A seca em São Paulo: novo olhar para as variabilidades interanuais



Ontem (23 de outubro de 2014) e hoje está acontecendo o Workshop “Adaptação climática em megacidades: refletindo sobre impactos, demandas e capacidades de resposta de São Paulo”. O evento foi organizado pelo INCLINE (Nucleo de Apoio a Mudanças Climáticas da USP).

As palestras de ontem foram ótimas. Um grupo de especialistas em diversas áreas (meteorologia, geologia, defesa civil, etc) debateu temas ambientais específicos de grandes cidades. Eu não pude ir hoje (24 de outubro), pois tinha outros compromissos. As palestras de hoje tratarão sobre Florestas Urbanas e Mobilidade e Transporte.

Quando o ambiente urbano é discutido, é necessário levar em consideração que os temas ambientais são complexos, pois envolvem estudos multidisciplinares. Além disso, as próprias megacidades são muito complexas, com necessidades de deslocamento e planejamento do espaço urbano. Se colocarmos nesse caldeirão a questão das mudanças climáticas, fica bem claro do grande desafio que os tomadores de decisão tem ao criarem e gerirem políticas para o bem estar das grandes cidades.

Podemos considerar as grandes cidades como grandes organismos vivos, talvez aqui me inspirando na Hipótese Gaia de James Lovelock. Nossas cidades estão doentes. Essa conclusão sempre é feita em eventos que discutem mudanças climáticas e grandes cidades. Usando aqui minha imaginação, imagino artérias entupidas (avenidas cheias de congestionamento e rios e córregos poluídos), há doenças de pele (sujeira nas ruas, construções mal planejadas, falta de áreas verdes) e doenças respiratórias (poluição do ar em níveis alarmantes, com material particulado que é inalado e prejudica a vida da população).

Imagino as megacidades (especificamente São Paulo, que é a megacidade que vivo), como um vago mutante, criatura criada pelo escritor de ficção especulativa Stephen King e que sofreu efeitos da radiação nociva.

Vagos Mutantes atacando Jake Chambers e Roland. Arte de Michael Whelan
Vagos Mutantes atacando Jake Chambers e Roland. Arte de Michael Whelan

Ao considerar uma megacidade como um organismo vivo, talvez recuperemos a ideia de comunidade e futuro comum. Eu acredito que essa ideia já existiu no passado, mas foi abandonada porque nos tornamos cada vez mais egoístas. A violência urbana nos fez ter medo dos vizinhos. O consumismo nos fez querer acumular coisas, ter tudo que o dinheiro pode comprar. Perdoem minhas abordagens superficiais, mas acredito que consumismo, desigualdade social e violência urbana estão completamente interligados. Sei que a desigualdade social sempre existiu, talvez agora ela esteja mais exposta e tenhamos mais vergonha dela.

O tema central do Workshop é a seca em São Paulo. Eu comentava com alguns professores e colegas que se não fosse essa seca, o evento teria outro eixo. Talvez poluição do ar, ilhas de calor ou até mesmo enchentes. No momento, os holofotes estão todos voltados para a seca.

Em um texto recente, falei sobre como acompanhar o nível dos reservatórios (veja aqui). O Sistema Cantareira é o mais prejudicado e a água tem data para acabar. Mesmo que as chuvas dessa estação chuvosa fiquem acima da média, vai demorar alguns anos para que o reservatório se recupere completamente. Além disso, ontem ainda ouvi falar em impermeabilização do reservatório. Toda argila exposta do fundo das represas pode secar de uma maneira que impermeabilizará o fundo das represas e prejudicará a recarga subterrânea. Assustador! O cenário não é nada animador.

Eu vi muitas coisas nas palestras de ontem. Não consigo “cobrir” as palestras ao vivo porque não consigo prestar atenção no palestrante e digitar ao mesmo tempo. Prefiro fazer algumas anotações a caneta e depois trazer as informações para os meus leitores. Não vou resumir todas as palestras (foram mais de 10!), mas todas orbitam em torno do tema do evento, evidentemente. E em posts futuros pode ser que eu recupere informações que foram ditas nas palestras.

Já que o tema central foi a água, destaco um gráfico igual ao apresentado pela Prof. Dra. Maria Assunção Faus da Silva Dias. Trata-se de um gráfico que já vi várias vezes, mas a professora me apresentou uma outra interpretação:

Fig12

Esse é o gráfico de total anual de chuva desde 1933, em dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. Já vi esse gráfico várias vezes (inclusive o gráfico acima foi feito por mim, com os mesmos dados da professora). Quando olhava para esse gráfico, sempre observava que há uma tendência de aumento no total anual de precipitação. Mas essa não é a informação mais importante do gráfico! O detalhe mais importante mora nas flutuações entre um ano e outro.

Um ano não é exatamente igual ao outro em termos de precipitação. Bom, os padrões esperados são iguais: no caso de São Paulo, chove bastante entre DJF e pouco entre JJA, por exemplo. Isso é o que a gente espera, baseando-se em padrões médios da atmosfera ditados principalmente pela latitude, continentalidade e altitude. Quando digo que um ano não é exatamente igual ao outro, é porque existem anos mais secos e anos mais úmidos. Por essa razão, o gráfico é todo serrilhado para cima e para baixo, mostrando os extremos de anos secos e os extremos de anos úmidos.

Agora repare que até a década de 1950 mais ou menos, as oscilações eram mais tímidas quando comparadas com os anos mais recentes. Nos anos mais recentes, esses “sobes e desces” ficaram mais pronunciados. Há portanto, uma tendência no aumento das oscilações. Em outras palavras, há uma tendência de aumento dos extremos! Quando a Prof. Maria Assunção colocou as coisas sob essa perspectiva, meus olhinhos brilharam!

Essa conclusão também foi escrita nos último relatórios do IPCC, onde foi bastante ressaltado que os eventos extremos se tornarão mais frequentes. E no último relatório do IPCC, falou-se também do risco para a segurança hídrica na América Latina (veja parte 1 e parte 2 das minhas considerações).

Mapa regional dos impactos das Mudanças Climáticas na América Latina. Esse gráfico é adaptado e traduzido do AR4 (2007), do Grupo de Trabalho II.

Outro palestrante, o geólogo Ronaldo Malheiros Guerra (da Defesa Civil de São Paulo), falou sobre os planos de contingência para diversas situações de emergência da cidade: baixa umidade relativa, baixa temperatura e enchentes e deslizamentos. No entanto, ele admitiu que não há um plano de contingência para a seca que estamos vivendo. Anteriormente, a Prof. Dra. Mônica F. do Amaral Porto (FCTH e professora da Poli/USP) afirmou que não havia maneira de passar incólume por esta seca. Claro, pois não foram feitos investimentos no setor! Não se houve falar no investimento na preservação dos mananciais e nem em obras para ampliar os reservatórios.

Uma conclusão é certa: precisamos repensar nas grandes cidades. Precisamos mudar nossas atitudes individuais e individualistas (há pessoas que gastam água a vontade, sem pensarem no problema da crise hídrica e argumentando que podem pagar). E quem financia e lucra com a especulação imobiliária, que pressiona as pessoas de baixa renda a procurarem m² mais barato nas periferias (e muitas vezes em áreas de preservação ambiental)? Com essa pergunta retórica, termino esse post.