Resenha de Pulp, Charles Bukowski



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Muitos amigos falavam de Bukowski. Eu sei algumas coisas sobre o escritor, muito superficialmente. Um belo dia eu estava em uma loja de livros usados, quando encontrei um livro quase novo: Pulp, de Charles Bukowski.

Acho que em primeiro lugar vale a pela definir o que significa a palavra pulp (ou você pode assistir Pulp Fiction, do Quentin Tarantino, para uma definição bastante ilustrada). Pulp era uma revistinha/livro de bolso impresso em papel barato e foram super populares da década de 1930 até pelo menos a década de 70. Meu pai, por exemplo, tinha uma caixa com vários livros do gênero. Eram vendidas em bancas de jornal ou lojinhas de conveniência.

Era considerado como um material de entretenimento ‘menor’, consumido pela classe trabalhadora. As histórias envolviam romances policiais e/ou com um toque de ficção científica ou fantasia. Com essas influências, é de se esperar que os enredos sempre eram “absurdos”, com histórias impossíveis e escritas por mentes de imaginação muito fértil. Claro que a classe média alta, as famílias mais tradicionais, que consumiam arte e literatura acadêmica e clássica, não consideravam romances pulp como arte. Ou seja, era um gênero nada elitizado.

Como exemplo, as revistas Astounding Stories of Super-Science, que mencionei nesse post, eram literatura pulp. E os quadrinhos que muitos nerds tanto amam são derivados desse gênero.

Como o papel ficou bem caro depois da Segunda Guerra Mundial, essas obras tiveram seu tamanho reduzido do tradicional 18cm x 25,5 cm para um formato menor, do tamanho de muitos livros de bolso que vemos a venda hoje em dia em bancas de jornal, embora esses livros de bolso atuais em sua grande maioria não sejam pulp, sendo na verdade edições de bolso de livros de gêneros variados. E coincidentemente, o livro do Bukoski que estou lendo, Pulp é em formato de bolso =)

Depois do meu breve histórico, vamos ao romance de Bukowski.

Não sei ler japonês mas quero essa edição só pela arte da capa!
Não sei ler japonês mas quero essa edição só pela arte da capa!

Pulp não é uma obra biográfica do autor, embora seja narrada em primeira pessoa. O livro é narrado por Nick Belane, detetive particular que trabalha em Los Angeles. O escritório dele é todo sujo, caindo aos pedaços, com o aluguel atrasado e localizado numa região bem decadente da cidade. De acordo com quem estuda a vida do escritor, Belane tem muito de Bukowski então nas sutilezas da narração o próprio autor é desvendado. O livro foi escrito no começo da década de 1990, quando Bukowski já estava muito doente e passava por sessões de quimioterapia. Foi o último livro publicado pelo autor. Talvez em meio as considerações e pensamentos feitos por Belane, Bukowski seja um pouco revelado.

O título do livro é Pulp justamente porque Bukowski adota clichês e características desse tipo de romance nesse livro. O gênero pulp, como mencionei anteriormente, é considerado por muitos um subgênero, uma coisa menor, subliteratura.  Dessa forma, Bukowski reafirma sua posição marginal como escritor.

O próprio protagonista, Belane, é detetive particular e vive no “submundo” de Los Angeles. Belane é um sujeito boêmio, vive no submundo e lida com pessoas violentas e envolvidas com o crime. O próprio Belane tem um temperamento explosivo, agindo sempre de maneira defensiva e com uma resposta na ponta da língua para tudo. Ele é um sujeito muito enrolão e conduz seus casos de maneira totalmente bizarra e nada profissional. Ele enrola seus clientes, diz que o caso está indo muito bem, pede adiantamento, mas na verdade ele não tem a menor ideia do que está fazendo. Para dizer a verdade, Belane é um cara bastante sortudo. Se ele consegue resolver alguma coisa, é porque o destino trabalha a favor dele.

Um dia Belane está em seu escritório detonado quando uma mulher estonteante surge. Ela afirma ser a Morte e designa um trabalho a Bukowski: procurar Céline ( Louis-Ferdinand Destouches, ou Louis-Ferdinand Céline), escritor francês que já teria falecido (é o que todo mundo pensa!) mas que aparentemente ainda está vagando por aí. Enquanto investiga Céline, outros casos surgem para Belane (aparentemente a Dona Morte deu sorte para ele): investigar uma possível traição, conspirações alienígenas, etc. Entre um caso e outro, Belane se envolve em brigas de bar, brigas para pagar o aluguel, etc. A Dona Morte provavelmente é a cliente mais insistente de Belane, sempre querendo saber como anda o caso. A Dona Morte pode representar o que o próprio Bukowski estava passando, pois estava com a saúde muito debilitada enquanto escrevia.

Garanto que quem ler Pulp vai morrer de dar risada, enquanto ao mesmo tempo vai achar a coisa toda muito nonsense. Adoro o sentimento. Fiquei tão intrigada quando acabei de ler o livro que até fiz uma ~obra de arte~ [que abre essa postagem].

“The whole thing was crazy. Lady Death was crazy. I was crazy. The pilots of airliners were crazy. Never look at the pilot. Just get on board and order drinks.”