E se a Terra tivesse anéis?



Tod@s que gostam de Astronomia e de Ficção Científica provavelmente já pararam para conjecturar o seguinte:

E se a Terra tivesse anéis, como Saturno?

Pois é, nós invejamos muito o Senhor dos Anéis do nosso Sistema Solar. Com um pouco de imaginação e programas de manipulação de imagem, é possível deixar esse sonho um pouquinho mais concreto:

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Figura 1: Montagem, mostrando diversas fotos de como seria se a Terra tivesse anéis. As imagens foram feitas por Ron Miller e eu vi a montagem no BuzzFeed.

 

A fotografia hipotética acima é uma montagem de imagens que apareceram no The Huffington Post e em um texto do Jason Davis, do The Planetary Society. Vi a montagem no BuzzFeed. O ilustrador responsável por essas imagens que nos fazem sonhar é Ron Miller, que já trabalhou em diversos projetos interessantes, como: ilustração hipotética da superfície de Titan e em capas de revistas de popularização científica e ficção científica.

Nas imagens, Miller imaginou como seriam algumas das paisagens da Terra, em diferentes latitudes, se nosso planeta tivesse anéis. A suposição é de que esses anéis fossem concêntricos e estivessem alinhados com a Linha do Equador. Desse jeito:

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Figura 2: a suposição é de que os anéis estivessem localizados no Equador Terrestre, como mostra a figura. É dessa maneira que acontece em Saturno.

Naturalmente, dessa forma, para um observador na cidade de Macapá, por exemplo,  que fica bem na Linha do Equador, a visão seria a seguinte:

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Figura 3: Em uma note na linha do Equador. Imagem de Ron Miller

E no equinócios (de primavera e outono) nas cidades perto da Linha do Equador, o movimento aparente do Sol acompanharia os anéis:

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Figura 4: Na linha do Equador durante um Equinócio. Imagem de Ron Miller

Agora vamos considerar as outras latitudes. Aqui a gente tem que pensar que para um observador no Hemisfério Sul, os anéis seriam visíveis no quadrante Norte do céu. Já para um observador no Hemisfério Norte, os anéis seriam visíveis no quadrante Sul do céu.  Ron Miller pensou em tudo isso. Um observador na Guatemala, que fica em área tropical (bem próximo da Linha do Equador) e no Hemisfério Norte, teria a seguinte visão:

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Figura 5: Anéis na Guatemala. Imagem de Ron Miller

Ou seja, os anéis ficariam “altos” no céu, mas não seriam uma linha fina que passa pelo zênite de Leste a Oeste (como na Linha do Equador). A pequena inclinação, de cerca de 14°N de latitude, permitiria que os guatemaltecas vissem o disco. Pensando bem, seria mais fácil para se orientar no céu noturno =). Entretanto, a luz solar que os anéis refletiriam deixariam as noites menos escuras. E nós precisamos do “escuro”, para deixar nosso ritmo circadiano funcionando bem. E esse nem seria o maior problema de ter anéis. Vou voltar a esse ponto depois, antes vou mostrar outras imagens interessantes.

Agora vamos para outra importante linha imaginária do nosso planeta: o Trópico de Capricórnio. O Trópico de Capricórnio fica a mais ou menos 23,5°S e separa a zona tropical das latitudes médias. Essa linha imaginária passa no Estado de São Paulo-SP e lembro até hoje quando eu era criança e viajávamos para o Litoral Norte. Meu pai sempre falava para “abaixarmos as cabeças” quando a placa era avistada na rodovia rs. Se a Terra tivesse anéis, como seria a visão desses anéis para um observador localizado no Tropico de Capricórnio?

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Figura 6: Observador localizado no Trópico de Capicórnio. Imagem de Ron Miller.

Na primeira imagem do post (a montagem), é dito que a imagem acima é de uma localização na Polinésia. Não está errado! A Polinésia é um conjunto de ilhas no Pacífico, distribuídas pelos trópicos:

Mapa mostrando a localização da Polinésia. Wikimedia Commons
Figura 7: Mapa mostrando a localização da Polinésia. Wikimedia Commons

Dessa maneira, a Polinésia é “cortada” pelo Trópico de Câncer , pela linha do Equador e pelo Trópico de Capricórnio. E a Figura 6 vale tanto para uma localidade no Trópico de Capricórnio quanto para uma localidade no Trópico de Câncer. A diferença, como eu disse anteriormente, seria a posição no céu: em uma localidade no Trópico de Câncer, os anéis ficariam na direção Sul do Céu e em uma localidade no Trópico de Capricórnio, ficariam na direção Norte.

Como eu disse, para pessoas desorientadas (como eu) ficaria mais fácil encontrar os pontos cardeais. Se é que eu ou você existiríamos em uma Terra com anéis…

E como seria em um local próximo aos pólo? Ron Miller também pensou nisso. No Alasca, ficaria assim:

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Figura 8: anéis vistos do Alasca (próximo ao Pólo Norte). Imagem de Ron Miller

Ou seja, um pequeno disco brilhante na direção Sul. Se fosse na Terra do Fogo, seria um pequeno disco brilhante na direção Norte. E um observador EXATAMENTE sobre os pólos, talvez não veria disco nenhum. Um maluco como Roald Amundsen ou Robert Falcon Scott, não veria disco nenhum antes de fincar a bandeira!

Mas seria legal mesmo se a Terra tivesse anéis? A não ser que por alguma razão eles produzissem uma radiação benéfica, como em Star Trek – Insurreição (falei do filme aqui), não valeria a pena. Na ficção tudo é muito interessante, mas nem sempre funciona na vida real.

Os anéis refletiriam os raios solares. Dessa forma, nosso planeta absorveria menos radiação de ondas curtas e produziria menos calor.  O clima todo seria afetado, a Terra seria completamente diferente do que é hoje. O meteorologista Peter Fawcett e o físico Max Boslough (ambos da Universidade do Novo México) fizeram algumas simulações de como ficaria a Terra se um anel se formasse a partir do impacto de um asteroide.  O artigo, entitulado Climatic effects of an impact-induced equatorial debris ring, foi publicado na JGR  em 2002 (veja aqui). Parte da pesquisa também foi divulgada nesse arquivo do Sandia National Laboratories, onde Boslough trabalha. Os pesquisadores utilizaram o modelo de circulação global GENESIS e fizeram simulações para cenários com anéis de arranjos diferentes e também sem anéis, para fazer a intercomparação.

Os anéis sombreariam os trópicos (como nas Figuras 5 e 6). E a largura dessas sombras mudaria, porque dependeria do movimento aparente do Sol ao longo do ano. Essas áreas sombreadas ficariam com temperaturas mais baixas e criaríamos intensos gradientes térmicos. E os gradientes térmicos, intensos dão origens a circulações atmosféricas. Teríamos rajadas de vento muito intensas em regiões onde atualmente não há, como na região Equatorial. Com o esfriamento do planeta, haveria menos evaporação. E provavelmente menos chuva.

A pesquisa de Fawcett e Boslough foi destaque em uma interessante reportagem da Superinteressante, que explora justamente a possibilidade de a Terra ter anéis. Essa reportagem pode ser lida aqui.