Imagens meteorológicas fake



Eu estava nessa “internet meteorológica” quando vejo esse link do The Weather Channel sobre imagens meteorológicas falsas ou usadas a exaustão.

Como meteorologista (e existem poucos meteorologistas nesse mundão), muitas pessoas com quem me relaciono me tratam como uma curiosidade ou aberração (rs). Não estou falando de amigos ou colegas, esses já se acostumaram. Mas falo daquelas pessoas que acidentalmente, por aí, vão preencher uma ficha com seus dados (para um cartão ou coisa do tipo) e acabam perguntando sua profissão. Ou o amigo do primo do vizinho que você acaba conhecendo casualmente em um evento social e no desenrolar da conversa, pergunta o que você faz.

Já presenciei todo tipo de reação. Por exemplo:

–  A pessoa para a festa toda e diz – OLHA PESSOAL ELA É METEOROLOGISTA 

–  A pessoa pergunta  – CHOVE AMANHÃ? ou  –VOCÊ VAI TRABALHAR NA GLOBO?

– HOJE EM DIA É FÁCIL SER METEOROLOGISTA, O COMPUTADOR FAZ TUDO (dito por aqueles tipos arrogantes-engraçadalhos que nunca deveriam sair de casa)

– QUE LEGAL! O QUE VOCÊ FAZ?

BACANA

DIFERENTE

– NOSSA, QUE LEGAL, ADORO CIÊNCIA ETC (quero ser melhor amiga desses)

Enfim, em quase todos os casos as pessoas me adicionam no Facebook. É o destino dos dias de hoje, as pessoas te adicionam no Facebook. E algumas mantém contato, o que é muito bacana (o arrogante engraçadalho eu bloqueio, risos). E algumas me marcam em tudo que é foto de fenômeno meteorológico. Só para dizer que ao ler a reportagem do TWC, eu pensei: Nossa, porque ninguém nunca tinha escrito nada sobre isso?

É inegável que as mídias sociais tem sido grandes aliadas do trabalho dos meteorologistas. Seja na divulgação e popularização da Meteorologia (que é o que faço aqui no Meteorópole) ou na divulgação da previsão do tempo. Muita gente consulta a previsão do tempo pelo celular antes de sair de casa, vários alunos já me contaram isso durante as palestras que participo.

Por exemplo, se a previsão do tempo indica a possibilidade de um evento extremo (uma tempestade com possibilidade de alagamento, por exemplo), soltar alertas concisos e que podem ser facilmente consultados por usuários de redes sociais é uma oportunidade para evitar danos materiais e até perda de vidas.

Outro fenômeno que é facilmente observado nas redes sociais é a documentação fotográfica, vamos chamar assim. É super comum ver usuários compartilhando fotos de tempestades que estão presenciando, fotos de pontos de alagamento por onde estão passando, etc. Essas imagens e geolocalização delas pode inclusive ajudar outros usuários, que planejavam passar pela mesma região.

Por outro lado (e é disso que fala o texto do TWC), as redes sociais fizeram com que a tarefa de espalhar um boato ficasse ainda mais fácil. A gente vê todo tipo de boato sendo espalhado, o site e-farsas está desde 2002 no ar, discutindo todas as farsas compartilhadas na internet e sempre em busca da verdade sobre esses causos. No passado, essas farsas eram compartilhadas por meio de correntes de e-mail. Seu amigo recebia dos colegas de trabalho e espalhava para vizinhos e familiares, que espalhavam para outros conhecidos, etc. Era muito comum receber correntes por e-mail (e apresentações motivacionais feitas pelo Power Point).

Agora, os maiores “espalhadores” de farsas são as redes sociais, sobretudo o Facebook, a mais utilizada.E claro, como há farsas de todo o tipo, existem também as farsas meteorológicas. Elas se espalham rapidamente e logo viram viral.

A mais famosa imagem espalhada sem nenhum critério pela Internet, certamente é essa:

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Foto de Mike Hollingshead

 

Há uns anos atrás vi em algum lugar, alguém dizendo que era uma “foto de um furacão“. Há um grande problema nessa afirmação:  furacões tem escala de tamanho de algumas centenas de quilômetros, enquanto tornados tem uma escala de tamanho de alguns quilômetros (veja esse post explicando a diferença entre tornado e furacão). Ou seja, furacões são bem maiores e não é possível tirar uma “foto” (com uma câmera na superfície da Terra) de um furacão. As imagens de furacões que vemos por aí são Imagens de Satélite, ou seja, feitas pelas câmeras a bordo dos satélites que estão a cerca de 36.000 km de distância da superfície da Terra (satélites geoestacionários).

Furacão Hellene. Imagem capturada por um ônibus espacial, em 2006.Essa imagem é interessante, pois mostra a grandiosidade do furacão, quando comparado ao tornado: na foto,é possível ver a curvatura da Terra! Fonte: NASA/Science Faction/Getty Images
Furacão Hellene. Imagem capturada por um ônibus espacial, em 2006.Essa imagem é interessante, pois mostra a grandiosidade do furacão, quando comparado ao tornado: na foto,é possível ver a curvatura da Terra! Fonte: NASA/Science Faction/Getty Images

Por outro lado, uma pessoa corajosa pode fotografar um tornado. Se o tornado estiver distante do fotógrafo, o fenômeno pode sair “inteirinho”  na foto (não posso garantir o mesmo sobre o fotógrafo). Há inclusive programas de TV, como o Caçadores de Tornados, da Discovery Channel. Nesses programas, cientistas  e cinegrafistas saem em carros equipados em busca de tempestades. Malucos rs.

A imagem acima evidentemente não é um furacão.  A foto foi tirada por Mike Hollingshead que tem um maravilhoso website chamado Extreme Instability. Trata-se de uma área de instabilidade, uma super-célula, que pode ter originado um (ou vários tornados), mas não encontrei mais informações.

O que quero deixar claro aqui é que qualquer “foto” (feita por uma pessoa, na superfície) que diz ser uma “foto de furacão”, já é um claro indício de farsa. É importante deixar claro que tornados e furacões tem escalas de tamanho diferentes, sendo os tornados bem menores:

Essa figura foi obtida na apostila de um curso introdutório de meteorologia, ministrado aos alunos do primeiro ano do curso de Bacharelado em Meteorologia da USP.
Essa figura foi obtida na apostila de um curso introdutório de meteorologia, ministrado aos alunos do primeiro ano do curso de Bacharelado em Meteorologia da USP.

Uma outra forma de identificar farsas é procurando a origem da imagem. Muito provavelmente o texto que acompanha a imagem e é compartilhado no Facebook é vago, com poucas informações sobre o fotógrafo, sobre o local onde a foto foi tirada e sobre a data. Sendo assim, o que aconselho é salvar a imagem no computador e usar dois recursos da web que ajudam a encontrar a fonte original da imagem. São eles:

TinEye

Google Imagens

Nos dois serviços, o usuário faz o upload das fotos.  Os serviços então encontram imagens similares e dessa forma é possível descobrir o verdadeiro autor e o contexto da fotografia.

O texto do TWC mostra ainda outros exemplos de farsas meteorológicas. Por exemplo, essa comentada pelo meteorologista Ari Sarsalari:

A ideia moralista por trás dessa montagem é curiosa.  Uma cruz de proporções inacreditáveis que supostamente seria de uma igreja (falando sério, olhem o tamanho da cruz… não faz sentido) teria caído em cima de um sex shop ou clube de strip-tease, não sei bem. Ela teria destruído o local, mostrando assim a “fúria divina” durante uma tempestade. Enfim, imagino que essa imagem tenha sido tema de pregação de diversos pastores locais rs.

E se você tem dúvida sobre alguma “história da internet” ou sobre algum boato espalhado por aí, recomendo dois sites que podem ajudá-lo:

e-farsas

quatro cantos

Não sei bem qual a motivação de quem cria essas histórias. Talvez seja “zoar”, fazer uma brincadeira. Muitas vezes também é a interpretação equivocada de um assunto sério (de um artigo científico, por exemplo). Outras vezes o motivo é ideológico: criam um boato para fazer com que mais pessoas convertam a uma religião, por exemplo. Como divulgadora científica, é lamentável ver que boatos ganham força, enquanto a análise crítica e lógica muitas vezes é deixada em segundo plano.