O sexismo e a Ciência: o relato de uma ouvinte feminista



Atenção: editei esse post para remover o nome da emissora de rádio e o nome dos envolvidos. Pensei bem e concluí que não quero me prejudicar e muito menos prejudicar uma colega de profissão. Acho que dizer o nome dela aqui não teria problema, mas prefiro evitar.

A Sybylla recebeu o e-mail de uma amiga. Como a queixa da amiga dela tinha super a ver com o Meteorópole (e logo vocês vão saber o porquê), ela me encaminhou o e-mail da amiga. Oculto o nome dela por razões de privacidade e só divulgarei parte do e-mail. Confiram abaixo:

Há anos escuto diariamente a rádio [nome da rádio]. Faz parte do meu dia-a-dia e nunca (não antes de ler seu blog – no caso, o blog da Sybylla) tinha notado o tamanho machismo num quadro. A comentarista de meteorologia é a [nome da meteorologista], formada pela USP. Tanto no programa nacional quanto no local (RJ) ela entra ao vivo falando da previsão. Os dois âncoras, [fulano 1] e, no local, (RJ) o [fulano 2], sempre comentam como ela está bonita, como é o vestido e sempre, SEMPRE põe à prova os conhecimentos meteorológicos dela. Volta e meia ela é cobrada para explicar quais disciplinas ela estudou ou explicar, teoricamente falando, como se forma a nuvem ou como a frente fria funciona. Ela é sempre alvo de piadinhas sexistas e diariamente põe seu conhecimento teórico à prova.
É deprimente. Ela ri, entra na brincadeira, mas são os dois diretores da empresa que ela presta serviço que estão ali. Não dá pra mandar catar coquinho. Volta e meia ela faz boletins mais elaborados, explicando na teoria, com termos rebuscados justamente pra provar que ela não é “a moça bonita do tempo”.
Historicamente a previsão do tempo é uma tarefa delegada à moças bonitas e um tanto sem função na redação. Quase um bibelô. Uma cientista como a [nome da meteorologista], que ainda é jovem e considerada bonita, é quase uma ofensa para esses homens.

Eu não escuto a [nome da rádio mencionada]. Vou confessar para vocês que escuto apenas a KissFM, podcasts variados, canais do youtube e streamings do Grooveshark. Não tenho nada contra rádios de notícias, é que realmente eu não tenho o costume de ouvi-las.

Como trabalho com popularização científica, converso com as pessoas. Muitos perguntam minha formação e orgulhosamente digo que sou meteorologista. Explico que existe um curso de Bacharelado em Meteorologia, falo sobre as matérias que aprendemos no curso, menciono as áreas de atuação dos meteorologistas, etc. Muitos perguntam se a moça que apresenta a previsão do tempo também é meteorologista e digo que em mais de 99% dos casos, não é. Salvo casos raros, em trabalhos feitos para o Youtube em que empresas como Somar e Climatempo investem no potencial de suas funcionárias.

Eu, trabalhando no USP e as Profissões.

No entanto, muitas pessoas com as quais converso ouvem rádio no trânsito de São Paulo. E nomes como Laura Ferreira, Josélia Pegorim, Aline Ferreira e Desirée Brandt são sempre lembrados com muito carinho. Fico feliz em ver colegas trabalhando na comunicação e sendo lembradas. Infelizmente ainda não “dominamos” a mídia de massas, a TV. E há uma explicação muito imediata para isso: a TV preza a plástica, a beleza (eurocêntrica, salvo casos raros). Para trabalhar na TV, você precisa seguir o padrão de beleza dominante na sociedade.  E vou ser sincera para vocês: eu não tenho tempo e nem paciência para me submeter a esses padrões. Prefiro ler um livro, escrever ou assistir uma série de TV do que passar horas na academia. Prefiro ficar em casa jogando boardgames e bordando do que ir em clínicas de estética ou salões de beleza. Claro que as vezes eu quero um “momento spa“, mas não é algo que faz parte do meu cotidiano.

Não sei como é para as amigas e colegas meteorologistas. Há colegas que acordam todos os dias as 4h da manhã, porque na nossa profissão, tudo acontece antes do meio dia. Há colegas que viram a noite, em pesquisas acadêmicas ou fazendo o monitoramento das enchentes em São Paulo. Há colegas que precisam morar longe da família, pois só conseguiram encontrar emprego em outros Estados. Enfim, a vida do meteorologista não é uma vida glamourosa. Não temos diariamente e ao nosso fácil alcance os recursos da TV (cabeleireiro, roupas elegantes, etc). Por mais vaidosa que seja a meteorologista, ela ainda precisa ter o tal padrão de beleza esperado e exigido. E não é todo mundo que nasce branca e fica magra pra sempre, certo?

O que a amiga da Sybylla narrou é inaceitável. Talvez a meteorologista encare tudo isso como brincadeira, não sei, já que não a conheço pessoalmente. Só que se eu, Samantha, estivesse no lugar dela, ficaria ofendidíssma e mais uma vez revoltada com o machismo que somos diariamente submetidas. Passamos quatro anos ou mais na Academia, sofrendo para aprender disciplinas difíceis como  Cálculo, Física e Programação. Nossa aparência física, nosso padrão de beleza, simplesmente não importam. Estou cansada de ter homens brancos de meia idade (porque em geral, essa é a cara do opressor) colocando selo de aprovação no que sou e no que faço. Entendam, meu chefe (ou minha chefe!) pode e deve avaliar meu trabalho: avaliar apenas meu trabalho, sem assédios morais. Mas não espero uma medalha de “honra ao mérito”  no meu trabalho por ser bonita. Não preciso ter meu conhecimento posto a prova com desdém, apenas para mostrar que “sou mais que um rostinho bonito”. Quero ser avaliada pela minha capacidade, com ou sem luzes perfeitas e/ou maquiagem impecável.

Como disse, não conheço a meteorologista envolvida na questão. Estou me colocando no lugar dela. Vou narrar aqui algumas situações que já ocorreram comigo e são muito parecidas com o texto enviado pela amiga da Sybylla:

– Já deixaram de me entrevistar porque “sou jovem demais”. Tenho 31 anos e acredito que um rapaz da minha idade não teria o mesmo problema. E na nossa sociedade que assume que juventude é sinônimo de beleza, já deu para entender.

– Já perguntaram se eu “tinha estudado tudo isso mesmo”.  Parece que é difícil, para alguns homens, que posso ser bonita e inteligente. E “bonita” aqui entenda que só me consideram bonita porque sou branca e razoavelmente magra.

– Certa vez questionaram minha formação, dizendo que era um “curso fácil”.

– Outra vez questionaram meu trabalho, dizendo que “era tranquilo, o computador faz tudo”. E olha, quem questionou nem é da área. Ou seja, homem cis branco opinando sobre o que não sabe e valendo-se de seu privilégio social, que novidade. 

– Também já perguntaram “o que faço no meu trabalho” mas num contexto de desdém, como se eu não fizesse nada o dia inteiro (ontem teve recorde de temperatura  e imaginem só como foi a procura da imprensa). Se está curioso para saber o que faço em meu trabalho, faça a pergunta direito e sem assumir nada.

– Quando eu era estudante de Mestrado, certa vez disseram que “eu não fazia nada, só estudava”.

– Algumas pessoas (até familiares!) cobram que eu tenha uma determinada aparência.

– Certa vez  apareci no Jornal Nacional falando sobre Radiação UV. Essa pessoa (e foi uma mulher, a algoz!) questionou minha aparência. Disse que minha roupa e minha ausência de maquiagem não combinavam com o Jornal Nacional. Oi? Não sabia que era uma reportagem sobre moda e estilo, pensei que fosse uma reportagem sobre ciência!

Narrando essas coisas, não quero que os homens sintam pena das mulheres cientistas. Nós não merecemos a piedade de ninguém. Merecemos apenas respeito. Queremos ser tratadas como colegas, como pares e não como “a moça bonita que faz doutorado” ou “a gostosa que só está fazendo doutorado porque é gostosa”. Queremos ser tratadas como as profissionais capazes e competentes que somos.

Algum voluntarioso que por ventura ler esse texto vai dizer: “tá, mas e a Dra. Fulana da Silva Sauro que é incompetente?”. Queridão, deixa eu te contar uma coisa: existem pessoas incompetentes independentemente do gênero, orientação sexual, cor de pele, etc.  A mulher na Academia não quer ser “protegida” ou estar sob um julgamento especial. Queremos ser julgadas como iguais: com justiça e igualdade, como todos merecem ser julgados.