Dúvida dos leitores: Por que o Rio é mais quente que algumas cidades da Região Nordeste?



Nos comentários desse post, o Rodrigo Gammaro fez a seguinte pergunta:

Por que o Rio é mais quente que algumas cidades da Região Nordeste, que também estão no nível do mar?

Antes de responder essa pergunta, preciso lembrar que a temperatura medida por um termômetro não é a mesma coisa que sensação térmica ou índice de calor. É importante esclarecer bem isso.

A temperatura medida por um termômetro é uma grandeza física. Ela mede a energia cinética média das partículas de um sistema em equilíbrio térmico. É mais completo dizer que a atmosfera encontra-se em equilíbrio térmico local, pois os parâmetros variam no espaço e no tempo, mas variam tão devagar que é possível assumir que em um determinado ponto da atmosfera (onde o abrigo de uma estação meteorológica está instalada, por exemplo), o equilíbrio termodinâmico é uma aproximação adequada. Como a medida do termômetro é “instantânea” (o técnico pega o instrumento e mede naquele instante e naquele local), é possível ter o um valor de temperatura, que representa aquele instante e aquele local.

Por outro lado, a sensação de calor  é uma medida um pouco mais subjetiva e depende de indivíduo para indivíduo. Por exemplo, tem gente que gosta de calor e não se sente desconfortável em dias muito quentes. Outros ficam incomodados e chegam a apresentar problemas de saúde. A sensação de calor ou sensação térmica leva em conta não somente a temperatura, mas também o vento, a cobertura de nuvens e a umidade do ar. Falei sobre índice de calor nesse post de fevereiro de 2014, quando estava muito quente. E também já falei sobre sensação térmica, que está associada ao frio nesse outro post.

Outro fato que afeta a sensação de calor é a cobertura do solo. Por exemplo, se você estiver caminhando ao meio-dia no centro de São Paulo, sentirá mais calor do que quem estiver no Parque do Ibirapuera na mesma hora.

E não é incomum que os meteorologistas ouçam coisas como:

“Nossa, 28ºC? Parece mais, que calor, vocês estão medindo certo?”

“Nossa, 19ºC? Pensei que estivesse mais frio!”

No primeiro caso, ignore a sabitudisse do comentário rs. Mas a gente ouve isso, com muita frequência. Pode ser um dia úmido e o suor tem dificuldade em secar. Ou o sujeito estava correndo no Ibirapuera pouco antes de fazer essa observação.

No segundo caso, pode ser um dia nublado e garoento. E a sensação, em dias assim, é de mais frio.

Além disso, nos dois casos, depende muito do indivíduo. Até  idade do indivíduo influencia. Pelo que observo, pessoas mais idosas são mais intolerantes ao calor e ao frio extremo. Tanto que ocorrem muitos óbitos nas duas situações.

Desse modo, há lugares com temperatura máxima alta, mas que são mais toleráveis do que outros locais cuja temperatura máxima nem é tão alta. Vou usar como exemplo a cidade de Fortaleza, no Ceará.

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Fonte: https://excorde.wordpress.com

 

A cidade de Fortaleza está a aproximadamente 3°S de latitude. Ou seja, bem próxima a Linha do Equador. No entanto, é uma cidade onde venta bastante. Faz calor? Faz sim, claro. As pessoas sentem calor? Sim, sentem. Mas talvez algumas pessoas acreditem que  a cidade Fortaleza é mais “fresquinha” do que Rio de Janeiro. Como vocês podem perceber, isso é bastante subjetivo. Depende da sensação, algo que difere entre indivíduos.

Agora vamos falar de dados. Vamos primeiro ver se Rio de Janeiro é realmente mais quente (no período de verão) do que algumas capitais da Região Nordeste. E para isso, vou usar dados de temperatura média máxima de 4 cidades:

– Rio de Janeiro-RJ

– Fortaleza-CE

– Salvador-BA

– Natal-RN

Não vou colocar todas as capitais nordestinas no gráfico para não poluí-lo. Eu obtive os dados no site WeatherBase. O site conta com um banco de dados de médias de temperatura, temperatura mínima, temperatura máxima, vento, precipitação, etc de diversas cidades ao redor do mundo. No caso do Brasil, a maior parte das médias que o site disponibiliza foi obtida a partir de registros do INMET. Há casos em que os registros tem 30 anos, ou seja, trata-se de uma normal climatológica. Em outros casos, eles tem menos tempo. Para as cidades escolhidas na comparação, todas tem pelo menos 30 anos de registro.

Claro que o WeatherBase provavelmente não é adequado para um trabalho acadêmico que será publicado. Nesse caso, é melhor procurar direto os institutos de meteorologia responsáveis pelos dados. Mas eu acredito que o WeatherBase é adequado para viajantes que pretendem conhecer mais sobre o clima de seu destino. Também pode ser usados em atividades escolares, por professores de Geografia ou Ciências que pretendem elaborar uma atividade com seus alunos. Inclusive proponho uma atividade nesse link.

Agora vamos ao gráfico que montei a partir das informações do WeatherBase/INMET:

Temperatura Média Máxima Mensal em algumas capitais Brasileiras. Fonte: WeatherBase/INMET
Temperatura Média Máxima Mensal em algumas capitais Brasileiras. Fonte: WeatherBase/INMET

 

O que podemos observar: Rio de Janeiro possui uma amplitude térmica anual para temperatura média máxima maior do que as outras cidades do gráfico. Isso quer dizer que as diferenças entre inverno/verão são mais perceptíveis com relação as outras cidades do gráfico, pois o  formato do gráfico do Rio de Janeiro tem um formato mais próximo de um U (linha azul). Salvador (linha verde) também tem um pouquinho dessa característica. Das cidades do gráfico, Rio de Janeiro é a que está mais distante da linha do Equador, seguida por Salvador, depois Natal e finalmente Fortaleza (que está bem pertinho da Linha do Equador). O mapa abaixo pode ajudar aqueles que não são do Brasil e não estão familiarizados com a localização das cidades:

mapa-politico-brasil

O Rio de Janeiro está mais sujeito as influências da inclinação do eixo terrestre e consequentemente das Estações do Ano. Vou falar um pouco mais sobre isso adiante, por isso continuem lendo =).

Ou seja, a observação do Rodrigo é pertinente sim. Mas agora fica a pergunta: por quê? Uma parte pode ser explicado pela sensação térmica, como mencionei acima. Além disso, a posição da cidade com relação a costa pode terminar quais serão os ventos predominantes. E se os ventos do local forem predominantes de quadrante S, teremos ventos frios. Se forem predominantes de quadrante N, teremos ventos mais quentes. Detalhe que essa questão só vale para o Hemisfério Sul e só vale para locais distantes da linha do Equador. Quando o local está muito próximo do Equador, não há tanta diferença, porque as massas de ar que atuam na região não diferem tanto em termos de temperatura. O que afeta bastante o clima em localidades muito próximas ao equador é a altitude e a continentalidade, ou seja, a distância do oceano. Como esse post está ficando enorme,  falo sobre isso em outra ocasião.

Há uma consideração, talvez a mais importante, nesse caso: o Rio está mais distante do Equador. Isso significa que está mais sujeito as influências da inclinação do eixo da Terra do que outra cidade mais próxima do Equador, como Fortaleza, por exemplo. Inclusive falei disso nesse post sobre estações do ano. Em outras palavras, quanto mais distante o local é do Equador, mais perto o local está de ter as 4 estações do ano bem definidas. No post, inclusive mencionei a cidade de Bagé, que fica no Rio Grande do Sul. É uma cidade bem quente no verão e bem fria no inverno. Ou seja, as duas situações são bem marcadas.

Climograma de Bagé-RS
Climograma de Bagé-RS. Leia mais nesse post.

 

Durante o Solstício de Verão do Hemisfério Sul (e o período pouco anterior e pouco posterior a ele), temos a época mais quente do Ano. O Hemisfério Sul está recebendo mais radiação solar do que o Hemisfério Norte. o Solstício de Verão do Hemisfério Sul foi em 22 de Dezembro de 2014. Acontece todo ano, mais ou menos entre os dias 22-23 de Dezembro, o que marca o início do verão. Entretanto, se a localidade está próximo da linha do Equador, isso nao faz tanta diferença, já que a quantidade de radiação solar recebida é quase igual o ano todo. As regiões bem próximas ao Trópico de Capricórnio, essas sim sentem diferença. E se estiverem um pouco mais ao Sul do Trópico de Capricórnio, já na região que chamamos de subtrópicos, as estações do ano serão ainda mais marcadas, que é o caso de Bagé-RS. E claro, nessa mesma época, é inverno no Hemisfério Norte.

No Hemisfério Norte é a mesma coisa. Por volta de 21-23 de junho temos o Solstício de Verão do Hemisfério Norte. Aqui no Hemisfério Sul é inverno. Para quem mora em cidades que tecnicamente estão no Hemisfério Norte, mas que estão bem próximas do Equador (como Oiapoque, no Amapá), isso não faz diferença nenhuma. Mas para cidades do norte dos EUA e da Europa, por exemplo, faz toda a diferença. O verão é bastante marcado, com altas temperaturas. Em Nova York a máxima no verão pode facilmente ultrapassar os 32°C.

Cabe lembrar também que além da latitude da cidade, a altitude também influencia bastante no clima. E isso é especialmente marcado nas regiões tropicais. Por isso em Campos do Jordão-SP temos temperaturas mais frias do que em São Paulo-SP no inverno. Campos do Jordão está acima de 1600m do nivel do mar, enquanto São Paulo-SP está, em média, por volta de 750m acima do nível do mar.  Claro que isso não se aplica as cidades que comparamos no post (Rio de Janeiro e algumas capitais do Nordeste), mas é um fator que deve ser mencionado quando formos pensar em outras cidades. São Paulo mesmo tem um clima mais ameno do que Rio de Janeiro porque está 750m (em média) acima do nível do mar. Já o Rio está no nível do mar. Inclusive falei dessa comparação entre Rio de Janeiro e São Paulo nesse post, que respondia uma dúvida do leitor Cícero.

Na figura abaixo, comparo a temperatura média máxima em 3 cidades: São Paulo, Rio de Janeiro e La Paz (Bolívia), com o objetivo de mostrar o efeito da altitude. Para saber mais, leia o post.

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Espero que a dúvida tenha sido respondida. E se você, querido leitor, tiver alguma dúvida sobre meteorologia, preencha o formulário, mande por comentário ou pelas redes sociais do Meteorópole.

Desculpe ter sido repetitiva em alguns momentos, mas acredito que é a melhor forma de fixar a informação. Nos últimos dias tenho ouvido muita “pérola meteorológica” na imprensa. Infelizmente chamam profissionais que não são da área para opinar, e bobagens acabam sendo ditas. Com a crise energética e com o racionamento de água, a imprensa tem chamado profissionais para opinar e muitos não são meteorologistas. Acabam emitindo seus achismos e opiniões sem fundamentos, quando a entrevista para explicações relacionadas ao tempo e ao clima.