Texto sobre a seca na revista Plano de Contingência



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A Revista Plano de Contingência é parceira do Meteorópole. A publicação destaca planos de contingência em diversas situações: saúde pública, desastres naturais, acidentes, etc. Por essa razão, a revista sempre dá destaque para o problema da seca e para questões relacionadas às mudanças climáticas. Recomendo todos os artigos, escritos por especialistas da área para o público geral. E todos podem ficar bem informados gratuitamente.

Esse texto é na verdade uma re-edição de outro texto que publiquei no Meteorópole: esse texto aqui, em que falo sobre um ciclo de palestras que tive a oportunidade de assistir.

Espero que gostem =)

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ATUALIZAÇÃO!

Infelizmente o site Plano de Contingência não está mais no ar. Graças ao Web Archive consegui recuperar esse texto e vou reproduzi-lo a seguir:

Atenção: sempre tenham cópias de seus textos, não corram o risco de perder sua produção!

Um novo olhar sobre a seca em São Paulo

No fim de outubro, tive oportunidade de participar do Workshop “Adaptação climática em megacidades: refletindo sobre impactos, demandas e capacidades de resposta de São Paulo”. O evento foi organizado pelo INCLINE (Núcleo de Apoio a Mudanças Climáticas da USP). Um grupo de especialistas em diversas áreas (meteorologia, geologia, defesa civil etc.) debateu temas ambientais específicos de grandes cidades.

Quando o ambiente urbano é discutido, é necessário levar em consideração que os temas ambientais são complexos, pois envolvem estudos multidisciplinares. Além disso, as próprias megacidades são muito complexas, com necessidades de deslocamento e planejamento do espaço urbano. Se colocarmos nesse caldeirão a questão das mudanças climáticas, fica bem claro o grande desafio que os tomadores de decisão têm ao criarem e gerirem políticas para o bem estar das grandes cidades.

Podemos considerar as grandes cidades como grandes organismos vivos, talvez aqui me inspirando na Hipótese Gaia de James Lovelock. E nossas cidades estão doentes. Essa conclusão sempre é feita em eventos que discutem mudanças climáticas e grandes cidades. Usando aqui minha imaginação, vejo artérias entupidas (avenidas cheias de congestionamento e rios e córregos poluídos), há doenças de pele (sujeira nas ruas, construções mal planejadas, falta de áreas verdes) e doenças respiratórias (poluição do ar em níveis alarmantes, com material particulado que é inalado e prejudica a vida da população). Imagino as megacidades (especificamente São Paulo, a megacidade em que vivo), como um vago mutante, criatura do escritor de ficção especulativa Stephen King e que sofreu efeitos da radiação nociva.

Ao considerar uma megacidade como um organismo vivo, talvez recuperemos a ideia de comunidade e futuro comum. Eu acredito que essa ideia já existiu no passado, mas foi abandonada porque nos tornamos cada vez mais egoístas. A violência urbana nos fez ter medo dos vizinhos. O consumismo nos fez querer acumular coisas, ter tudo que o dinheiro pode comprar. Perdoem minhas abordagens superficiais, mas acredito que consumismo, desigualdade social e violência urbana estão completamente interligados. Sei que a desigualdade social sempre existiu, talvez agora ela esteja mais exposta e tenhamos mais vergonha dela.

O tema central do Workshop é a seca em São Paulo. Eu comentava com alguns professores e colegas que se não fosse essa seca, o evento teria outro eixo. Talvez poluição do ar, ilhas de calor ou até mesmo enchentes. No momento, os holofotes estão todos voltados para a seca.

O Sistema Cantareira é o mais prejudicado e a água tem data para acabar. Mesmo que as chuvas dessa estação chuvosa fiquem acima da média, vai demorar alguns anos para que o reservatório se recupere completamente. Além disso, ainda ouvi falar em impermeabilização do reservatório. Toda argila exposta do fundo das represas pode secar de uma maneira que impermeabilizará o fundo das represas e prejudicará a recarga subterrânea. Assustador! O cenário não é nada animador.

á que o tema central foi a água, destaco um gráfico igual ao apresentado pela professora doutora Maria Assunção Faus da Silva Dias. Trata-se de um gráfico que já vi várias vezes, mas a professora me apresentou uma outra interpretação:

Esse é o gráfico de total anual de chuva desde 1933, em dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. Já o vi várias vezes (inclusive o gráfico acima foi feito por mim, com os mesmos dados da professora). Quando olhava para esse gráfico, sempre observava que há uma tendência de aumento no total anual de precipitação. Mas essa não é a informação mais importante ali contida! O detalhe mais relevante mora nas flutuações entre um ano e outro.

Um ano não é exatamente igual ao outro em termos de precipitação. Bom, os padrões esperados são iguais: no caso de São Paulo, chove bastante entre dezembro, janeiro e fevereiro e pouco entre junho, julho e agosto, por exemplo. Isso é o que a gente espera, baseando-se em padrões médios da atmosfera ditados principalmente pela latitude, continentalidade e altitude. Quando digo que um ano não é exatamente igual ao outro, é porque existem anos mais secos e anos mais úmidos. Por essa razão, o gráfico é todo serrilhado para cima e para baixo, mostrando os extremos de anos secos e os extremos de anos úmidos.

Agora repare que até a década de 1950 mais ou menos, as oscilações eram mais tímidas quando comparadas com os anos mais recentes. Recentemente, esses “sobes e desces” ficaram mais pronunciados. Há, portanto, uma tendência no aumento das oscilações. Em outras palavras, há uma tendência de aumento dos extremos! Quando a professora Maria Assunção colocou as coisas sob essa perspectiva, meus olhinhos brilharam!
Essa conclusão também foi escrita nos últimos relatórios do IPCC (o painel de discussões climáticas da ONU), onde foi bastante ressaltado que os eventos extremos se tornarão mais frequentes. E no último relatório do IPCC, falou-se também do risco para a segurança hídrica na América Latina.

Outro palestrante, o geólogo Ronaldo Malheiros Guerra (da Defesa Civil de São Paulo), falou sobre os planos de contingência para diversas situações de emergência da cidade: baixa umidade relativa, baixa temperatura e enchentes e deslizamentos. No entanto, ele admitiu que não há um plano de contingência para a seca que estamos vivendo. Anteriormente, a professora doutora Mônica F. do Amaral Porto (FCTH e professora da Poli/USP) afirmou que não havia maneira de passar incólume por esta seca. Claro, pois não foram feitos investimentos no setor! Não se houve falar no investimento na preservação dos mananciais e nem em obras para ampliar os reservatórios.

Uma conclusão é certa: precisamos repensar as grandes cidades. Precisamos mudar nossas atitudes individuais e individualistas (há pessoas que gastam água à vontade, sem pensarem no problema da crise hídrica e argumentando que podem pagar). E quem financia e lucra com a especulação imobiliária, que pressiona as pessoas de baixa renda a procurarem metro quadrado mais barato nas periferias (e muitas vezes em áreas de preservação ambiental)? Com essa pergunta retórica, termino esse artigo.