A “Cientista” Grávida – A Série – Piloto (episódio 1)



Com esse post, não pretendo ser porta-voz de outras mulheres que estão no mercado de trabalho e estão grávidas. E nem quero ser a porta-voz de  colegas de profissão ou colegas da área científica que estejam grávidas. É claro que muitas se identificarão, é normal. Mas o que escrevo aqui são minhas opiniões, minha vivência, como é em qualquer blog pessoal ou artigo de opinião.

Ou seja, não deve ser tomado como verdade absoluta 😉

Quando a gente fica grávida, as pessoas querem que a gente se sinta “a pessoa mais especial do mundo”. Agradecemos pelos mimos, mas eu não quero ser tratada como alguém iluminado ou superior. Sou apenas eu, a diferença é que tenho uma criança na barriga.

Sinto essa criança, sinto seus batimentos, mas essas são experiências minhas. Não são experiências que pertencem a toda a humanidade, porque nem toda a humanidade passará pela experiência da gravidez. Não sou mais especial que uma mulher que decidiu não ter filhos. E quero manter minha ética da responsabilidade intacta ao longo de toda minha a vida, ou seja, não quero amanhã acordar acreditando que toda mulher deve passar pela experiência da gravidez. Não, não quero agir assim.

Eu sou uma mulher saudável. Sempre fui saudável, nunca tomei remédios controlados e nunca me submeti a cirurgias ou procedimentos absurdamente necessários. Felizmente não tenho nenhum problema de saúde. E minha gravidez até agora tem sido muito tranquila. Peguei enjoo de alguns cheiros e alimentos, mas nada absurdo, há vários peixes no mar (affe, peixe…).

Dessa maneira, como tantas outras grávidas saudáveis (e não sou especial por ser uma grávida saudável, há várias), posso trabalhar tranquilamente. Ok, aqui falo de trabalhos que não tem insalubridade. Se você é soldadora em uma plataforma de petróleo ou física nuclear experimental, talvez tenha que realizar outras funções. Em meu trabalho fico bastante tempo sentada, as vezes fico em pé para dar palestras ou levar visitantes para tours. Mas nada além disso. Nada que prejudique meu bebê.

Por isso acho que qualquer excesso de zelo é chato, cansativo. Não preciso disso. Sei que as pessoas querem apenas demonstrar boa vontade, mas acho chato, exagerado. Eu gostaria que todos os que conheço assistissem o filme Fargo. Porque quando vejo a policial Marge Gunderson, cara, é o que eu quero ser!

FargoPosterE estou cuidando da minha saúde e claro, pedindo a Deus para que tenha misericórdia de mim. Sou cética e cristã, o ceticismo não é propriedade dos ateus.

Sim, acho que quando a gente está grávida e é cientista, pensa muito. Toda grávida procura ler sobre o assunto gravidez, mas quando você tem afinidade com ciência busca fontes melhores e questiona as informações que recebe. E a gravidez, em pleno século XXI, é cercada de toda sorte de crendices. Vou listar algumas que já ouvi (e quem quiser contribuir nos comentários, seja super bem-vindo!).

Marcas de nascença e “desejo” por alimentos: uma conhecida disse que se você sentir vontade de comer um alimento e tocar uma parte de seu corpo, a criança nascerá com uma marca no corpo na exata parte do corpo que você tocou. E essa marca do corpo terá o formato daquele alimento. Essa conhecida jura que sua filha possui uma marca no formato de ameixa nas coisas. Ela disse que sentiu um enorme desejo de comer ameixas e tocou as costas.

Como descobrir o sexo do bebe: aqui vi de tudo!

– Teste da aliança: você pega a aliança, amarra em um cabelo, balança com um pêndulo, algo assim.

– Teste do calendário chinês: é uma conta que você faz com sua idade

– Teste do garfo/colher: não entendi muito bem rsrs (como se eu tivesse entendido os outros)

– Teste do formato da barriga (também não entendi muito bem).

Em inglês, chamam essas coisinhas de old wives’ tale. Se você senta em algum lugar, vai ouvir vários.

Também ouvi muitos exageros sem precedentes.

– Não pode carregar peso: daí estavam brigando comigo porque eu estava carregando 1 cadeira de plástico vagabunda (sabe aquela horrível que quebra quando as pessoas gordas sentam?).

– Não pode beber: daí brigam comigo quando eu experimento 1 microgole de um vinho novo. Juro para vocês: 1 microgole. Não sofro alcoolismo, gente.

– Não pode tingir o cabelo: daí você quer usar henna da índia (e está grávida de mais de 3 meses) e criticam você.

Essas coisas que mencionem mostram que a gravidez ainda é cercada de mistérios e exageros. É como se uma mulher grávida não pudesse ter uma vida produtiva e normal. E é como se de repente a gente deixasse de ser um indivíduo consciente de suas escolhas. Você vira um receptáculo de bebê e as pessoas querem mandar na sua vida. Como se sua função, por 9 meses, fosse apenas de ajudar a manter (ou aumentar rs) a população da Terra. Desculpem, mas ao longo desses próximos 6 meses e pouquinho (em breve completo 3 meses), vocês vão ver uma mulher muito raivosa e lutando pelo direito de continuar sendo ela mesma. Claro que vou mudar, com a experiência da maternidade. Mas vou mudar de acordo com minhas regras, meu ritmo e meu aprendizado. E talvez eu nem “mude” muito. Só novas conquistas e habilidades serão destravadas ;).