Resenha de “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick



Na tag 50 fatos sobre mim, falei que dos escritores mais consagrados de ficção científica (Asimov-Bradbury-Clarke) ou o ‘ABC da Ficção Científica’ ou sou na verdade o D de Philip K. Dick (PKD, para os íntimos e para facilitar). Gosto muito do escritor, embora não tenha lido toda obra dele. Já escrevi outras duas resenhas de PKD:

Andróides sonham com ovelhas elétricas?

A formiga elétrica.

Para quem quer conhecer mais sobre o autor, recomendo também esse ótimo post do Ben Hazrael em que ele fala sobre VALIS, outra obra do autor que pretendo ler (ainda mais depois do post do Ben!).  A propósito, admiro muito o Ben por ter lido TODOS os livros do PKD disponíveis na biblioteca que ele frequentava. Um dia vou chegar lá!

Considerações feitas, posso começar a resenha.

O que chamou minha atenção no livro?

Bom, acho que já contei mais ou menos o que aconteceu: eu estava na livraria com meu marido, procurando um livro de PKD. Estávamos em uma febre PKD em casa, tínhamos lido Androides sonham com ovelhas elétricas? e a gente queria ler outra coisa. Estávamos em dúvida sobre um livro de contos (Realidades Adaptadas) e o Homem do Castelo Alto. Fiz o maridão escolher um dos livros, ao acaso, sorte. Eu estava  torcendo para que fosse o Homem do Castelo Alto. Eu já tinha lido uma sinopse, que atraiu muito minha atenção.

Eu adoro histórias em que um mundo alternativo ao nosso é apresentado. Eu sei, se a gente for analisar, todo livro de ficção apresenta um mundo alternativo. Mas gosto quando a história parte de um acontecimento histórico que deixou de ocorrer ou que  ocorreu de maneira diferente naquele mundo. Acho que sou seduzida por essas coisas por ter sido grande fã da série Sliders (há um episódio, por exemplo, em que não tinham inventado a penicilina e as pessoas morriam de infecções facilmente tratáveis).

A realidade alternatia (difícil definir isso, em se tratando de PKD) de O Homem do Castelo Alto é uma realidade em que o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial e não os Aliados, como aconteceu no “nosso mundo”. A sinopse falava em um mundo polarizado, com domínio da Alemanha Nazista e dos Japoneses. Os Estados Unidos foram divididos em dois: metade japonesa e metade alemã. E a trama é centrada nos EUA, retratando a vida de pessoas comuns e de viagens de diplomatas japoneses e alemães para esse importante território, palco de interesses econômicos e políticos.

A capa acima é assustadora, principalmente por exibir o sinal da suástica, que tornou-se o símbolo do mal.
A capa acima (não é da edição que li) é assustadora, principalmente por exibir o sinal da suástica, que tornou-se o símbolo do mal.
Ah, essa imagem não poderia faltar em minha resenha. Usando criatividade e o que é descrito no livro, fizeram um mapa mostrando como é o mundo descrito em O Homem do Castelo Alto se o Eixo tivesse sido vitorioso. Fonte: Wikimedia Commons
Ah, essa imagem não poderia faltar em minha resenha. Usando criatividade e o que é descrito no livro, fizeram um mapa mostrando como é o mundo descrito em O Homem do Castelo Alto se o Eixo tivesse sido vitorioso. Fonte: Wikimedia Commons

Aspecto assustador!

Acredito que só ao ver a capa acima e/ou apenas lendo a sinopse, o futuro leitor já sente medo. Imagine um mundo dominado por nazistas. Na trama, os africanos foram dizimados: o continente africano está praticamente vazio, uma chacina, um holocausto, sem precedentes na história do ‘nosso mundo’. E por falar em holocausto, os judeus na história precisam viver sob identidades falsas. Há inclusive cirurgias para reduzir o nariz, clarear a pele e reduzir o tamanho dos poros (características típicas de judeus, de acordo com o autor). Bom, se eu fosse um personagem do livro,  eu teria que passar por todos esses procedimentos estéticos, pois tenho todas essas caracterísitcas rs.

Ah, o Brasil. É rapidamente mencionado na obra. Aparentemente, desmataram todas as nossas florestas. Viramos colônia de exploração, uma exploração sem comparação com a que vivemos no ‘nosso mundo’.

Parênteses: fazer resenhas de coisas que envolvem universos paralelos ou mundo alternativos é muito complicado rs. Tenho que ficar toda hora falando em ‘mundo real’, e com PKD é estranho falar em Mundo Real porque ele questiona até o tal ‘mundo real’.

Enredo (ou mais ou menos isso)

Bom, vocês sabem, não tenho formação em humanas. E infelizmente lá na Exatas não somos estimulados a escrever de maneira criativa, digamos assim, então não sei fazer uma resenha direito rs. Eu detesto essa divisão “humanas-exatas-biológicas” de nossas Universidades, porque isso deixa nossa formação deficiente. Mas ok, assunto para outro post.

Bom, tal como em Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?, PKD nos apresenta personagens que em um primeiro momento não tem relação entre si, mas depois seus destinos vão se entrelaçando.

Há, por exemplo, Frank Fink (que na ferdade é Frink), judeu que vive sob uma identidade disfarçada nos EUA, trabalhando em uma oficina. Ele cria um problema em seu local de trabalho e acaba sendo demitido. Um colega do trabalho, Ed, propõe que os dois sejam sócios em uma oficina de criação de jóias. Eles obtém o capital inicial para o novo negócio chantageando o antiquarista Robert Childan, pois eles sabem que algumas das armas que Childan vende e que supostamente fizeram parte da Guerra da Secessão são na verdade réplicas de primeira qualidade.

Essa questão da historicidade dos objetos é abordada recorrentemente na trama. Eu adoro o seriado Paw Stars e agora não vou assisti-lo da mesma maneira, vou sempre pensar em Childan. O ex-chefe de Frank, por exemplo, compara dois isqueiros: um usado por Roosevelt (que foi assassinado nessa realidade) e outro isqueiro igual. O de Roosevelt vale muito pela historicidade.

Os japoneses são importantes clientes da loja de Childan. Eles tem um interesse na cultura americana que os americanos não conseguem entender. Gostam de objetos históricos, da música e da cultura pop dos americanos de antes da guerra. Por falar em japoneses, eles dominam a parte oeste dos EUA, com ‘sede’ estratégica em São Francisco. Como os japoneses praticamente dominam o pacífico (incluindo o Havaí), São Francisco provavelmente é um importante e estratégico porto para eles. As áreas nobres da cidade são tomadas por novos residentes, todos japoneses. Importantes executivos japoneses, que atuam em relações comerciais e políticas, vivem em São Francisco.

Nesse cenário, surge Baynes. Baynes chega de foguete da Lufthansa (pelo que entendi, em menos de 1h os alemães cruzam o atlântico e chegam aos EUA, esses foguetes são fantásticos rs) com informações confidenciais que podem mudar o mundo. O executivo Sr. Tagomi cai de paraquedas em meio a essa trama e acaba tendo um papel chave.

Na trama, há uma questão metalinguística muito curiosa: um livro chamado O Gafanhoto Torna-se Pesado é um grande sucesso literário. O misterioso autor, Hawthorne Abendsen, vive aparentemente retirado. Muitos dizem que eles vivem em um “Castelo Alto”, uma fortaleza afastada. No livro de Abendsen, os Aliados teriam ganhado a guerra e a Inglaterra dominaria boa parte da Europa.  Todos estão lendo o livro, fascinados com a possibilidade. O alto escalão da SS aparentemente anda meio revoltado com o livro. Ele é proibido na costa leste dos EUA, mas na metade oeste do país não parece difícil de ser encontrado.

Aspectos metafísicos comumente abordados por PKD também são parte da trama. O I-Ching é usado para tomar todo tipo de decisão pessoal, é uma estratégia de planejamento. Japoneses e americanos o usam e aparentemente não é muito comum dentre os alemães. Como disse anteriormente, a historicidade de um objeto é tema recorrente e Sr. Tagomi questiona as atitudes que teve que tomar e a historicidade do local em que elas foram tomadas. Um casal de clientes de Childan, dois jovens japoneses, encontra um significado metafísico muito ‘profundo’ em semi-jóias que eles em um primeiro momento acharam feias e antiquadas. Childan decide então usar esse subterfúgio (de que as peças representam o yin-yang, etc) para conseguir vendê-las.

Juliana é ex-mulher de Frank, encotra Joe Cinadella, um homem que acaba tornando-se seu amante. Os dois fazem uma extravagante viagem pelo país, com o objetivo de conhecer Abendsen. Joe está terminando de ler o livro (numa cópia velha, engordurada) e Juliana fica fascinada pela história e pelo autor. Acaba comprando um exemplar novo do livro. Ao longo de sua jornada com Joe, Juliana percebe que ele tinha uma agenda desde o início: eliminar Abendsen. Ela acaba encontrando Abendsen e uma descoberta impressionante nos faz questionar a realidade descrita no livro.

 A edição que li

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Li esta edição da Editora Aleph, que pode ser adquirida aqui. Como sempre, esses links para a Livraria Cultura me geram alguma comissão se o livro for adquirido nessa loja =).

No final do livro há um perfil de PKD escrito por Fábio Fernandes. Achei muito bom, deixa o leitor ainda mais curioso para conhecer mais da obra do escritor.

Destaque no livro

Gostei tanto de um trecho bem (meta)metalinguístico do livro que resolvi reproduzir aqui:

– Vejo que estão lendo O Gafanhoto Torna-se Pesado – disse – Já ouvi falar muito, mas a pressão dos negócios tem me impedido de conferir até agora. – Levantando-se, foi até onde o livro estava e o pegou, examinando cuidadosamente as expressões deles; pareciam reconhecer este gesto de sociabilidade, de modo que prosseguiu. – Um livro de mistério? Perdoem minha profunda ignorância.

Virou as páginas.

– De mistério, não – disse Paul – Ao contrário, uma interessante forma de ficção, talvez dentro do gênero de ficção científica.

– Oh , não – discordou Betty. – Não tem nada de científico. Não se passa no futuro. Ficção científica lida com o futuro, sobretudo o futuro em que a ciência é mais adiantada do que agora. O livro não é nada disso.

– Mas – disse Paul – trata do presente alternativo. Existem muitos livros célebres de ficção científica deste gênero. – Explicou para Robert: – Perdoe minha insistência mas, como minha mulher sabe, fui durante muito tempo fanático por ficção científica. Comecei a ler o gênero aos doze anos. Nos primeiros dias da guerra.

PKD quis responder de antemão a dúvida do leitor: ué, mas isso é ficção científica?ué, pq não fala do futuro??? O livro foi escrito em 1962 e aparentemente retrata a década de 1960 se o Eixo tivesse saído vitorioso da Segunda Guerra. Ou seja, o livro fala do presente, um presente alternativo. Apesar de que o livro fala de colonização de Marte e fala dos foguetes ultra-rápidos que fazem viagens continentais em tempo recorde, mas talvez esses avanços tecnológicos teriam acontecido (de acordo com a imaginação de PKD), se o Eixo tivesse vencido a guerra.

A propósito, em 1963 o livro recebeu justamente um Hugo Award, que premia os melhores trabalhos em ficção científica e fantasia.

Curiosidades

O título do livro do livro, O Gafanhoto Torna-se Pesado, é uma passagem do livro de Eclesiastes (capítulo 12, versículo 5):

5. Como também [quando] temerem as coisas altas, e houver espantos no caminho; e florescer a amendoeira, e o gafanhoto se tornar pesado, e acabar o apetite; porque o homem vai para sua casa eterna, e os que choram andarão ao redor da praça;

Tradicionalmente, diz-se que o livro de Eclesiastes é de autoria do Rei Salomão. Em todo o capítulo 12, o autor fala sobre lembrar-se do Criador (Deus) enquanto ainda se é jovem, antes que venha a velhice. O versículo 5 fala sobre envelhecimento, senilidade e morte (minha interpretação, Pastora Samantha rs). Talvez o “gafanhoto pesado” em Eclesiastes seja como uma nuvem de gafanhotos que destroem uma plantação (uma nuvem de gafanhotos é pesada) e então é o fim de tudo (= fim da vida). Já ouvi pastor falando que o gafanhoto é o DEMÔNIO (sim, gente).

Ainda não consegui entender porque esse título foi escolhido por PKD. Talvez tenha a ver com as epifanias religiosas do próprio autor (Ben posta inclusive alguns quadrinhos que falam desse assunto).

E o nome Joe Cinadella me diz alguma coisa também: Della Cina significa “da China”. Em O Gafanhoto Torna-se Pesado, China e Estados Unidos tem relações diplomáticas muito boas e se unem contra o Reino Unido. Bom, posso estar “delirando”, mas como Joe é como “Zé”, um nome atribuido a quem não se conhece o nome, é como se Joe Cinadella fosse “Zé da China”.

Ah sim, mandem-me livros!

Gostou da minha resenha?

Se você é autor de ficção científica ou fantasia e quer divulgar o seu trabalho, posso ler o seu livro para resenhá-lo. Para tal, fale comigo pelo formulário de contato.