Odores dos outros planetas

A gente convive com uns odores (ou melhor, fedores no caso) bem tensos aqui na Terra. As atividades humanas, de atividades intestinais a industriais, gera todo tipo de emissão de gases que não cheiram nada bem.

Quando eu tinha uns 8-9 anos, costumava passar com meu pai de ônibus fretado pela Marginal Pinheiros. Era verão e o cheiro do Rio Pinheiros era horrível, dava náuseas. Ainda hoje é assim, mas minha memória de criança exagera e transforma o cheiro em algo muito pior.

Você já teve curiosidade em saber qual a coisa mais fedida do planeta Terra? Bom, temos a planta Titan Arum, chamada carinhosamente de Flor-Cadáver. Ela não é muito bonita não:

Flor-cadáver. Fonte: Wikimedia Commons

Flor-cadáver. Fonte: Wikimedia Commons

Bom, mas beleza é algo subjetivo. Fedor é unânime. Ela não é de fato uma flor, é uma inflorescência.  Quando desabrocha, chega a atingir três metros de altura e pode pesar até 75 quilogramas. Ela atrai insetos carniceiros a partir de um odor forte,que lembra carniça. Esses insetos acabam ajudando na polinização.

Em uma análise química, determinou-se que as substâncias mais responsáveis pelo fedor da planta são: dimetil dissulfeto (que tem um cheiro forte, que lembra alho), trimetilamina (lembra o fedor de amoníaco, cheiro de peixe podre) e dimetil trissulfeto (fedor de decomposição, surge inclusive como produto da decomposição bacteriana do cadáver humano).  Lá no Rio Pinheiros, o maior responsável pelo odor é o gás sulfídrico (ou Sulfeto de Hidrogênio). É uma substância diferente das da Titan Arum, mas na maioria delas há um elemento químico em comum: o enxofre.

Mas voltando a planta fedida. Seu nome científico é Amorphophallus titanum. Em português: falo gigante sem forma.  Olhando bem, a gente entende o porquê. Ela é endêmica do oeste de Sumatra, uma das ilhas principais que compõe a Indonésia. O incrível é que há jardins botânicos de diversos países que cultivam esse planta, que floresce poucas vezes ao longo de sua vida. Não deixa de ser uma curiosidade para atrair visitantes. O nome (ou melhor, apelido rs) Titan  Arum foi dado pelo renomado Sir David Attenborough, popular naturalista e apresentador de TV britânico. Ele é famoso pela The Life Series,  um conjunto de séries da BBC que desvendam a vida de todos os Reinos dos seres vivos. A parte engraçada (não sei se é boato) é que Attenborough achava “inapropriado” falar Amorphophallus titanum na TV. Bom, poderia ofender os mais recatados, de fato.

Apesar da descrição dada acima, acreditem se puder: a Titan Arum não é a coisa mais fedida do nosso planeta. Há duas substâncias criadas com o propósito de serem fedorentas. São o Who-Me? (“Quem-Eu?”) e o US Government Standard Bathroom Malodor” (“Padrão de Mau Cheiro de Banheiro do Governo dos EUA”).

A “Quem-Eu?” fede comida podre e  foi criada pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Foi usada pela Resistência Francesa, que acreditava que poderia humilhar os soldados alemães fazendo-os cheirarem mal. A ideia não funcionou, pois o cheiro se espalhava e contaminava quem não tinha nada a ver com a história. Não descobri exatamente quais compostos formam o Quem-Eu, mas sei que são “compostos sulfurosos”. Mais uma vez, o enxofre  está presente.

Já o  “Padrão de Mau Cheiro de Banheiro” foi inventada por cientistas norte-americanos para testar a eficiência de desodorantes e desinfetantes. Ela é feita de oito substâncias diferentes, com o objetivo de criar um cheiro terrível de fezes. E se você quiser saber mais sobre outras substâncias fedorentas encontradas aqui na Terra e sobre a composição química dessas substâncias, clique aqui.

Apesar de ter escrito um monte sobre coisas fedidas na Terra, o que me inspirou nesse post foram as coisas fedidas do espaço. Olha só o tweet do @infoambiental, da minha querida Raquel Almeida:

A humanidade já teve a oportunidade de pisar na Lua e os astronautas relataram cheiro de pólvora no local, o que intriga a comunidade científica. Vários dos astronautas que pisaram na Lua disseram que quando voltaram para o módulo lunar, cheiraram a poeira lunar impregnada em suas roupas espaciais e sentiram esse cheiro. Ninguém sabe ao certo porque esse cheiro, embora haja algumas especulações. Entretanto, é preciso lembrar que todos os astronautas que foram para a Lua tiveram treinamento militar e claro, sabem muito bem distinguir o que é pólvora. Por isso há todo esse mistério.

Poeira lunar é completamente diferente de pólvora. A pólvora moderna é uma mistura de nitrocelulose (C6H8(NO2)2O5) e nitroglicerina (C3H5N3O9). São moléculas orgânicas altamente inflamáveis e não são encontradas no solo lunar, de acordo com Gary Lofgren, pesquisador do JSC-NASA.

Don Pettit, da ISS (Estação Espacial Internacional), nunca foi à Lua, mas tem um interesse nos cheiros do espaço, oferece uma explicação:  “Imagine-se em um deserto na Terra”, diz ele. “O que você cheira? Nada, até chover. O ar é subitamente preenchido com odores adocicados, odores turfosos.” A evaporação da água do solo transporta moléculas para o seu nariz que foram presos em solo seco durante meses. De acordo com a hipótese de Petit, o mesmo pode acontecer na Lua.
“A lua é como um deserto de 4 bilhões de anos”, diz ele. “. É incrivelmente seca. Quando a poeira lunar entra em contato com o ar úmido de um módulo lunar, você o mesmo obter o efeito do deserto”.

Gary Lofgren tem uma ideia que completa a de Petit: “. Os gases que emanam da poeira lunar podem vir a partir do vento solar” Ao contrário da Terra, ele explica, a Lua está exposta ao vento quente de hidrogênio, hélio e outros íons provenientes do Sol. Esses íons atingem a superfície da lua e ficam “presos” na poeira. Dessa forma, o cheiro seria o cheiro do Sol!

Outra possibilidade é que a poeira lunar “queima” na atmosfera de oxigênio do módulo lunar. “O oxigênio é muito reativo”, observa Lofgren. O processo de oxidação guarda algumas semelhanças com a queima. Embora isso aconteça muito lentamente para fumaça ou chamas, a oxidação de poeira lunar pode produzir um aroma como pólvora queimada. Curiosamente, quando chegaram na Terra, as amostras de poeira lunar não tinham mais cheiro de pólvora. Segundo Lofgren, os recipientes que trouxeram o material da Lua não ficaram perfeitamente selados, como foram projetados. Como a viagem de volta para a Terra costumava ser de cerca de 3 dias, o cheiro acabou se dissipando.

Ok, o homem pisou na Lua e teve a oportunidade de sentir os odores e contar para todo mundo. Mas e nos planetas mencionados na reportagem? Bom, basta saber quais são os elementos mais abundantes do local. Como conhecemos os cheiros desses elementos, fazemos uma especulação que provavelmente é bem próxima da realidade.

E como a gente sabe quais elementos são encontrados em um planeta? Bom, no caso dos planetas do Sistema Solar, as sondas espaciais fazem esse papel, coletando informações da atmosfera e da superfície do  planeta e enviando as informações para a Terra. As sondas são equipadas com cromatógrafos, que identificam as substâncias a partir do processo de cromatografia.  A sonda Cassini-Huygens possui o Huygens’ Gas Chromatograph Mass Spectrometer (GCMS). Se você quiser saber mais sobre esse equipamento presente na sonda, leia mais na página oficial do GCMS. Com o GCMS, foi possível saber a composição de Titã, a maior lua de Saturno e que sempre é estrela aqui no blog. Ano passado várias descobertas sobre esse importante satélite foram divulgadas. Em um post de dezembro de 2014, falei de algumas dessas descobertas.  Em Titã, há um ciclo bem definido do metano. Há oceanos de metano e chove metano. Na atmosfera de Titã também há traços de benzeno. Somando a presença dessas duas substâncias, podemos chegar a uma conclusão interessante: Titã cheira gasolina. Sim, sabe quando você vai abastecer o carro  e aquele cheiro nauseante do posto te incomoda (considere que estou grávida e todo cheiro me incomoda)? Pois então, Titã deve ter esse cheiro!

Quando escrevi um post sobre chuvas em diferentes locais do universo (veja aqui), falei que em Vênus chove ácido sulfúrico. A presença desse e de outros compostos que contém enxofre no planeta deve deixar o planeta um tanto fedorento, especula-se. Dizem que Marte pode também ter cheiro de enxofre. Apesar dos depósitos de enxofre encontrados no planeta, não sei se a quantidade é suficiente. para deixá-lo fedido. Também não sei se o planeta inteiro fede enxofre, talvez apenas perto dessas regiões com grandes depósitos. Talvez em outros pontos, Marte tenha outro cheiro.

Deduzo cheiro de ferrugem, pois a superfície do planeta é avermelhada devido ao ferro oxidado. O que nos lembraria também do cheiro de sangue, o que é irônico, uma vez que o nome do planeta veio de Marte, deus da guerra na mitologia romana.

Nosso conhecimento sobre o solo marciano deve-se aos rovers, os simpáticos veículos de exploração planetária que mandamos para Marte. Eles não simples veículos de terreno difícil, como os que temos aqui na Terra. Acredito que os rovers marcianos mais famosos são o Sojourner,  Spirit, Oportunity e o Curiosity. Também equipados com equipamentos que permitem conhecer quais substâncias são mais abundantes no planeta, nos ajudam a decifrar qual cheiro Marte teria.

Rover Curiosity, um dos robôs/veículos que permitiram conhecer melhor  o solo e a atmosfera marciana. Fonte: Wikimedia Commons

Rover Curiosity, um dos robôs/veículos que permitiram conhecer melhor o solo e a atmosfera marciana. Fonte: Wikimedia Commons

Outro cheiro curioso de nosso sistema solar seria o de Júpiter. Como o planeta possui um pouquinho de amônia em sua concentração (menos de 0,5% do total), poderia ser o suficiente para que um eventual viajante pudesse sentir um cheiro de xixi “velho” ou cheiro de estábulo. Aqui na Terra, quando a urina fica muito tempo exposta, as bactérias metabolizam a uréia em amônia. Por isso o “cheiro de xixi velho”.

Para finalizar, os astronautas contam que o espaço “cheira óleo diesel queimado”. Sabe cheiro de pista de kart ou cheiro de posto de gasolina onde há muitos caminhões? Imagino um cheiro assim. Os astronautas também relatam um cheiro que lembra churrasco e um ‘cheiro metálico’. Essas informações são relatadas pelos astronautas da ISS, quando saem para fazer algum reparo fora da ISS e depois voltam para a estação. Eles contam que as roupas ficam com esse cheiro característico. Completamente maluco, porque quase todo mundo imagina que o espaço não tem cheiro de nada. O curioso é que esse cheiro vem de estrelas que estão morrendo. Quando as estrelas estão morrendo, elas emitem hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. São aquelas substâncias com “anéis aromáticos”, que a gente aprende em química orgânica. Pois bem, essas substâncias meio que “grudam” na gente. Fixam-se nas roupas, nos cabelos e tudo fica com esse cheiro. Apesar das estrelas mais próximas estarem há muitos  anos-luz de distância, essas moléculas de hidrocarbonetos ficam viajando por todo o espaço, só esperando a próxima roupa de astronauta onde vão encostar.

Espero que tenham gostado do post. Como não sou química, posso ter cometido algum erro ao me referir a alguma substância. Tomei bastante cuidado, mas se alguém tiver algo para corrigir, só avisar =).