Resenha de Os Olhos do Dragão – Stephen King



Mais uma resenha de mais um livro do Stephen King. É um de meus autores favoritos e os livros dele me prendem de modo que leio um livro rapidamente, em poucos dias. Antes de fazer a resenha, preciso contar porque adquiri esse livro.

Sou uma grande fã da série A Torre Negra. Nessa série, Stephen King faz conexões com outros livros de sua autoria. Então há referências com Salem’s Lot (A Hora do Vampiro), Novembro de 1963, The Mist,etc e também com Os Olhos do Dragão. Para entender essas relações, repito mais uma vez o diagrama do Universo Stephen King:

Relações entre personagens/cenários/situações nos livros de Stephen King. Por Tessie Girl.
Relações entre personagens/cenários/situações nos livros de Stephen King. Por Tessie Girl.

Os Olhos do Dragão pode ser interpretado como uma lenda da Terra Media. Ou com uma história que acontece muuuuuitos anos antes de o mundo seguir adiante. Conta a história do Rei Roland, rei de Delain (sim, observe a coincidência do nome com o protagonista de A Torre Negra), e de seus filhos. Peter e Thomas são irmãos com personalidades completamente diferentes. Quando eles são adolescentes, algo terrível acontece e muda a vida deles. Peter, o primogênito, é condenado por um crime que não cometeu. Para buscar justiça, ele arquiteta um plano paciente.

A tragédia (e todas as tragédias do livro) é orquestrada por Flagg, feiticeiro e conselheiro do reino. Mais uma vez, uma ‘coincidência’ no nome. Flagg (que possui diversos nomes, dependendo da cidade ou época em que atua) é um personagem constante em diversos livros do Stephen King. Ele representa o mal externo, um agente que influencia outras pessoas a cometerem atos terríveis. Há uma seção na Wikipedia dedicada a Randall Flagg, falando de todos os seus codinomes e de todas as aparições que o personagem fez e faz na obra de Stephen King.

Em uma entrevista recente à Revista Rolling Stone, Stephen King disse acreditava “no mal”, mas que toda a sua vida ele tem “ido para trás e para frente sobre se há ou não um mal exterior, se há ou não uma força no mundo que realmente quer nos destruir, a partir de dentro para fora, individual e coletivamente. Ou se tudo isso vem de dentro e que tudo isso faz parte da genética e do ambiente”. Essa entrevista foi destacada numa manchete recente d’O Globo, pois King está divulgando seu novo romance, Revival.

Destaquei esse trecho porque pra mim tem tudo a ver com Randall Flagg. Flagg aparece de diversas maneiras em toda a obra de King. Desde um cobrador de impostos muito malévolo (em The Wind Through Keyhole, que faz parte de A Torre Negra) a um antagonista capaz de atrapalhar todos os planos dos protagonistas (como na série A Torre Negra ou em Os Olhos do Dragão).Em Novembro de 1963, romance que resenhei recentemente, há antagonistas que não permitem que o passado seja mudado.  Talvez eles, de alguma forma, sejam Randall Flagg. Na verdade, o passado não quer ser mudado, mas há personagens que agem de maneira cruel e violenta para impedir essa mudança. Talvez eles tenham sido usados pelo passado, que tem vida. No conto The Langoliers (tem uma mini-série muito boa inspirada no conto), fica muito claro que o passado não gosta de visitas.

É impossível falar de um romance de Stephen King sem mencionar outros de seus trabalhos. Em Os Olhos do Dragão, é possível fazer essas referências que mencionei anteriormente. O estilo narrativo do livro é completamente diferente do que a gente vê em outros trabalhos de King. A narração é feita no estilo de contos de fada e o livro conta com ilustrações belíssimas. O livro foi publicado em 1984, publicado inicialmente com tiragem limitada, com ilustrações feitas por Kenneth R. Linkhauser. Nessa edição limitada, a capa era a coisa mais linda:

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Em 1987, o livro foi re-publicado, dessa vez com grande tiragem. As ilustrações dessa nova re-publicação foram feitas por David Palladini. A edição que adquiri foi publicada pela Suma de Letras e contava com essas ilustrações de Palladini. São muito bonitas, criam uma atmosfera de fantasia maravilhosa. Você entra nos bastidores do castelo de um Reino localizado num lugar muito distante. Localizado talvez em um mundo além deste.

Flagg e o Príncipe Peter. Ilustrações de David Palladino
Flagg e o Príncipe Peter. Ilustrações de David Palladini
Capa da edição da Suma de Letras, que é a edição que li. Nela, há as ilustrações de Palladini
Capa da edição da Suma de Letras, que é a edição que li. Nela, há as ilustrações de Palladini

Outro importante aspecto da narração é que o narrador é completamente onisciente. E ele já sabe da história toda e provavelmente já a contou outras vezes. O narrador também deixa pontas soltas ou revela fatos que vão ser importante nos capítulos seguintes. Portanto, o narrador faz pequenas revelações do enredo ao longo da obra, o que é muito interessante. Isso deixa o leitor curioso, querendo saber como os fatos vão se desenrolar de modo a ter aquele fechamento narrado anteriormente.

Meu marido fez uma observação interessante: e se essa história foi contada por Gabrielle, mãe de Roland (Roland de Gilead, d’A Torre Negra), quando nosso querido pistoleiro era criança? Pode ser. A obra de Stephen King permite que a imaginação do fiel leitor aflore e desenvolva teorias.

Dedico esta resenha ao querido @gunslingerdreams . Essa pessoa linda, brasileira, também é fã de Stephen King. Estiloso, inteligente, tem tatuagens lindas e publica um pouco de seu cotidiano em seu perfil do Instagram. Ele postou que tinha começado a ler Os Olhos do Dragão no mesmo dia que eu tinha terminado. Ele disse que ia ler minha resenha depois que ele acabasse de ler o livro ;). Confesso que também não gosto de ler resenhas antes de ler o livro. Explico: é normal que o resenhador, sem querer, revele alguma coisa do enredo. E eu temo também que a resenha acabe contaminando meu jeito de interpretar um determinado livro. Gosto de ler as resenhas depois, pois as vejo como uma forma de discutir o livro e de trocar aspectos que cada leitor conseguiu observar ou relacionar.

Apesar de não gostar muito de ler as resenhas, levo em conta as opiniões. Por exemplo, no FEBR, criamos um tópico para O Homem do Castelo Alto. Outras pessoas me recomendaram outras produções que seguem a mesma ideia de realidade alternativa. Uma realidade alternativa que ocorreria se um determinado fato histórico acontecesse de forma diferente. E claro que eu fiquei curiosa para conhecer mais desses trabalhos. Além disso, também levo em conta a opinião literária de quem tem as mesmas preferências que eu. As opiniões literárias da @gunslingerdreams, da Sybylla e do Beto, apenas como exemplos, sempre chamam a minha atenção. Quando eles dizem que um determinado trabalho é bom, costumo ir atrás!

Ok, não me achem a chata que lê apenas ficção especulativa (embora vocês possam achar isso rs). Eu leio outros gêneros também. Gosto de jornalismo literário e gosto muito de biografias também. Mas ficção especulativa (terror, ficção científica, fantasia) tem um lugar bem central nas minhas preferências,

Bom, para finalizar, minha opinião final sobre Os Olhos do Dragão: gostei bastante. Não é o melhor livro do Stephen King, acho que ele não é um bom narrador de Contos de Fadas. Prefiro ele como autor de terror, ficção científica ou outras formas de ficção especulativa. Mas o formato “Contos de Fada” sob as mãos de King não chamou muito minha atenção. Talvez seja preconceito meu, porque eu estou acostumada com outros trabalhos do escritor. No entanto, o enredo tem aspectos muito mágicos e criativos, o que consegue certamente cativar o leitor. Dessa maneira, recomendo.

 P.S.: Enquanto estava lendo o livro, pensei no blog. Não apenas em escrever a resenha para o blog, mas é que há um momento previsão do tempo muito interessante. Os habitantes de Delain sabem que um halo (lunar ou solar) indica que vai esfriar nos próximos dias. No enredo, um halo antecede uma nevasca, fato que é repetido por vários personagens =).