Gravidez em Star Trek



Preparem-se, pois gravidez será um tema recorrente aqui no blog. E sempre vou falar do assunto usando as abordagens que mais gosto: científica, minha experiência pessoal e gravidez na ficção especulativa. Como grande fã de Star Trek, não poderia deixar de falar sobre gravidez em Star Trek.

No Universo Star Trek, a gravidez é tratada como protagonista em diversos episódios. Um ponto que acredito ser bastante recorrente é que a fêmea (ou macho, dependendo da espécie) em geral sempre mantém suas atividades profissionais ao longo de toda a gestação. A não ser que a gravidez tenha sido consequência de alguma situação inusitada. Por exemplo, no episódio The Child, de Star Trek: TNG. No episódio, Deanna Troi fica grávida de uma forma de energia. É uma gravidez indesejada e pode-se dizer com certeza que a forma de energia abusou sexualmente dela, já que o contato não foi desejado. Ela decide ter o bebê (a opção do aborto é oferecida), e a gravidez e o desenvolvimento do bebê são muito rápidos. Nesse episódio inclusive é revelado uma característica interessante dos betazoides, espécie de Troi: o período normal de gestação dessa espécie de humanoide é 10 meses! É necessário mais tempo para que o cérebro betazoide (capaz de acentuada empatia e telepatia) se desenvolva. A mãe betazoide comunica-se telepaticamente com o bebê 😉

Deanna Troi em uma "gravidez relâmpago" no episódio The Child, de Star Trek: TNG
Deanna Troi em uma “gravidez relâmpago” no episódio The Child, de Star Trek: TNG

Por outro lado, as bajoranas carregam seus bebês por apenas 5 meses. Um sistema de vascularização mais eficiente que o humano permite essa gestação mais rápida. E as bajoranas não sentem enjoô: elas sentem uma vontade incontrolável de espirrar! E a gravidez bajorana é explorada através da experiência de Kira Nerys em Star Trek: DS9, que atuou como “barriga de substituição”.

Major Kira Nerys dando a luz ao lado da amiga Keiko O'Brien e de uma parteira bajorana. Na cultura bajorana, há exercícios e rituais para facilitar o parto ;)
Major Kira Nerys dando a luz a Kirayoshi lado da amiga Keiko O’Brien (mãe biológica de Kirayoshi) e de uma parteira bajorana. Na cultura bajorana, há exercícios e rituais para facilitar o parto 😉

E falando na gravidez de Kira Nerys, não posso esquecer da gravidez de Keiko O’Brien (esposa do Chief Miles O’Brien, que trabalhava na USS Enterprise e depois transferiu-se para a Deep Space Nine) que é grande amiga da Major Kira. Keiko é humana, de família tradicional japonesa.

A história da família O’Brien é bastante explorada nas séries Star Trek: TNG e Star Trek: DS9. Os dois se conheceram através de um amigo comum, Data. Casaram-se (o casamento misturou tradições irlandesas e japonesas) e tiveram filhos. Como humanos, a gravidez correu dentro daquilo que a gente conhece. Mas o bacana é que apesar das questões comuns referentes à gravidez, Keiko continuou com seu trabalho como botânica e professora. Acredito que é um exemplo positivo! Ainda hoje há quem acredita que a mulher grávida deve ficar em casa sem fazer absolutamente nada. Claro que há casos em que a recomendação médica é de repouso absoluto, mas não é verdade na maioria das gestações.

Além disso, a família O’Brien mostra que algumas tradições (que talvez sejam machistas na opinião de alguns), ainda mantém-se no século XXIII-XXIV. Por exemplo, Keiko muda o nome logo após o casamento. Keiko e Miles tem dois filhos: Molly and Kirayoshi. E Kirayoshi não tem esse nome por acaso: Keiko O’Brien se machucou durante uma missão e sua amiga, Major Kira Nerys, atuou como “barriga de substituição”, dando continuidade ao restante da gestação. É nesse momento que a história de uma mãe humana (Keiko) encontra-se com a de uma mãe bajorana (Kira Nerys), que age por amor pela amiga.

Keiko e Kirayoshi
Keiko e Kirayoshi

Há outros casos de gravidez humana na série. Como por exemplo a da segunda esposa de Capitão Benjamin Sisko (Kasidy Yates-Sisko) e a Lt. Francisca Juarez, que dá a luz um pouco antes do casamento de Keiko e Miles. A enfermeira Alyssa Ogawa (que trabalha com a Dra. Beverly Crusher na enfermaria da U.S.S. Enterprise) é uma personagem recorrente da série Star Trek: TNG nas últimas temporadas e também fica fica grávida. Outro caso interessante de gravidez humana é uma gravidez híbrida (duas espécies diferentes de humanóides). No caso, a xenobióloga Samantha Wildman (que trabalhou na U.S.S. Voyager) e seu marido ktariano tiveram um bebê. Em casos assim, de miscigenação entre humanoides, o bebê nasce com características misturadas. Normalmente, uma raça humanóide tem características mais dominantes. E também depende da criação, do ambiente que a criança vive, para que ela possa absorver traços culturais que realçam ainda mais essas características. Spock por exemplo é filho de uma humana e um vulcano. Foi criado em vulcano e apesar da aparência dominante ser de vulcano, ele também tem características psicológicas de humano.

Samantha Wildman e seu bebê meio humano / meio ktariano.
Samantha Wildman e sua bebê meio humana / meio ktariana.

Mas vamos voltar a simpática família O’Brien. A melhor imagem é de Kirayoshi é com Worf.

Kirayoshi e Worf. Worf também é transferido para a DS9
Acho que o bebê não está gostando muito rsrsrs. Kirayoshi e Worf. Worf também é transferido para a DS9

E aproveito a imagem para falar da gravidez dentre os klingons, minha raça de alien favorita. As mulheres klingon carregam os bebês por 30 semanas. Dentre mestiços, a gravidez pode durar até menos. B’Elanna Torres, oficial meio klingon/meio humana da U.S.S. Voyager, é advertida sobre isso pelo Doctor.

A bebê de B’Elanna nasce (não lembro se realmente foi de menos de 30 semanas) e é chamada Miral Paris. O parceiro de B’Elanna é totalmente humano. Dessa forma, a bebê é apenas 1/4 klingon. Ela nasce com características craniais klingon muito sutis.

Miral Paris, bebê 1/4 Klingon, recém-nascida.
Miral Paris, bebê 1/4 Klingon, recém-nascida.

Outra grávida Klingon é K’Ehleyr, que teve um breve e intenso relacionamento com Worf. Não lembro exatamente se ela aparece grávida, mas o bebê nasce, ela morre e Worf passa a criá-lo com muita dificuldade. K’Ehleyr é mestiça (humana/klingon), assim como B’Elanna Torres. Dessa maneira, o pequeno Alexander é 1/4 humano.

Raro momento em que os três (Worf, Alexander e K'Ehleyr) aparecem juntos.
Raro momento em que os três (Worf, Alexander e K’Ehleyr) aparecem juntos.

Uma crítica que sempre fiz com relação as mulheres klingons de mais destaque é que elas raramente são totalmente klingons (com exceção das irmãs Lursa e B’Etor). Normalmente elas são mestiças com humanos para que os traços fiquem mais “delicados”. Como muitos dos homens klingons de destaque são interpretados por atores negros,  pra mim parece o mesmo que fazem cá no mundo real: as moças mestiças são consideradas bonitas e há uma enorme resistência em quebrar esse status quo. Tanto que quando Lupita Nyong’o foi eleita a mulher mais linda do mundo, houve quem criticasse (sempre tem um imbecil do contra que deveria ficar calado, né?).

Por falar nas irmãs Duras, Lursa também fica grávida na série (em um dos poucos episódios em que as irmãs aparecem), mas esse fato não é muito explorado. Uma pena, sou grande fã das irmãs Duras.

E já que recentemente falei dos Ocampa (quando falei sobre a ausência de núcleos de condensação), em Star Trek: Voy a gravidez Ocampa é um pouco explorada também. Como essa espécie vive apenas 9 anos, as mulheres Ocampa atingem a maturidade sexual por volta dos 4 anos. O bebê fica em um compartimento especial, nas costas da mãe, que me parece ser uma mistura entre útero e aquelas bolsas dos marsupiais.

Kes. rebelde Ocampa que passou uma temporada na nave U.S.S. Voyager. Na série, Kes fica grávida em uma realidade alternativa.
Kes. rebelde Ocampa que passou uma temporada na nave U.S.S. Voyager. Na série, Kes fica grávida em uma realidade alternativa.

E por falar em realidade alternativa, Deanna Troi também fica grávida de Worf em uma realidade alternativa. Eles tem dois filhos, que no caso seriam 1/4 betazoide, 1/4 humano e 1/2 klingon. Que família mais interessante :). Pena que ficou só na realidade alternativa.

Pessoal, tentei falar da maioria dos casos que me lembrei dos episódios que assisti. Claro que há outros casos de gravidez no Universo Star Trek, já que estamos falando de 4 séries e 11 filmes. Coloquei os que me lembro e considero importantes. E claro, contei com a ajudinha da Memory Alpha para lembrar alguns nomes de personagens.

 P.S.: O amigo e querido leitor Beto, do Habeas Mentem, deixou um comentário tão maravilhoso para esse post que ele merece fazer parte do texto do post. Por isso estou editando meu post para inserir o comentário do Beto.

Infelizmente Star Trek sempre mostrou a gravidez mais como um reflexo de como ela é encarada no século XX e menos como poderia ser no século XXIV (curioso que poucas foram as gravidezes mostradas na Série Clássica, sendo que não lembro de nenhuma em seres humanos). Todas as mostradas em tela tinham muito potencial para gerar questionamentos interessantes (o abuso sexual da Conselheira Troi e o aborto como uma opção nesse caso em TNG; a transferência do feto no caso Casal O’Brien/Major Kira, que achei a maneira mais genial de mascarar a gravidez real da atriz Nana Visitor, sem apelar pra desculpas óbvias que poderiam descaracterizar a personagem; as gravidezes Klingons, que seria uma excelente oportunidade de se aprofundar na cultura da raça guerreira; além da Ocampa Kes, que só pelo fato de seu ciclo de vida de 9 anos já seria o mote para uma quase infinidade de temas interessantes de cunho científico, sociológicos e mesmo psicológicos (imaginem um mestiço de Ocampa com humano, por exemplo que consiga alcançar os 30 anos de vida, vivendo mais que qualquer Ocampa e Menos do esperado pra qualquer humano).
Infelizmente nada disso foi abordado perdendo-se excelentes oportunidades de enriquecer ainda mais todo o já imenso universo de Star Trek.

Melhor conclusão impossível, não? A gravidez em Star Trek é mais vista como um reflexo de como ela é encarada no século XX. E adoraria ter visto um mestiço entre Ocampa e humano =). Obrigada, Beto, que comentário perfeito!