E esse trem interessante em Wuppertal?



Outro dia, um querido amigo compartilhou no Facebook uma foto interessante. Tratava-se deste trem em Wuppertal, na Alemanha:

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Trata-se do Wuppertal Suspension Railway (Wuppertaler Schwebebahnou Ferrovia Suspensa de Wuppertal (acho que a tradução em português é algo mais ou menos assim). É o trem em suspensão mais antigo do mundo. Foi projetado por Eugen Langen, que pretendia vender a ideia para a cidade de Berlin. A construção desse sistema ocorreu entre 1897  e 1903 e o primeiro trecho abriu em 1901. Ainda hoje o sistema é utilizado, transportando cerca de 25 milhões de passageiros por ano.

A rota total possui 13,3km e está suspenso a uma altura de 12m. O trajeto passa sobre o Rio Wupper e também está suspenso sobre algumas ruas da cidade, na forma desses “minhocões”, dessas passagens elevadas.  Cruza também uma autobahn (auto-estrada, rodovia) no caminho. O trajeto inteiro leva 30min.

Não entendi muito bem, mas parece que na parte de cima desses minhocões também passa outro trem. Olhando outras fotos (veja aqui) não achei que esses minhocões tenham deixado a cidade feia, como ocorre aqui em São Paulo nos arredores do Elevado Costa e Silva. O que deixa a cidade feia é o descaso da prefeitura e o descaso dos moradores também, que não se preocupam em manter a cidade limpa e organizada.

Parece aquele trem do filme Fahrenheit 451, não parece?

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Cena de Fahrenheit 451

A propósito, esse filme de 1966 foi baseado no livro homônimo de Ray Bradbury. A história narra um futuro distópico em que a Literatura é considerada uma “fuga” para a vida real, e por essa razão o governo totalitário manda colocar fogo em todos os livros e também pune severamente quem insiste em manter livros em casa. Recomendo tanto o livro quanto o filme, dirigido por François Truffaut.

A imagem acima é realmente uma cena do filme. Esse transporte é muito usado pelos personagens do filme. A história deixa a entender que pessoas de todas as origens utilizam o transporte coletivo, exatamente como funciona em grandes cidades da Europa. Percebo que no Brasil, transporte público é “coisa de pobre” e por essa razão é enxergado com negatividade. Muitas pessoas passam a ganhar um pouco mais e logo adquirem um carro, como uma espécie de prioridade.

O trem utilizado no filme foi construído por um consórcio francês chamado SAFEGE, que dentre outras atividades, atua na construção de monotrilhos suspensos (construiu no Japão e na Alemanha – não o de Wuppertal, mas o da Universidade de Dortmund  e no Aeroporto de Düsseldorf) . De acordo com a empresa, os trens que eles fabricam tem uma vantagem sobre o sistema usado em Wuppertal: não precisam de mecanismos para remover neve ou gelo. Pensando bem, qualquer sistema de trem em suspensão tem essa vantagem: não acumula neve nos trilhos. Essa vantagem é muito importante em cidades sujeitas a esta fenômeno meteorológico.

O trem utilizado em Fahrenheit 451 foi desmontado após as filmagens do filme. O estranho no filme é que não existiam estações: as pessoas desciam por uma escada que saia por um alçapão do trem rs. Claro que na prática não é assim que funciona.

O amigo que compartilhou a foto do trem é alemão e sempre vem ao Brasil com a esposa (que é minha querida amiga Jaqueline, responsável pelo layout desse maravilhoso e modesto blog). Ele sugeriu que esses trens pudessem ser usados nas pontes que atravessam os rios Tietê e Pinheiros. Seria um interessante transporte para quem precisa atravessar de uma margem para outra com rapidez. Infelizmente as grandes cidades brasileiras não se desenvolveram pensando no pedestre e no transporte coletivo. A cultura do automóvel ainda é presente entre nós, tanto que em um determinado momento da vida todo paulista sente-se pressionado a adquirir um automóvel.

Fora da cidade de São Paulo, nas cidades do interior (e me perdoem mais uma vez por falar de São Paulo, é que moro aqui e vivencio mais as coisas), o transporte coletivo é ainda mais precário. Em algumas cidades do interior de São Paulo já peguei ônibus velhos e sujos. O descaso com o deslocamento é tão grande que conheço famílias com quatro carros, um para cada indivíduo. Muita emissão de poluentes e muito gasto financeiro (para manutenção, seguro e combustível).

Imagine se tivéssemos diversos meios de transportes, todos integrados: transportes para trajetos curtos (como esse trem elétrico de Wuppertal, que mostrei acima), para trajetos mais logos (trens, metrôs e ônibus elétricos) e para trajetos bem curtos, o uso de bicicletas ou patins. Nessa São Paulo utópica, consigo até imaginar os rios despoluídos sendo usados para transporte e lazer. Além disso, a cidade deveria ser toda repensada para que as pessoas pudessem circular por ela a pé ou de bicicleta. Há lugares em São Paulo (como algumas casas de shows), onde é praticamente impossível chegar de transporte público de maneira confortável. No entanto, toda estrutura em torno deixa bem claro que o local foi feito para que as pessoas chegassem de carro! E isso é um fator bem claro de exclusão também. Limitando o acesso para quem tem carro, pretendem dificultar o acesso de quem não tem carro (ou seja, pobres). Só lembrar o caso da estação de metrô no bairro de Higienópolis (o Guilherme Boulos lembrou do fato nesse ótimo texto, que argumenta o quanto a cidade é segregadora).