A ciência prevalece (ou porquê o cientista é um visionário)



Gosto de ficar “surfando” pelo Youtube, procurando canais interessantes e videos de temas diversos. Pra vocês terem uma ideia, gosto desde vídeos de maquiagem e beleza até vídeos de viagens e claro, vídeos sobre ciência. Também tenho uma queda por vídeos de reportagens antigas. Gosto de comparar o país do passado com o país de hoje.

Um vídeo que vi recentemente e me fez refletir bastante foi essa reportagem do Goulart de Andrade. O assunto é a AIDS e o material foi produzido em 1987.

É muito triste ver os doentes com doenças de pele (Sarcoma de Kaposi, principalmente) e sofrendo com a falta de esperança. Na década de 1980, o portador do vírus HIV não tinha esperança de vida. Atualmente, com o desenvolvimento dos medicamentos, o tratamento faz com que o portador do vírus tenha uma boa qualidade de vida. Naquele tempo, os doentes ficavam em hospitais recebendo apenas cuidados paliativos.

Além do preconceito que sofriam por serem portadores do vírus, os pacientes também sofriam preconceito de orientação sexual. Quando a AIDS surgiu, ela se disseminou primeiro dentre os homossexuais. Era comum ouvir o termo “doença de gay” ou “peste gay”. Lembro que eu era criança na época e sempre associavam AIDS aos homossexuais masculinos, normalmente com comentários maldosos e raivosos.

Goulart de Andrade conversou com médicos, enfermeiras e portadores do vírus. Muitos dos portadores do vírus estavam muito debilitados, mas aceitaram falar com o jornalista. Um portador do vírus, que aparece de bruços na cama, chamou minha atenção: além de reforçar um apelo sobre o uso do preservativo, ele demonstrou uma enorme esperança no tratamento.

Dois momentos na reportagem me fizeram refletir. Um deles foi a conversa com a médica dermatologista Valéria Petri, a primeira médica a diagnosticar um paciente com AIDS no Brasil. Ela fala sobre o preconceito contra os homossexuais, sobre o descaso com relação a doença (uma vez que em um primeiro momento atingia apenas “pessoas marginalizadas”) e fala sobre a falta de humanidade. Avançando 30 anos no tempo, percebemos o quanto o discurso desses profissionais maravilhosos se disseminou. O discurso científico pautado no bom senso e no respeito ao próximo se espalhou, a ponto de atualmente as pessoas (pessoas em geral, já chego lá) saberem que a AIDS não é doença de homossexual.

As pessoas sabem como a AIDS é contraída e sabem como ela pode ser evitada. Algumas perguntas do Goulart de Andrade sobre a transmissão da doença indicam a falta de conhecimento da  população naquela época. Podemos dizer que o discurso científico venceu, embora ainda exista muitos locais que são focos de resistência e de ignorância.

Quando digo que o “discurso científico venceu”, quero dizer que as campanhas de esclarecimento foram eficazes. E até tenho que elogiar a TV. Acredito que a grade mídia colaborou bastante para que as informações sobre essa doença pudessem ser transmitidas para todos os cantos do país.

E o segundo momento na reportagem que me fez refletir foi quando um senhor extremamente ignorante e preconceituoso dá sua opinião sobre a AIDS (por volta de 1h02min). Esse senhor apresenta um discurso homofóbico e raivoso, muito parecido com discursos que vemos ainda hoje, quase 30 anos depois da reportagem. Goulart de Andrade mostra a declaração desse senhor como um exemplo de atitude ignorante. Ele também fala de uma cartilha sobre a AIDS que foi feita por um profissional da saúde, porém está cheia de preconceito e informações equivocadas.

Apesar do tom sensacionalista em alguns momentos, achei que a reportagem de Goulart de Andrade foi bastante esclarecedora para o período que foi produzida. É triste saber que a ignorância e a falta de informação ainda estão presentes quase 30 anos depois.

Recomendo inclusive que vocês não vejam os comentários do vídeo. Para variar, né? Não sei o que acontece com algumas pessoas quando ficam diante de um computador. Elas acham que podem escrever o que quiserem.