos Cavalos. Mas o que que é isso?

horselatitudes

As Latitudes dos Cavalos são localizadas aproximadamente em 30°N e 30°S, como mostra a figura acima. Aproximadamente nessas regiões é onde os ventos de escala global divergem: vamos ter ventos em direção ao Equador (os alíseos) e ventos em direção aos polos (os mais conhecidos são os ‘westerlies’). Essa divergência dos ventos resultam em uma área de alta pressão, com ventos calmos, céu ensolarado e pouca ou nenhuma precipitação.

Agora vou relacionar uma série de posts que já escrevi aqui no Meteorópole. O primeiro deles é este, quando falo sobre os ventos em escala global. Falo sobre as células de circulação no globo e menciono a Célula de Hadley, que é importante para definirmos a latitude dos cavalos:

A célula de Hadley é o nome dado a um dos padrões de circulação global (em vermelho, na ilustração). O ar sobe na região do Equador terrestre, provocando convecção (Zona de Convergência Intertropical). Em níveis mais altos da troposfera, o ar desloca-se para os trópicos (próximo as linhas dos trópicos de Câncer e Capricórnio, ou seja, nos dois hemisférios). O ar desce sobre essas regiões e volta, em superfície, para o Equador. Fonte: The COMET Program
A célula de Hadley é o nome dado a um dos padrões de circulação global (em vermelho, na ilustração). O ar sobe na região do Equador terrestre, provocando convecção (Zona de Convergência Intertropical). Em níveis mais altos da troposfera, o ar desloca-se para os trópicos (próximo as linhas dos trópicos de Câncer e Capricórnio, ou seja, nos dois hemisférios). O ar desce sobre essas regiões e volta, em superfície, para o Equador. Fonte: The COMET Program

Por volta dos 30°S e 30°N é onde está o ramo subsidente da célula de Hadley. Isso significa que o ar está descendo. Em baixos níveis, na superfície, o ar está indo em direção ao Equador (os alíseos). Nesse post, falei um pouco mais sobre isso:

Fonte: The Waveform Diary
Fonte: The Waveform Diary

Traduzindo cada um dos passos que explicam a Célula de Hadley na figura acima:

A: O Sol aquece o ar no Equador. O ar quente sobe e o vapor d’água condensa. Um montão de chuva!

B: O ar é transportado na direção dos pólos em altitudes elevadas, tanto no Hemisfério Sul quanto no Hemisfério Norte. É aqui que temos oscontra-alísios.

C:  O ar então desce por volta dos 30°S ou 30°N (dependendo do Hemisfério). Nessas regiões, é bastante seco. Mas é claro, há fatores locais que fazem com que não necessariamente haja um deserto (leia mais aqui).

D: Perto da superfície, o ar seco vai em direção ao Equador. E aqui temos os alísios. No meio do caminho, o ar vai pegando umidade. E então o ciclo continua, voltando para A.

E é aproximadamente por volta dos 30°N e 30°S que temos desertos. Até falei um pouco sobre esse assunto nesse post (e nesse outro também, em que defino a palavra deserto). Por essa razão, lembrei da música do America. De fato existem raças de cavalos adaptadas aos desertos. Há o Cavalo do Deserto da Namíbia, um cavalo feral que tem como ancestrais cavalos criados por alemães em fazendas da região durante a Primeira Guerra Mundial.

Cavalo do Deserto da Namíbia. Fonte: Wikimedia Commons
Cavalo do Deserto da Namíbia. Fonte: Wikimedia Commons

Há também os famosos cavalos árabes, que são muito utilizados pelos beduínos. São totalmente adaptados às condições de deserto. É a raça de cavalo mais antiga do mundo: há evidências de que já eram usados para carga em 2500 a.C.

Cavalo Árabe. Fonte: Wikimedia Commons
Cavalo Árabe. Fonte: Wikimedia Commons

Bom, aparentemente é só uma coincidência, embora interessante. Fui pesquisar porque a Latitude dos Cavalos tem esse nome e a história é bastante curiosa. Tem a ver com cavalos, mas não tem a ver com uma raça de cavalos específica.

Quando os navegadores europeus saiam em direção ao Novo Mundo (ou América rs),  frequentemente ficavam presos por dias ou até semanas quando eles encontravam essas áreas de alta pressão, onde os ventos eram muito fracos e prejudicavam a navegação. Além disso, não chovia nada. Dessa maneira, a tripulação logo ficava sem água.

Nessas grandes naus também eram transportados todo tipo de carga viva, como cavalos, por exemplo. Para economizar água e muito desesperada, reza a lenda que a tripulação jogava os cavalos no mar. Dessa maneira, teriam mais água para o consumo humano.

O que também me inspirou e me deu as informações necessárias para escrever esse post, foi esse tweet da NOAA: