Resenha de Interstellar: porque eu senti uma vibe 2001 (não apenas eu)



Acredito que Interstellar é o grande lançamento de 2014, principalmente se você é fã de ficção científica.

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Eu queria escrever uma resenha sem fazer grandes revelações sobre o enredo. Vou tentar, mas sei que é difícil. Então, sugiro que você assista primeiro e depois leia minha resenha. Ok, talvez o termo correto nem seja resenha. Acho que o que escrevo a seguir está mais para um resumo e discussão do filme. No entanto, se você se incomoda com spoilers (e não quero chatear ninguém), pare a leitura aqui 🙂

Em Interstellar, a humanidade regrediu para uma sociedade fundamentalmente agrária. Tanto que Cooper, engenheiro e ex-piloto da NASA, é fazendeiro. Planta milho e cria dois filhos. A esposa morreu em decorrência de um tumor cerebral. Se esse tumor tivesse sido identificado antes, a esposa estaria viva. A questão é que a humanidade já não investe tanto em ciência. O grande problema da sociedade é a fome: tempestades de areia e pragas destroem diversas culturas.

O programa espacial aparentemente não existe mais. Gastos em exploração espacial são mal vistos, numa sociedade que sofre com a falta de comida. A humanidade reaproveita tudo: painéis solares (gerar energia tornou-se um grande problema) e carros (que são muito velhos, detonados). Já não pode haver mais consumismo.

Esse panorama social é muito interessante no filme. Primeiro porque sugere que é um futuro bem próximo ao nosso (menos de 100 anos, deduzo). Depois porque nos faz refletir sobre discussões atuais: crise da água, crise da energia, desperdício, consumismo, etc. Acredito que só esse pano de fundo, usado para que a história se justifique e se desenrole, já é muito interessante.

Temos personagens femininas muito fortes e decisivas no filme. Vamos a primeira delas, Murph, filha de Cooper. A menina (que ao longo do filme, fica adulta e envelhece) questiona professores, questiona o ensino. Nesse mundo novo, o ensino foi modificado para que os alunos não sonhem com as possibilidades dos programas espaciais. Nos livros didáticos, é narrado que o Projeto Apollo foi uma farsa criada para afirmar poderio norte-americano no período da Corrida Espacial. A pequena Murph questiona o ensino, pois ela tem acesso a livros da biblioteca de seu pai. A menina também descobre um “fantasma” em seu quarto, na fazenda que vive com o pai, o avô e o irmão. Esse ‘fantasma’ é na verdade uma anomalia gravitacional, que “vive” atrás da estante de livros e manda mensagens. Uma das mensagens é um codigo binário que informa as coordenadas de uma base onde ocorrem atividades de pesquisa espacial.

As atividades dessa base ocorrem em sigilo, já que gastos em exploração espacial não são bem vistos. Essa base é na verdade a NASA e faz parte de um plano de evacuação da Terra. Pesquisadores descobriram um wormhole (buraco de minhoca) na órbita de Saturno. Esse wormhole é persistente e tem tamanho suficiente para que uma nave o atravesse. Ele conecta nosso Sistema Solar a outra Galáxia. A propósito, adorei a forma que o wormhole é tratado. É uma “janela esférica” que permite que o outro lado (a outra galáxia, no caso) seja visto.

Já andei afirmando em alguns posts que buracos de minhoca são a nova fonte de inspiração para textos e roteiros que exploram viagens espaciais. Velocidade de dobra, apesar de ser um artifício interessante, já está muito associado a Star Trek. Outro tema que tem sido muito explorado é a hibernação. O indivíduo fica em estase, suportando melhor uma viagem longa. Essa estase é induzida colocando o indivíduo em câmeras de hibernação e reduzindo sua temperatura, para então deixar seu metabolismo mais lento. Em Interstellar, a estase e o wormhole se combinam para possibilitar uma viagem espacial mais longa.

Nesse ponto da história, a NASA tinha mandando 3 missões lideradas por 3 cientistas de perfis diferentes para explorar planetas nessa nova galáxia. O objetivo era encontrar planetas que possibilitassem a criação de uma colônia para a humanidade. Ou seja, o objetivo era encontrar um planeta bem parecido com a Terra. A terraformação não é nem cogitada no roteiro.

Ah sim, Cooper eventualmente vai até a base (seguindo as coordenadas que recebeu pela anomalia gravitacional). Chegando lá, acabam reconhecendo-0 como um dos excelentes pilotos da NASA e ele é convidado para pilotar uma nave que deve atravessar o buraco de minhoca para procurar as expedições dos três cientistas. Cooper aceita, deixando sua família para trás e desapontando sua filha. A menina tenta dissuadir o pai, dizendo que o “fantasma” diziam para que ele ficasse (o ‘fantasma’ mandou a mensagem stay). Entretanto, o pai vê na missão uma oportunidade de salvar sua família, pois a Terra está ficando cada vez mais inóspita. A base da NASA é uma estação espacial e desde que o renomado físico Dr. Brand consiga resolver as equações que permitem manipular a gravidade, essa estação poderá então viajar em direção a nova colônia.

Então surge uma outra personagem feminina muito importante, a Dra Amelia Brand, filha do Dr. Brand. Interpretada por Anne Hathaway, é uma mulher forte e insistente, acredita na missão e acredita que pode encontrar um novo local que possibilite a colônia. Ela inclusive acredita de antemão que um dos três planetas, Edmunds, é o indicado. Ela é apaixonada pelo cientista que liderou a missão até esse planeta que ganhou seu nome, mas as razões que a fazem acreditar no planeta Edmunds são maiores do que esse amor. É intuição. Sua persistência e seu conhecimento serão vitais para a missão. Essa força de vontade da personagem lembrou um pouco da Dra. Ryan Stone, personagem vivida por Sandra Bullock em Gravidade. A mesma persistência.

Nessa outra galáxia há um buraco negro batizado de Gargantua. E o planeta Miller, primeiro dos três planetas que a equipe de Cooper visita, está perigosamente próximo de Gargantua. E essa proximidade permitiu que os roteiristas explorassem o paradoxo relativístico mais interessante: o tempo passaria mais devagar para quem estivesse próximo ao buraco negro. Como o planeta está muito próximo ao buraco negro, os efeitos são sentidos pelos exploradores. Dessa forma, os filhos de Cooper envelhecem e ele continua o gatão de 40 e poucos anos que é (nem contei que Cooper é interpretado por Matthew McConaughey, nem preciso falar de sua beleza e talento). O protagonista e a Dra Brad discutem, já que eles ficam mais tempo que o esperado no planeta Miller, fazendo com que mais anos tenham transcorrido no “tempo normal” (linha do tempo na Terra). No final o planeta Miller nem é indicado para abrigar uma colônia, já que é totalmente coberto por água e apresenta ondas monstruosas. Sim, você que detesta o filme Waterworld iria adorar que o mundo de Waterworld fosse daquele jeito :P. 

Quando deixam o planeta Miller e vão em direção a Endurance (pequena estação espacial onde as naves se acoplam), eles se assustam ao reverem Romilly, físico da missão que ficou na Endurance e que não entrou na região de influência do Gargantua. Romilly envelheceu, enquanto os outros personagens continuam jovens. Na Endurance, Cooper recebe mensagens da Terra, vê que sua filha já é adulta. Tornou-se uma importante cientista da NASA e também cuida do ja bastante idoso Dr. Brand, pai da Dra. Amelia Brand. Murph é pupila do físico e trabalha em suas equações. Ela está prestes a fazer uma descoberta importante, de um segredo guardado pelo Dr. Brand e oculto de Cooper desde o início da missão. A importância de Murph só cresce até o final do filme. Seu irmão, Tom, o outro filho de Cooper, tem uma vida de fazendeiro. E o que é o determinismo: Cooper queria que seu filho estudasse, fosse engenheiro. Na escola, os professores o deixam com notas baixas e tentam condicioná-lo a ser um fazendeiro, já que num mundo com problemas da produção de alimentos, é necessário que os jovens tenham gosto pelas atividades braçais. Tom eventualmente torna-se fazendeiro. Casa-se e tem dois filhos. Sua família sofre com problemas de saúde associados a poeira das tempestades e ele tem certa resistência ao tratamento médico, científico.

Eu sei que já fiz revelações demais sobre o enredo e quero parar por aqui. Só quero dizer que o buraco negro tem uma consequência metafísica muito interessante. Entra também a questão de que a humanidade vai evoluir e passar conviver com dimensões extras (se não me engano, a realidade é pentadimensional). E a estante de livros e o “fantasma” retornam a trama, fazendo uma ligação entre o começo do filme e o seu apogeu. O tempo aparece como uma dimensão espacial e pode ser manipulado. Pois é, é nessa hora que o filme ganha contornos de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Na verdade não é só essa hora não. A pequena estação espacial, a Endurance, está em rotação para então simular a atuação da força da gravidade e deixar os membros da missão mais confortáveis.

 A diferença é que 2001 não é um filme muito palatável. Ele é paradão, há muitos momentos de silêncio. É um gênero de filme que não atrai o grande público. Querem saber? Eu sou dessas que preferem um filme mais movimentado :P. Adoro a proposta inovadora de 2001, fico embevecida com as referências que o filme apresenta, compreendo e respeito sua importância para o gênero de ficção científica, mas o filme é parado sim. Desculpem, minha opinião :P.

Há outros destaques muito importantes no filme: os robôs multifuncionais TARS e CASE e seus níveis de humor e sinceridade. Matt Damon, interpretando Dr. Mann, cientista que forja resultados por benefício próprio.

O físico teórico Kip Thorne foi consultor científico do filme, para garantir que a teoria da relatividade e os buracos de minhoca fossem descritos da maneira mais acurada possível.

Thorne trabalhou com uma equipe de efeitos visuais para simular o buraco negro da forma mais fiel possível. As equações teóricas foram fornecidas para a equipe de efeitos especiais e Thorne supervisionou o trabalho. Alguns frames demoraram mais de 100 horas para serem renderizados e o resultado foram mais de 800 terabytes de dados. O resultado foi surpreendente e garantiu que a pesquisa sobre buracos negros ganhasse novas contribuições: dois novos artigos científicos foram escritos. Acredito que é a primeira vez que as simulações usadas para um filme possibilitaram que artigos científicos pudessem ser escritos. E agora eu PRECISO ler o livro The Science of Interstellar, de autoria do próprio Thorne. Dica de presente de natal ;).

O filme me ensinou uma coisa bem interessante: eu achava que qualquer coisa que entrasse em um buraco negro, seria espaguetificado. Acho que vi isso em O Mundo de Beakman, programa que formou meu caráter. Saí do filme meio impressionada e pensativa. Só que o buraco negro do filme não era um buraco negro qualquer, era um buraco negro massivo, um super buraco negro. De acordo com Sean Carroll, físico da Caltech para a Science and Film:

Depende de quão grande ele (o buraco negro) é. Quanto menor o buraco negro, mais dramáticos são os efeitos, porque você entra na singularidade muito rapidamente. Se for um buraco negro muito grande, talvez você nem note que está dentro dele.

Leia a entrevista completa de Sean Carroll. O físico fala da possibilidade de encontrarmos planetas igual a Terra, fala do buraco negro e da possibilidade de buraco de minhoca existir, ter tamanho suficiente para uma nave atravessá-lo e manter-se.

Claro que não podemos ser chatos e sem imaginação. Em filmes de ficção científica, a ciência pode ser uma ferramenta para orientar os roteiristas na criação de um cenário realístico. No entanto, a imaginação do escritor não pode ser restringida pelas leis da física. Especulações são sempre bem vindas =).

E claro, esse é o lançamento do ano. Recomendadíssimo. E leia também a resenha da Sybylla.