Como a mudança climática está deixando o smog ainda pior



Antes de mais nada, é preciso definir o que é smog.

Smog na cidade do Cairo, Egito. Fonte: Wikimedia Commons
Smog na cidade do Cairo, Egito. Fonte: Wikimedia Commons

O termo smog deriva de smokefog, ou seja fumaça e nevoeiro/neblina. Refere-se normalmente ao ar altamente poluído que se forma sobre as grandes cidades em episódios de ar estável e relativamente úmido, quando há emissões de dióxido de enxofre e aerossóis, oriundos da queima de combustíveis fósseis.

Atualmente, o termo smog é usado para definir episódios de poluição do ar muito severa em áreas urbanas, com redução da visibilidade. Para separar dos episódios de nevoeiro comuns (que ocorrem no inverno, durante a madrugada, perto de lagos, etc), muitas estações meteorológicas usam o termo névoa seca.

O chamado smog clássico (ou smog de Londres) vem de uma época em que não havia regulamentações para a poluição do ar e o debate acadêmico sobre o assunto ainda era incipiente.

Em 1661, John Evelyn, inglês que costumava escrever em diários (que eram muito úteis no passado e ainda o são, na forma de blogs). Ele notou, empiricamente, que a poluição do ar da cidade de Londres estava afetando a saúde das pessoas e das plantas. No século XVII, havia relatos de plumas de cerca de 800m de altura e 32 km de largura que cobriam parte da cidade de Londres. Uma das sugestões de Evelyn era de que as indústrias ficassem mais distantes da cidade e de que as chaminés fossem mais altas.

Com o relato de Evelyn, quero dizer que mesmo que a discussão acadêmica fosse incipiente e mesmo que não houvesse regulamentação, claro que as pessoas já notavam os efeitos da poluição do ar em suas vidas.

No tipo clássico de smog, algumas partículas de poluição do ar são higroscópicas, ou seja, tem afinidade com a água, Elas servem de núcleo de condensação para que a umidade do ar se deposite sobre elas. O resultado é um denso nevoeiro. O gás dióxido de enxofre dissolve nas gotinhas que formam esse denso nevoeiro, onde oxidam e formam o ácido sulfúrico, ácido relativamente forte que prejudica as vias respiratórias.

Um episódio marcante de smog londrino foi o Great Smog de 1952. Por 5 dias, os moradores de Londres enfrentaram o pior episódio de smog já registrado. Cerca de 4000 pessoas morreram durante esses dias, em decorrência de problemas respiratórios e mais 8000 pessoas morreram nos meses subsequentes. Depois desse horrível episódio, leis foram aprovadas no Reino Unido para que fosse eliminado o uso de carvão e lenha para aquecimento doméstico. As leis foram sendo regulamentadas e implantadas em outros países também, mas ainda hoje a poluição do ar é um problema muito sério nas grandes metrópoles mundiais. Falei um pouco sobre o perfil da poluição em São Paulo nesse post. As cidades cresceram muito e em muitos casos (como São Paulo) os maiores poluidores são os veículos. No entanto, ainda há cidades na China e na Índia que não tem leis rígidas sobre o assunto e onde ainda queima-se carvão ou lenha na indústria e para aquecimento residencial.

Até aqui contei um pouco da história do smog clássico, vamos ao smog fotoquímico (que também é conhecido na literatura como Smog de Los Angeles). Ele se forma de maneira diferente e tem mais a ver com nossa cidade, São Paulo.

Em muitas metrópoles pelo mundo, atualmente a maior fonte de poluentes vem dos automóveis. Essa poluição pode ser combinada com luz solar e com eventos de “ar estagnado“, formando o smog de orígem fotoquímica.

Não vou entrar nos detalhes sobre a química, mas acontece que os veículos emitem muitos poluentes. Aqui vamos nos ater aos óxidos de nitrogênio (NO2 e NO) e aos compostos orgânicos voláteis (hidrocarbonetos, aldeídos e outras moléculas a base de carbono). Em situações de luz solar intensa (dias de outono completamente sem nuvens, por exemplo), ocorrem reações químicas entre essas substâncias que formam o ozônio troposférico, um poluente secundário altamente oxidante, que irrita as mucosas, piora quadros alérgicos, etc. O ozônio estratosférico, da “camada de ozônio” nos é benéfico pois filtra parte dos raios UV. No entanto, quando próximo da superfície, esse ozônio prejudica nossa saúde. É por isso que atualmente discute-se tanto a melhoria dos transportes coletivos por um motivo principal: saúde. Melhorando o transporte público e tornando-o cada vez menos poluente, menos carros estarão nas ruas para emitir os componentes primários que formam o ozônio. Além disso, as emissões de material particulado (outro tipo de poluente, altamente prejudicial ao sistema circulatório e respiratório), também serão reduzidas.

Depois de ter feito essa introdução sobre tipos de smog, vamos ao artigo que li essa semana e me motivou a escrever esse post. A mudança climática está alterando a circulação atmosférica e os padrões de precipitação. Os extremos (período seco intenso e período chuvoso mais intenso ainda) estão ficando comuns em boa parte do globo.

Em alguns lugares do planeta, poderemos ter menos chuvas e menos ventos. Em um recente estudo publicado na Nature Climate Change [veja reportagem sobre o artigo aqui e veja informações sobre a publicação aqui], os pesquisadores observaram  a frequência e duração dos eventos de ar estagnado. Eventos de “ar estagnado” ou simplesmente estagnação são condições que limitam a dispersão dos poluentes, ou seja, ocorrem quando os ventos são fracos (perto da superfície e nas camadas mais acima também) e quando não há precipitação.

Se as concentrações de gases de efeito estufa continuarem aumentado, a temperatura média global poderá subir até 4°C até 2100. Usando modelos climáticos, os autores do artigo mencionado acima concluiram que as áreas sujeitas a eventos de ar estagnado podem atingir até cerca de 55% da população mundial. Algumas regiões podem sofrer aumento de mais 40 dias no total de eventos de estagnação por ano. Evidentemente, esse fato teria um enorme impacto na saúde humana.

E como o smog afeta a saúde humana? Apesar de ter citado o material particulado, não deixei claro que ele faz parte do smog, de certo modo. Porque sempre que tem os poluentes necessários para formar o smog fotoquímico (o caso mais comum nos dias de hoje), também há material particulado, já que as fontes desses poluentes são as mesmas.

Há pelo menos 4 pontos em que o smog pode afetar a saúde humana:

1) Cérebro:  alguns poluentes podem causar problemas cognitivos, pois as partículas podem atuar na degeneração dos neurônios.

2) Pulmões: material particulado bem pequeno, pode entrar nos pulmões e acumular dentro deles, resultando em inflamações e até problemas respiratórios.

3) Coração: níveis elevados de poluição estão associados com o risco de ataques cardíacos e acidentes vasculares,

4) Reprodução: os poluentes podem causar toxicidade no sangue da placenta, prejudicando o feto.

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