Um planeta sem núcleos de condensação: Ocampa (Star Trek: Voyager)



Vamos primeiro definir o que são núcleos de condensação, pois é um termo bem técnico da área de microfísica de nuvens, uma das áreas que os meteorologistas estudam no curso de graduação.

Núcleos de condensação (em inglês: cloud condensation nuclei ou apenas condensation nuclei e usarei a sigla CCN) são partículas onde o vapor d’água condensa para formar as nuvens. Podem ser: pólen, sal marinho, poeira de deserto, etc. Falei da importância dos núcleos de condensação nessa interessante experiência em que ensino a fazer uma nuvem.

Para formarmos uma nuvem a gente precisa ter vapor d’água e precisa que o ar seja forçado a subir.  Quando o ar contendo vapor d’água é forçado a subir, ele encontra temperaturas mais baixas. Dessa forma, ocorre a condensação (passagem do estado gasoso para o estado líquido). No entanto, essa condensação precisa ocorrer sobre uma superfície.

Quando a condensação acontece aqui perto da superfície (quando o vapor d’água encontra uma latinha gelada, por exemplo), a condensação ocorre em uma superfície. É dessa forma que temos o orvalho. O vapor d’água do ar, numa noite bem fria, acaba condensando sobre portões, relva, carros, etc. Para o vapor d’água se condensar e formar as milhares de gotículas que formam as nuvens, precisamos também de superfícies. É aí que entram os CCN anteriormente mencionados.

Areia de deserto pode ser um núcleo de condensação. E a areia viaja por centenas de quilômetros. Na imagem acima, a areia do Saara chega a Península Itálica.
Areia de deserto pode ser um núcleo de condensação. E a areia viaja por centenas de quilômetros. Na imagem acima, a areia do Saara chega a Península Itálica. E ela pode também atravessar o Atlântico, dependendo da direção dos ventos.

E se não tivermos CCN na atmosfera? Bom, na atmosfera terrestre eles são bem abundantes. Sal marinho, poeira, pólen, fuligem, partículas de poluição antropogênica etc. Temos tudo isso em abundância. No entanto, supondo que não tivéssemos CCN, se o ar estiver supersaturado de vapor d’água (cerca de 400% supersaturado), as gotinhas passam a se formar espontaneamente. Inclusive, em laboratório, é possível criar uma câmara de nuvens (ou câmara de Wilson), ambiente supersaturado de vapor d’água e superresfriado.  Esse aparato é utilizado para detectar radiação ionizante.

Bom, essa história de Câmara de Wilson é só curiosidade para instigar vocês. O rumo desse texto agora vai para a ficção científica. Nos mundos da ficção científica, alguém já inventou planetas sem núcleos de condensação? A resposta é sim e claro, foi ideia de Roddenberry.

Os planetas em Star Trek são classificados e nesse sistema classificação vários fatores são levados em consideração, tais como: composição atmosférica, tamanho, vegetação e temperatura da superfície. Ou seja, é necessário ter um especialista em Meteorologia a bordo de uma grande nave, para estudar a composição e as peculiaridades de cada um dos planetas para então classificá-los. Um planeta Classe M é um planeta que pode abrigar vida humanoide, ou seja, um planeta onde humanos podem viver e passar as férias.

Risa, destino turístico de 9 em cada 10 humanoides.
Risa, destino turístico de 9 em cada 10 humanoides.

A seguir, tabela com a classificação dos planetas de acordo com o Universo Star Trek:

Classe D Planetóide ou lua inabitável Regula, Weytahn
Classe H Normalmente inabitável Tau Cygna V
Classe J Gigante gasoso Jupiter, Saturno
Classe K Adaptável, se com domos para aumentar a pressão Mudd, Theta VIII
Classe L Marginalmente Habitável Indri VIII
Classe M Terrestre Earth, Risa, Bajor
Classe N Sulfúrico (pode ser habitável com modificações?) Venus
Classe T Gigante gasoso (certos tipos)
Classe Y “Demoníaco”, mesmo orbitá-lo é perigoso, radiações letais Silver Blood planet

A tabela acima foi adaptada do verbete de classificação planetária da Memory Alpha. Quero agora atenção especial aos planetas de Classe H. Na série, são planetas que normalmente são inabitáveis para humanoides, mas podem conter outras formas de vida. Os planetas de Classe H podem até conter oxigênio, mas eles não contém núcleos de condensação (CCN). Não me pergunte como é possível, porque esses mundos possuem solo com poeira, e teoricamente essa poeira poderia ser um núcleo de condensação. Ok, vamos fazer de conta que por alguma razão maluca os aerossóis desse planeta de Classe H não conseguem ter afinidade com a água. Vamos imaginar partículas que repelem a água e impossibilitam a condensação.

Dessa maneira, em um planeta sem CCN (um planeta Classe H), o ciclo d’água seria totalmente prejudicado. Sem chuva, as formas de vida do planeta deveriam ser resistentes a seca. Além disso, planetas Classe H não possuem “escudo” anti-radiação nociva. Ou seja, provavelmente não tem camada de ozônio e uma magnetosfera forte o suficiente. Essas coisas não tem relação com a ausência de CCN, mas são outras características que tornam os mundos Classe H bastante inóspitos.

No Universo Star Trek, há diversas tecnologias de Terraformação. Um mundo Classe H em teoria pode ser terraformado e virar um mundo Classe M. Ou pode ser adaptado, com tecnologias para mitigar algumas características, e então passa a ser minimamente habitável.

Em Star Trek, o planeta Classe H mais explorado pelos roteiristas certamente foi Ocampa. O planeta aparece na série Star Trek: Voyager, quando surge a personagem Kes, nativa desse planeta. Acontece que Ocampa nem sempre foi um planeta sem CCN. Exploradores nativos de outra galáxia, os Nacene, estragaram o ecossistema de Ocampa, de modo que núcleos de condensação (que na série chamam de partículas nucleogênicas) não foram mais formados. O planeta rapidamente tornou-se um deserto. Arrependidos pelo que fizeram os Nacene deixaram uma ser em Ocampa, chamado de Caretaker pelos nativos do planeta. O Caretaker protegeu o povo de Ocampa, deu comida, liderou uma busca por água subterrânea, etc. Essa é a lenda (talvez com fundo de verdade), contada pelos Ocampa há várias gerações. Dessa forma, o Caretaker virou uma espécie de divindade para o povo de Ocampa.

Subterrâneo em Ocampa, onde os habitantes desse planeta vivem. repare como as fontes de água subterrânea são utilizadas. Fonte: MemoryAlpha/Star Trek:VOY
Subterrâneo em Ocampa, onde os habitantes desse planeta vivem. repare como as fontes de água subterrânea são utilizadas. Fonte: MemoryAlpha/Star Trek:VOY

Não vou me aprofundar muito na trama, mas há uma estação espacial que orbita Ocampa chamada “Caretaker’s Array”. Foi construída pelos Nacene. É onde vive o Caretaker e serve de suporte para o povo Ocampa, fornecendo energia e outras coisas. Não lembro tudo em detalhes, mas lembro que há uma personagem chamada Kes. Kes era nativa de Ocampa e fazia parte de um grupo de rebeldes que queria outras alternativas, não apenas depender do Caretaker ou dos Nacenes. Depois a U.S.S. Voyager, nave da Capitã Janeway, entra na situação e então a personagem Kes passa a fazer parte da história. E com isso os roteiristas passam a explorar esse interessante planeta sem núcleos de condensação.

Kes. rebelde Ocampa que passou uma temporada na nave U.S.S. Voyager. Fonte: Star Trek:VOY
Kes. rebelde Ocampa que passou uma temporada na nave U.S.S. Voyager. Fonte: Star Trek:VOY

O povo de Ocampa vive apenas 9 anos terrestres. Pelo que entendi, isso ocorre justamente porque seu planeta tem o ciclo d’água prejudicado. As crianças nascem com camadas extras de pele no corpo, para minimizar a perda de umidade, certamente. Os Ocampa tem habilidades telepáticas muito desenvolvidas.

Outros planetas Classe H são apresentados, em outras séries e filmes da franquia:  Nimbus III, Rigel XII, e Ceti Alpha V. É interessante notar que em quase todos esses mundos, as atividades são subterrâneas ou protegidas por “domos de pressão”. Nenhum deles foi tão explorado quanto Ocampa, quero dizer, Ocampa teve seu povo, sua cultura e seus cenários bastante explorado em episódios de Star Trek: Voyager.

Com o atual cenário de conhecimento e maior conscientização sobre as mudanças climáticas, será bem comum que roteiristas de filmes e séries explorem planetas completamente castigados e prejudicados pela ação humanoide. De certo modo, em Interstellar  parece ser o que ocorre. Quando leio as projeções para o futuro do clima, fico bastante preocupada. Acredito que a maioria dos cientistas que estudam temas relacionados com o clima se preocupem da mesma forma. E escritores de ficção científica aproveitam esses quadros para elaborar cenários e enredos.