Bernard e Kurt Vonnegut: a ciência e a ficção científica são irmãs



Há algum tempo atrás, escrevi um post sobre o Projeto Cirrus. O Projeto Cirrus foi a primeira tentativa de modificar um furacão e foi uma colaboração entre a empresa General Electric e as forças armadas norte-americanas, quando tentaram modificar um furacão em 13 de outubro de 1947. No post, mencionei o químico e meteorologista norte-americano Vincent Schaefer. A história dele é muito interessante: ele teve que deixar a escola, para ajudar na renda familiar. Ele acabou sendo auto-didata, entrou como aprendiz na General Eletric e teve 14 patentes em seu nome.

Shaefer foi um dos responsáveis pelo mencionado Projeto Cirrus. Claro que um esforço de pesquisa e desenvolvimento dessas proporções não contava  com apenas um nome. Outros meteorologistas, físicos, engenheiros e químicos de renome também trabalharam no Projeto Cirrus. E o nome que eu gostaria de destacar nesse post é Bernard Vonnegut. Sei que muitos fãs de literatura já reconheceram o sobrenome. Vou chegar lá, antes quero falar de Bernard, importante químico norte-americano. Alguns textos biográficos o chamam de “cientista da atmosfera”. E de fato ele pesquisava a química da atmosfera.Isso inclusive me fez pensar em minha alma mater, o IAG-USP. Estudei no Departamento de Ciências Atmosféricas, que tem esse nome muito mais abrangente do que Departamento de Meteorologia justamente por desenvolver pesquisas não apenas na área da previsão/estudo do tempo e do clima, mas também em áreas como biometeorologia e química da atmosfera, por exemplo.

Voltando ao assunto, foi Bernard Vonnegut um dos primeiros a verificar que iodeto de prata pode ser utilizado na semeadura de nuvens. Apesar de pessoalmente achar a técnica controversa em termos de eficácia (já falei disso aqui), a técnica de semeadura possui base científica consolidada. Substâncias higroscópicas são encontradas na natureza e atuam como núcleos de condensação. Os núcleos de condensação permitem que o vapor d’água encontre uma superfície para condensar-se, formando as milhares de gotículas que compõe uma nuvem. Essas gotinhas podem aumentar de tamanho e tornar-se gotas de chuva. O iodeto de prata é uma substância que pode ser inserida artificialmente na natureza e também possui propriedades higroscópicas.

Em um exemplo extremo da ficção científica, mencionei o planeta Ocampa, de Star Trek. Nesse planeta, não há núcleos de condensação e o ciclo d’água é prejudicado. Leia mais aqui.

Com o fim do Projeto Cirrus, anos depois Bernard acabou tornando-se professor da University at Albany, The State University of New York. Ficou dando aulas lá até 1985, quando se aposentou.

Agora vamos falar do outro irmão Vonnegut, que foi um importante escritor do século XX, além de pacifista e humanista: Kurt Vonnegut. Kurt era irmão mais novo de Bernard e foi muito influenciado pelo irmão cientista. Passou uma temporada na U.S. Army e estudou engenharia mecânica. No romance Cat’s Craddle (Cama de Gato, na versão em português), Kurt fala de uma invenção chamada Ice-Nine, capaz de congelar instantaneamente toda a água da Terra.

Kurt Vonnegut, quando servia ao exército norte-americano. Fonte: Wikimedia Commons
Kurt Vonnegut, quando servia ao exército norte-americano. Fonte: Wikimedia Commons

O Ice-Nine seria um alótropo especial do gelo, que derrete a apenas 45,8°C. Como co-existe numa grande faixa de temperaturas com a água no estado líquido, quando essa substância ficcional entra em contato com a água líquida ela atuaria como um catalisador de solidificação.

O romance fez tanto sucesso que o Ice-Nine aparece diversas vezes na cultura pop: em seriados, nomes de bandas, músicas, outros trabalhos literários, etc. Um pouco dessa lista de trabalhos que fizeram referência ao termo pode ser vista aqui.

Kurt foi influenciado pelo trabalho de Bernard na General Eletric. Ele chegou inclusive a trabalhar no Departamento de Relações Públicas da empresa, enquanto Bernard era pesquisador no mesmo local. Tendo contato com outros cientistas, além do irmão Bernard. Um deles foi o químico vencedor do Nobel de 1932, Irving Langmuir. Langmuir, que já era um homem maduro na época, contou que conhecera o escritor H.G Wells na década de 1930. H.G. Wells foi conhecer a General Eletric e Langmuir teria dado uma ideia para que ele escrevesse um conto. A ideia que Langmuir teria dado a H.G. Wells  seria “falar de uma forma de água sólida que era estável na temperatura ambiente”. Wells nunca usou a ideia. Langmuir e Wells acabaram falecendo e Kurt decidiu usar a ideia de Langmuir no livro Cama de Gato.

O que chama minha atenção nessa história toda é como dois grandes escritores que se aventuraram pela ficção especulativa (H.G. Wells e Kurt Vonnegut) acabaram se conectando em cima do mesmo tema: desenvolvimento científico. Acredito que todo escritor que se aventure por esse gênero precisa buscar por fontes de inspiração. Para o escritor de ficção científica, essa fonte de inspiração sem sobra de dúvidas é o conhecimento científico. A General Eletric estava na vanguarda na época e tinha um forte departamento de pesquisa e desenvolvimento. Os dois escritores souberam utilizar bem a ciência como aliada na elaboração do raciocínio criativo.