A “Cientista” Grávida – Como funciona o Ultrassom? (episódio 7)



Um exame feito várias vezes ao longo da gestação é o Ultrassom. Mas afinal de contas, qual a física por trás desse exame? Por que ele é seguro para o bebê?

Exemplo de exame de ultrassom de 12 semanas. Fonte: Wikimedia Commons
Exemplo de exame de ultrassom de 12 semanas. Fonte: Wikimedia Commons

O ultrassom (também chamado de ultrassonografia ou ecografia) é um exame não-invasivo. Utiliza ondas de som para criar uma imagem do bebê, da placenta, do útero e dos outros órgãos. O ultrassom é um exame que é indicado não somente para grávidas. Pessoas com pedras na vesícula, problemas no fígado e outros problemas de saúde também são submetidas ao exame.

Ultrassom é o nome dado a uma frequência específica de som, superior àquela que o ouvido humano pode perceber. Mas antes de falar do ultrassom, preciso dar algumas pinceladas sobre a natureza do som.

O som é uma onda mecânica e dessa forma precisa de um meio para se locomover, diferentemente das ondas eletromagnéticas, que sempre menciono no blog. A luz (ondas eletromagnéticas), não precisam de um meio para se propagar.

Como o som precisa de um meio para se propagar, sua velocidade vai depender do meio por onde está se propagando. Num meio mais denso, a velocidade do som é mais baixa. Já em um meio menos denso, a velocidade do som é mais alta. Na atmosfera, a velocidade do som depende principalmente altitude do local e da temperatura, pois esses fatores afetam na densidade do ar. Veja aqui uma tabela que mostra diferentes valores de velocidade do som para diferentes valores de temperatura.

O som que ouvimos (da voz esganiçada de uma criança birrenta até uma composição de Beethoven) pode ser decomposto em diversas ondas ondas. Ou seja, o som que ouvimos é uma superposição de ondas, na frequência audível dos seres humanos, claro. A frequência audível nos humanos vai entre as frequências de 20Hz e 20.000Hz. E dependendo do meio por onde esse som está se propagando, uma determinada faixa de frequências pode ser favorecida.

Sabe aquele experimento em que a pessoa  inala uma quantidade de hélio e fica falando como um personagem de Alvim e os Esquilos? Pois então, o gás hélio é menos denso que a soma dos gases que compõe a atmosfera (tanto que um balão de hélio flutua no ar). E em meios menos densos, a propagação dos sons agudos é favorecida. Se inalássemos xenônio (o que nem sei se é possível e/ou seguro), a propagação dos sons graves seria favorecida, já que este é um gás bastante denso.

GamaFreqSom
Os ultrassons são sons em alta-frequência e os infrassons são sons em baixa frequência. A gama audível consiste na faixa em que nós, humanos, podemos escutar. Fonte da imagem

Alguns animais “ouvem” em um range de frequências diferente da dos humanos. Cachorros, por exemplo, escutam entre 20Hz e 30.000Hz (eles escutam quando chamamos o nome deles e escutam um pouco dos ultrassons). E essa é uma das razões porque os cachorrinhos ficam tão incomodados com barulhos de rojões.

Já os morcegos, escutam entre 20Hz e 160.000Hz. Ou seja, morcegos conseguem “ouvir” tudo o que nós ouvimos e ainda consegue ir além, consegue “ouvir” ultrassons. E ondas na frequência de ultrassons são emitidas pelo aparelho de ultrassom, aquele que pretendemos falar no post (por isso tive que fazer essa breve introdução).

Os aparelhos de ultrassom em geral operam com frequências que variam de 2.000.000Hz a 14.000.000Hz (para facilitar: de 2MHz a 14MHz). Ou seja, a frequência de operação dos aparelhos de ultrassom é ainda maior que a frequência “ouvida” pelos morcegos.

Mas para a mamãe e para o bebê, não há problema algum, já que não conseguimos escutar nada. Não há nenhuma evidência de quem o ultrassom faça mal ao bebê ou a mãe. No entanto, não é necessário fazer tantos ultrassons (tem mãe que exagera rs). De acordo com o site especializado BabyCenter:

O mais comum é fazer uma ultrassonografia por volta das 13 semanas (entre 11 e 14 semanas) e uma mais detalhada perto das 20 semanas de gestação, o chamado ultrassom morfológico. O ideal é fazer mais uma entre a 34a e a 37a semana, porém não há regra sobre o número total.

A propósito, recomendo muito o BabyCenter. Há matérias sobre gestação e maternidade e há fóruns em que você pode conversar com outras mães que estão no mesmo tempo de gestação que você.

Além disso, as ondas sonoras não interagem com a matéria em nível celular, como as ondas eletromagnéticas. Para falar um pouquinho disso, vou postar a mesma imagem que usei em um post sobre radiação solar:

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O comprimento de onda das ondas eletromagnéticas que estão na frequência acima do visível começa a ficar tão pequenininho, que passa a interagir com a matéria. O próprio ultra-violeta (que a camada de ozônio não filtra totalmente), já interage em nível celular e pode provocar câncer de pele. E mesmo os raios-X, que nos são tão úteis para verificar a ocorrência de uma fratura óssea, também são perigosos. Tanto que há uma série de normas de segurança para quem é técnico de raio-X. Nas legislações de muitos países, trabalham menos horas por dia, recebem adicional de insalubridade e aposentam-se cedo. Mulheres que pretendem engravidar normalmente são afastadas dessa função. Os raios-X podem interagir com a matéria viva e causar mutações. Do mesmo modo, os raios gama (mas com esses a maioria das pessoas não precisa se preocupar).

Por essa razão, raios-X não são indicados para grávidas. Sei lá, talvez o médico indique em casos muito específicos, e a grávida usaria um colete de proteção. Mas de modo geral, raio-X é PROIBIDO para grávida.

Vou contar uma perolazinha que me aconteceu quando eu estava com uns 2 meses de gravidez. No primeiro trimestre (e as vezes por toda a gravidez), constipação intestinal é algo bem comum. Eu estava preocupada com o fato e fui até o médico, num hospital renomado. Chegando lá expliquei aos profissionais que me atenderam sobre o que estava acontecendo. Um profissional em particular, residente, sugeriu raio-X quando estava escrito claramente em minha ficha que eu estou grávida! Minha cara no exato momento em que ouvi raio-X:

Toupeira-dramatica-original

Claro que não fiz raio-X nenhum, porque imediatamente o outro profissional que acompanhava o residente apenas disse:

– Não. Ela é gestante, né?

Mas o profissional falou de um jeito tão brusco e com sangue nozóio que parecia que na real, ele queria dizer: SEU ESTRUPÍCIO ELA TA GRAVIDA LARGA A MÃO DE SER TONTO.  Porque gente, esse é um conhecimento bem básico da área da saúde, né? Que faculdade de medicina é essa??? Que estudante é esse???

Claro que se nenhum profissional tivesse dito nada, eu falaria:

– Vocês estão bem loucos?

Só que o paciente não tem OBRIGAÇÃO de saber dessas coisas, né?

Mas agora vamos voltar a falar do ultrassom. Continuando a falar um pouco de minha experiência pessoal: eu estou de 18 semanas (mais ou menos rs). Já fiz dois ultrassons. O primeiro foi o ultrassom transvaginal, tipo de exame recomendado periodicamente para todas as mulheres, mesmo que não estejam grávidas ou não pretendam engravidar. É um exame que utilizam o ultrassom para analisar o útero e os ovários e uma sonda é introduzida na vagina. É um exame indicado para detectar cistos e miomas, por exemplo. Fiz esse exame na 5° semana de gestação. Quando eu estava com aproximadamente 3 meses (12 semanas, mais ou menos), fiz um ultrassom morfológico, que é o ultrassom comum e aparentemente é mais detalhado. Segundo minha médica, esse é o ultrassom mais importante da gestação, pois vai verificar se o bebê está se desenvolvendo adequadamente e vai verificar evidências de anomalias na gestação, para que o problema seja resolvido rapidamente e para que se for o caso, uma amniocentese (que é um exame bem invasivo, não cheguei a fazer) seja indicada.

Agora vou falar como o ultrassom produz imagens. A máquina de ultra-som emite pulsos sonoros de alta freqüência para o interior do corpo da gestante. Essas ondas de ultrassom vão se deslocando pelo corpo e atingindo os limites entre os tecidos. Atravessam  a pele, o músculo, a gordura, chegam no útero, atingem partes do corpinho do bebê que são ósseas e outras partes que são moles, etc. Parte das ondas é refletida (eco) quando atingem um “obstáculo” (o crânio do bebê, por exemplo). Outra parte continua se deslocando até atingir outros obstáculos e então serem refletidas também. Essas ondas que são refletidas são captadas pelo aparelho de ultrassom e as informações são interpretadas pelo computador.  A máquina calcula o tempo de retorno de cada eco. Cada tempo de retorno está associado a um tipo de tecido e dessa forma o computador cria a imagem do bebê.

Claro que expliquei de maneira bem resumida, porque não conheço os detalhes técnicos de cada aparelho de ultrassom. Mas em linhas gerais, é dessa maneira.

A emoção de escutar o coração do bebê pela primeira vez é indescritível. Quando fiz a ultrassonografia transvaginal já foi possível ouvir os batimentos cardíacos do bebê, cujo coração batia a mais de 170 bpm. No ultrassom morfológico, pude ver um pouco do formatinho do bebê, da pessoinha em formação. Até o nariz consegui ver. Ele não parava de mexer, dava uns pulinhos muito fofos. É realmente emocionante para todo mundo!

E se você é mãe de primeira viagem, já aviso: os laboratórios gravam os exames de ultrassom! Basta levar um DVD-R no dia do exame. É legal para mostrar aos parentes, amigos e para mostrar para a criança no futuro. Só acho o sistema meio ‘tonto’, porque tem que ser DVD-R e porque não pode ser um pendrive, por exemplo. Mas enfim, você vai ter que comprar vários DVD-R se pretende fazer vários ultrassons.

Bom, espero que vocês tenham gostado. Se por acaso cometi algum erro conceitual no post, por favor, me corrijam! Meteorologistas em geral não tem lá muito interesse e conhecimento em ondas sonoras rs. Resgatei do fundo da memória todas as aulas de física que fiz na faculdade! Acho que fui bem, mas posso ter me enganado =).

E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.