Resenha dupla: um dos piores filmes que já vi na vida e outro filme muito bom.

Dia desses resolvi assistir um filme. Até aí, nada de anormal. Acontece que gosto muito de ver filmes inspirados em livros que já li. Podem ser adaptações mais “fiéis” ou adaptações mais livres, com mudanças no enredo ou até mudanças na localização temporal.

O Retrato de Dorian Gray é um clássico da literatura universal. Foi escrito por Oscar Wilde em 1890, quase no final da Era Vitoriana. Mesmo quem ainda não leu o livro, provavelmente sabe os principais detalhes da obra: vaidade, hedonismo, um retrato que envelhece (enquanto o retratado permanece jovem), opulência, riqueza, tensão homossexual, etc. É um de meus livros favoritos. Foi considerado polêmico e escandaloso na época em que foi escrito, devido ao seu conteúdo homoerótico e também por conter críticas contundentes à aristocracia e a cultura da época. Oscar Wilde foi julgado e condenado por práticas homossexuais. Ficou na prisão entre 1895 e 1897. Durante seu julgamento, trechos d’O Retrato de Dorian Gray foram mencionados, sendo esses trechos usados contra ele.

Semana passada, assisti dois filmes que são adaptações deste romance. A primeira, é uma adaptação (que achei horrível) que apresenta mudanças no enredo e na localização temporal.  O filme em questão é Dorian Gray- Pacto com o Diabo (2001).

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Nesse filme, Dorian é o pseudônimo de um modelo de muito sucesso. Esse modelo foi descoberto por um agente do mundo da moda chamado Henry (alusão a Lord Henry Wotton, personagem que seduz Dorian e apresenta seu estilo de vida), enquanto Dorian era apenas Louis, assistente de fotografia de Bea, fotógrafa de moda renomada.

Bea (aqui o equivalente a Basil Hallward) é uma grande amiga de Henry. Os dois trabalham juntos em diversas campanhas publicitárias. Henry vê Louis no estúdio de Bea e observa no rapaz uma beleza incomum. O agente convence Louis a tirar fotografias para uma campanha, que logo torna-se um grande sucesso. O próprio modelo, que começa sua carreira nos anos 1980, continua tendo sucesso até os anos 1990.

Uma das fotos desta primeira campanha é ampliada e emoldurada. Henry faz a mesma constatação óbvia de Lord Henry (do romance): você envelhecerá, e sua fotografia permanecerá jovem, sempre te lembrando de como envelhecer a cruel, etc. Dorian faz então uma espécie de pacto com forças ocultas (ok, pode chamar de pacto com o diabo rs), para que ele permaneça jovem como o retrato.

A ideia de fazer uma adaptação que deixe o romance contemporâneo parece atrativa. De fato, poderia ser, se o enredo não fosse tão ruim e previsível. As atuações são péssimas. A tensão homossexual, que fez o romance ser polêmico, está ausente na adaptação. Na verdade, o modelo Dorian é uma espécie de “pegador”, um homem que sai com diversas mulheres. E claro, o fato de Bea (o equivalente de Basil) ser uma mulher, removeu toda possibilidade de uma tensão homossexual. No entanto há momentos em que Henry o olha com certo desejo, pelo menos pareceu.

Mas o filme não é de todo ruim. Achei interessante a forma de “esconder” o retrato amaldiçoado: atrás de um espelho de correr. Ou seja, Dorian sempre vê sua face jovem e atraente. Agora faço uma pergunta que fiz enquanto li o livro: por que simplesmente não colocar o retrato em um cofre, ou escondido no forro da parede? Por que olhar sempre para ele? Bom, acho que nós somos atraídos pelo grotesco, pelo encantado, pelo assustador. Apesar do retrato assustar, Dorian quer olhá-lo.

Eu também acho que o filme poderia fazer uma crítica a essa sociedade que só valoriza a aparência, a forma. O livro fez uma crítica à sociedade da época, acredito que o filme poderia ter explorado isso melhor. No entanto, é possível perceber isso nas entrelinhas.

A maquiagem do filme também é péssima e mal dá para ver que o tempo passou, e os personagens envelheceram, exceto Dorian. Não gostei do filme, achei a narração (feita por Henry, o agente) muito ruim. Agora vocês vão achar que sou meio maluca, mas gostei do final: a ideia de um ciclo sem fim, de pessoas exploradas pelo mercado da moda, sendo vistas como meros displays, objetos. A ideia de efemeridade: Henry vai encontrar um substituto. É, não gostei do filme mas gostei do final (ou da minha conclusão sobre o final).

Ok, para dizer a verdade, talvez eu tenha exagerado quando disse que foi um dos piores filmes que já vi. Teve aspectos positivos. E para eliminar toda sensação ruim após ter visto o filme, no dia seguinte fui ver Dorian Gray (2009).

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E agora estamos falando de filme muito bom. Atuações impecáveis, figurino vitoriano maravilhoso, maquiagem ótima e excelentes cenários. Esse filme é bem mais fiel a obra. Digamos que o começo, o meio e o fim são exatamente fiéis, mas há recheios importantes. A tensão homossexual é bastante explorada. O hedonismo do personagem principal é muito bem retratado. Ele frequenta aqueles clubes de fumar ópio, conhece muitas mulheres, participa de todos os tipos de prática sexual (com homens e mulheres), etc.

A tensão homossexual é bem presente nessa adaptação, principalmente entre Basil (o pintor do retrato) e Oscar. Lord Henry, por outro lado, é bastante diferente do romance nessa adaptação. Interpretado pelo maravilhoso Colin Firth, ele é um sujeito que apenas prega uma vida de prazeres e luxúrias. Ele chega a viver um pouco disso na primeira fase do filme. Entretanto, Lord Henry muda após o nascimento de sua filha. E fica claro que ele passa a ser um sujeito bastante doméstico e dedicado a família. Assim como no romance, ele semeia o hedonismo e a vaidade no coração do inicialmente ingênuo Dorian Gray. Nessa adaptação, fica claro que ele se arrepende de ter incutido essas ideias em Dorian.

O personagem principal é interpretado por Ben Barnes, um ator talentosíssimo e também famoso por ter trabalhado em  Stardust – O Mistério da Estrela e As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian, que são dois filmes que eu também gostei bastante. Adorei a atuação de Colin Firth. Com a barba, o figurino e a maquiagem, ele se transformou completamente. Na primeira fase (que ocorre na última década do século XIX), Lord Henry parece ser um sujeito de mais ou menos 40 anos, que gosta de festas e eventos. Ele estimula Dorian a praticar todo tipo de ato egoísta.  Na segunda fase do filme (que ocorre durante a Primeira Guerra Mundial), após um longo período de sumiço de Dorian, Lord Henry já é um senhor idoso e com a filha adulta. Não vou dar mais detalhes sobre o personagem Lord Henry porque ele é o ponto de maior diferença entre o filme e o livro. Dessa maneira, quem leu o livro e quer ver o filme vai encontrar essa novidade e vai se surpreender com ela.

Bom, esse segundo filme eu recomendo com certeza!