A “Cientista” Grávida – A Série – Gravidez e fases da Lua (episódio 4)



Existe uma expressão em inglês (falei dela no primeiro episódio da série) que é  old wives’ tale. Falei dessa expressão no primeiro episódio da série A tradução literal seria “conto das esposas mais velhas”. Eu traduziria como “lenda da sabedoria popular”, ou qualquer coisa assim. São aquelas lendas que são tão repetidas que em um dado momento deixam de ser questionadas e são amplamente aceitas pelas pessoas.

E durante a gravidez a gente ouve muitas historinhas. Muitas! É incrível como o universo da maternidade é cercado de “boatos” e “mistérios”, como se a concepção fosse algo mágico. Ok, é gostoso, você pode até chamar de mágico e romântico (toca aí Total Eclipse of the Heart), mas não tem nada de misterioso. E é incrível como tudo ainda seja cercado de mistério.

A propósito, cara leitora que não está grávida (mas planeja engravidar), esteja ciente que você vai conviver com dois tipos de perfis bem distintos:

– Homens superprotetores, ignorantes (no sentido de falta de conhecimento de causa) e exagerados, que as vezes só se preocupam com o bem-estar do feto (e não se importam com o seu bem-estar);

– Mulheres mais experientes exageradas, que repetem com toda seriedade as histórias que ouviram quando estavam grávidas.  Falei inclusive de algumas dessas histórias no primeiro episódio da série.

E você vai se estressar quando topar com esses tipos? Claro que não! Ouça todo mundo, separe o joio do trigo e seja firme. Digo firme porque há situações é que a conversa fiada é tão fiada e demorada, que você vai ter que dar um delicado corte (um tapa de luva de pelica, como dizia minha avó) nos chatões ‘sábios’ de plantão.

Antes de entrar no tema principal do post, vou contar uma historinha que ouvi essa semana. Uma mulher me disse que nós podemos definir o sexo do bebê: e para isso, basta comer muito doce (para que seja menino) ou muito salgado (para que seja menina) no primeiro trimestre de gravidez. Anos de desenvolvimento e descobertas no campo da Anatomia e Genética e parece que nada se difundiu completamente. Pois é…

Outro mito que já ouvi várias vezes tem relação com a gravidez e as fases da Lua. Esse mito varia um pouco de lugar para lugar (já ouvi sendo contado de várias formas), mas basicamente quem acredita nele jura que a Lua Cheia favorece o trabalho de parto. Não se sabe de onde esse mito surgiu, mas as pessoas realmente acreditam que a Lua pode afetar a fisiologia humana. Já ouvi histórias de fase da Lua correta para cortar o cabelo, fase da Lua específica para a fertilidade fase específica para a menstruação, fase da Lua que causaria a insanidade, etc. Já ouvi também que algumas fases da Lua afetaria a taxa de homicídios e suicídios. Bom, tanto que há a lenda do Lobisomem, homem que vira híbrido de Lobo na Lua Cheia!

A maioria das pessoas tenta explicar esse efeito falando que trata-se da Força de Atração Gravitacional da Lua. E elas ainda dizem com propriedade: ora, se a Lua pode afetar os oceanos (marés), pode afetar o corpo humano, já que ele é 80% composto por água.

Lei da Atração Gravitacional

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que a Força de Atração Gravitacional que um corpo exerce em outro tem a ver com a massa dos corpos envolvidos e principalmente com a distância que um corpo está do outro. Isaac Newton, no século XVII, postulou a Lei da Atração Gravitacional, a partir de cuidadosas observações astronômicas. A equação que descreve essa lei é a seguinte:

b65000f8f887a68545ce63eb1cada232G: é a Constante Gravitacional Universal

m1: massa de um dos corpos (considerando um sistema que leva em conta a interação entre 2 corpos)

m2: massa do outro corpo envolvido

: distância entre os dois corpos elevada ao quadrado

Já escrevi alguns posts em que falo da variação da distância da Lua. Nesse post, por exemplo, mostro como o tamanho aparenta da Lua muda muito pouco se ela estiver no apogeu ou perigeu.

Essa variação é muito pequena, porque a trajetória da Lua em torno da Terra é elíptica (com a Terra em um dos focos dessa elipse), mas é uma elipse de baixa excentricidade (uma elipse que é quase um círculo).

Dessa maneira, se calcularmos a Força de Atração Gravitacional entre a Terra e o Sol e entre a Terra e a Lua, teremos o seguinte:

G (Constante Gravitacional Universal) = 6,67384 × 10-11 m3 kg-1 s-2

massa da Lua = 7,36 × 1022 kg

massa do Sol = 2 ×1030 kg

massa da Terra = 5,972 × 1024 kg

distância entre a Terra e o Sol = 149.600.000.000 m

distância entre a Terra e a Lua = 384.400.000 m

raio da Terra =6.371.000 m

raio da Lua = 1.738.000 m

raio do Sol = 695.800.000 m

Portanto, se considerarmos Terra-Sol, usando a Lei da Atração Gravitacional:

Terra-Sol

Agora, se considerarmos Terra-Lua, usando também a Lei da Atração Gravitacional:

Terra-Lua

Percebam que a Força de Atração Gravitacional Terra-Sol é maior do que a entre a Terra-Lua, justamente porque o Sol é muito mais massivo. Essa conclusão aparentemente vai se contradizer com o fenômeno das marés (que vou explicar brevemente a seguir). Mas logo isso será esclarecido.

Marés

Maré é o fenômeno da subida e da descida do nível das águas de uma região por causa dos efeitos gravitacionais criados pela Lua e pelo Sol, de acordo com a Lei da Atração Gravitacional, que mostramos anteriormente. Devido ao movimento de rotação da Terra, a cada instante regiões diferentes da Terra estarão submetidas às marés baixas e altas, fazendo com que o fenômeno seja cíclico em cada local {x}.

Aqui entra um grande questionamento: nos cálculos acima, a gente mostrou que a Força de Atração Gravitacional Terra-Sol é maior do que a entre a Terra-Lua. Entretanto, quando falamos em maré, logo pensamos na Lua  (veja aqui). E a explicação dada quase sempre é:

A Lua exerce maior influência nas marés porque ela está mais perto.

De fato, a Lua está mais próxima da Terra do que o Sol, mas a explicação está equivocada ou pelo menos incompleta. Mesmo que o Sol esteja cerca de 390 vezes mais distante da Terra do que a Lua, a sua força na Terra é cerca de 175 vezes maior (conforme os cálculos que fizemos acima, usando a Lei da Atração Gravitacional). No entanto,  as marés são causadas pela diferença de campo de gravidade. O diâmetro da Terra é uma pequena fração da distância Sol-Terra de tal forma que o campo gravitacional solar modifica-se muito pouco entre um lado e outro da Terra.

Só que para a distância entre a Terra e a Lua, o raio terrestre já apresenta uma porcentagem maior. Dessa forma, a variação de força de atração lunar entre um lado e outro do nosso planeta é maior.

E o que importa para as marés não é a força absoluta, mas sim a diferença na força quando você compara os lados opostos da Terra. Então, porque a Lua está muito mais próxima, há uma diferença maior na atração gravitacional lunar entre um lado e outro da Terra.

Fases da Lua

As fases da Lua não tem a ver com a distância entre a Lua e a Terra. Elas ocorrem porque  a posição da Lua em relação à Terra e em relação ao Sol varia. Essa variação faz com que a porção de “Lua iluminada pelo Sol” que vemos aqui da Terra seja diferente ao longo de uma lunação, período de 29 dias em que ocorrem as 4 fases da Lua: Lua Nova, Lua Crescente, Lua Cheia, Lua Minguante e finalmente Lua Nova novamente.

Diagrama representando a posição da Lua e suas respectivas fases (a partir do hemisfério norte). No início está a lua nova. Note que, ao final, o destaque em verde representa a porção da órbita a mais que a Lua teve que executar para chegar novamente à fase nova, por conta do movimento de ambos os astros ao redor do Sol. Fonte: Wikimedia Commons
Diagrama representando a posição da Lua e suas respectivas fases (a partir do hemisfério norte). No início está a lua nova. Note que, ao final, o destaque em verde representa a porção da órbita a mais que a Lua teve que executar para chegar novamente à fase nova, por conta do movimento de ambos os astros ao redor do Sol. Fonte: Wikimedia Commons

Leia mais sobre as fases da Lua aqui.

Há sim uma relação entre marés e fases da Lua, mas isso não tem nada a ver com maior proximidade da Lua. Acontece que na Lua Nova e na Lua Cheia, o Sol, a Terra  e a Lua estão “alinhados”. Dessa maneira, o efeito da Força de Atração Gravitacional da Lua soma-se ao efeito da Força de Atração Gravitacional do Sol. A imagem abaixo ilustra esse efeito.

Fonte: CDCC-USP
Fonte: CDCC-USP

 

Claro que se ocorrer ao mesmo tempo uma Lua na fase Cheia ou Nova e um fenômeno como Super Lua (Lua no perigeu, ou seja, ligeiramente mais próxima da Terra), teríamos uma maré mais elevada do que o usual. Eu diria que esse é o principal efeito do fenômeno Super Lua e o pessoal da EarthSky discutiu essa questão nesse texto.

Outro fluido geofísico que também sofre influência do fenômeno de maré é a atmosfera. A intensidade da pressão do ar  é afetada pela ação do Sol e da Lua. O fenômeno chama-se maré barométrica e falei dele aqui. Nesse breve texto, a Prof. Dra. Maria Assunção F. da Silva Dias, do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP também fala sobre isso. E leia também esse interessante texto da Revista FAPESP sobre o tema.

Considerações Finais

É comum ouvir por aí que “como somos 70%-80% feitos de água, claro que as forças de maré também atuarão na gente”. A questão é que nossa escala de tamanho é incomparável à escala de tamanho dos oceanos.  Observando a equação newtoniana para a Força de Atração Gravitacional, notamos que a equação utiliza a massa dos dois corpos. Ou seja, quando a gente faz os cálculos usando a massa média de um ser humano (uns 75kg) e usando a massa aproximada da Lua (7,36 × 1022 kg), vemos que a força de atração gravitacional lunar sobre nós é ínfima quando comparada a que age no planeta como um todo! Quero dizer que considerando apenas um indivíduo sozinho e a Lua (como se a Terra não existisse e o indivíduo estivesse a deriva no espaço), a Força de Atração Gravitacional seria desprezível.

Para que a força fosse maior, teríamos que estar bem perto da Lua. Ou na superfície da própria Lua. Ora, sofremos a Força de Atração Gravitacional da Terra, por isso ficamos “presos” ao chão. Como a Lua tem uma massa bem menor que a da Terra, os astronautas que tiveram o privilégio de andar lá pareciam estar “flutuando” porque a Força de Atração Gravitacional que atua em um ser humano por lá é bem menor do que a que atua aqui.

Esse boato da Lua ou fases da Lua afetar no nascimento da criança é tão forte que outro dia eu estava navegando por um site sobre universo feminino e maternidade e eu vi o relato de um médico obstetra (ou seja, uma pessoa com formação científica) que afirmava que quando a fase da Lua mudava, mais partos aconteciam.  Por mais que o profissional seja experiente e tenha feito centenas de partos, se suas supostas observações não são sustentadas por uma base teórica e nem foram publicadas em lugar nenhum, não tenho razões para tomá-las como fato.

Além disso, esse boato é bem variável. Alguns falam que nascem mais crianças na Lua Cheia. Entretanto, foram feitos estudos estatísticos  que não comprovam isso (veja as referências aqui). Além disso, o critério do médico/obstetra/enfermeira para contabilizar isso pode ser bem flexível. Por exemplo, a Lua Cheia foi há 2 dias ou ocorreu 2 dias após um plantão com muitos nascimentos. Nessa janela, ja teríamos 4 ou 5 dias, o que corresponde a uns 13% de um mês. E o boato tem variações. Dizem também que nascem mais crianças quando “a fase da Lua muda”. Bom, a fase da Lua muda 4 vezes no período de 1 mês lunar (que é mais ou menos 29 dias), o que é bastante. Considerando que ainda pode-se relaxar essas datas (2 dias antes ou 2 dias depois), temos então 20 dias no período de 29 dias, o que dá quase 70%. Dessa maneira, fica fácil acertar no palpite!

Sei que os místicos de plantão não sossegarão o facho com essa explicação. Vão encotrar razões metafísicas, sem explicações lógicas, mas que para eles farão todo sentido. A Lua é cercada de misticismos e crenças, ainda hoje no século XXI! Essa persistência é incrível, porque a mecânica clássica já está mais do que consolidada. É (ou deveria ser) ensinada em todas as escolas e já faz parte de um conhecimento básico que deveríamos carregar. Como sempre, devo criticar mais uma vez o ensino de Ciências Naturais, que muitas vezes é feito de maneira massante sempre focando no vestibular e nunca focando nas observações que podemos ter no dia a dia e na compreensão do cosmos.

Também devo dizer que certamente gravidez é um momento muito interessante do ponto de vista social, filosófico, científico, etc. Se você, como eu, está grávida, deve aproveitar cada fase com intensidade e responsabilidade. Ler informações corretas e questionar “lendas” é um exercício saudável. Lembre-se que daqui pouco você será responsável por uma pessoinha, que será muito curiosa e fará mil perguntas. Então temos que ser pessoas racionais e com um certo nível de ceticismo para responder as perguntas dos pequenos com a atenção e a responsabilidade devidas.

Conclusão: mais um caso de Spurious Correlation (tudo isso para linkar esse site maravilhoso que o @hhmacedo me mostrou). Na verdade, é um caso de como uma crença repetido ao longo de muitos anos tornou-se verdade absoluta (como se verdade absoluta existisse) e portanto livre de questionamentos. Não existe nada que é livre de questionamentos!

E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.

Fontes:

Artigo do HSW que me inspirou e me deu algumas referências

Link do CDCC-USP sobre Marés

Lei da Atração Gravitacional online (só colocar as massas e a distância entre os corpos).

Série de slides sobre marés do hyperphysics