Resenha de Doctor Sleep, de Stephen King.



Já aconteceu de você ler um livro, adorar a história e assim que vira a última página pensa:

– Poxa, o que será que aconteceu com aquele personagem?

É bem provável que o trabalho mais conhecido de Stephen King seja O Iluminado, romance que virou filme nas mãos do lendário Stanley Kubrick. Reza a lenda que um dia Stephen King estava em um encontro com leitores, quando um fiel leitor perguntou:

– O que teria acontecido com Danny Torrance?

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Isso deve ter ficado martelando na mente de King. E então ele resolveu responder essa pergunta, escrevendo Doctor Sleep (Doutor Sono). Então vemos o tempo passar. Danny e sua mãe mudam-se para a Flórida e continuam vivendo uma vida de dificuldades financeiras. Eles mantém uma amizade a distância com Hallorann, o simpático e também iluminado chefe de cozinha que os salvou. Só que os fantasmas do Overlook não pretendem abandonar Danny tão cedo.

O livro não foca apenas na infância de Danny. O tempo passa, sua vida fica muito complicada e conturbada. Herda o vício do pai e vira um andarilho pelo país. Incrível como King sempre incorpora a figura do andarilho em seus trabalhos. Consigo pensar em John Marinville (Desespero), Père Calahan (A Torre Negra e Salem’s Lot, embora sua fase de andarilho esteja mais presente em A Torre Negra) e até George T. Amberton (que de certo modo tem uma fase andarilho em Novembro de 1963). E como todos os andarilhos de King, Danny tem um papel de protagonismo. O tempo passa, Danny torna-se um jovem adulto assombrado pelo alcoolismo e pelas consequências morais de seu vício. Ele acaba fixando-se em uma pequena cidade de New Hampshire onde conhece alguns amigos, inclusive Billy Freeman, funcionário de um parque de diversões (onde há um famoso trenzinho – Seria esse trem mal? Seria Monoblane? Seria a cidade dos carros Takuro Spirit antes do mundo seguir adiante?). Essas pessoas ajudam Danny. Danny eventualmente fixa-se nessa cidade e então a história passa a se desenvolver: passamos a entender quem é ou o que é o Doctor Sleep. Será que Danny vai vencer seu vício?

Danny torna-se funcionário de uma Casa de Cuidados Paliativos. Destaca-se pela dedicação e carinho que cuida dos idosos, até seus instantes finais. Ele começa a se comunicar de maneira estranha com uma garotinha chamada Abra, que nasceu pouco antes do atentado terrorista de 11 de Setembro. Essa menina pode ter mais luz interior do que Danny. E no livro, acompanhamos o nascimento, a infância e o início da adolescência de Abra. Acompanhamos seu relacionamento com os pais e amigos. Também conhecemos sua bisavó, Concetta, imigrante italiana. Uma simpática senhora de personalidade muito forte.

A luz interior de Abra e de outras crianças é uma propriedade é cobiçada por uma quadrilha liderada por Rose the Hat, uma misteriosa mulher que me lembrou muito Flagg (ou Walter das Sombras, ou Marten, ou qualquer outro nome dependendo da obra de King).

Achei Danny muito parecido com Eddie Dean. Se Danny não tivesse passado sua infância na Flórida, conseguiria imaginá-lo no terreno baldio em Nova York com Eddie adolescente e com o então misterioso (e talvez doido) Jake Chambers de A Torre Negra (me refiro principalmente ao volume d’A Torre Negra –  As Terras Devastadas). O alcoolismo de Danny o levou a experimentar drogas também. Ele chegou ao fundo do poço. E acabou concluído que bebia para abafar sua própria natureza.

Normalmente eu me estendo demais nas resenhas e acabo contando todo o enredo. Dessa vez não farei isso. Contentarei em dizer que é um livro muito interessante, no maior estilo Stephen King (terror, suspense, escatologia, metafísica, crianças mágicas, etc). Recomendo.