Resenha de “Amor em Jogo” – Anaté Merger



Como primeira resenha do ano, vou falar do mais novo livro de Anaté Merger: Amor em Jogo.

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Em minha Retrospectiva de Resenhas de 2014, já tinha mencionado que esse seria um dos livros que eu deveria ler logo no início de 2015. Anaté Merger é uma jornalista e escritora franco-brasileira. Também trabalha com turismo na região de Provença. Em seu site NaProvence, há informações sobre passeios e pacotes turísticos para a idílica região francesa.

Não foi o primeiro livro de Anaté que li. Ano passado li Sagrados – A Aliança de Maria Madalena e há boatos de este ano que teremos a esperada continuação deste romance! Quem leu o livro percebeu que não tratava-se de um romance fechado e todos os indícios de que se trata de uma série estão se confirmando. Yay! Quem gosta de ficção especulativa, principalmente fantasia, vai gostar de Sagrados. O interessante é que ele mistura elementos da fantasia, de lendas da região de Provença, com elementos reais. Isso torna tudo muito interessante, como a J.K. Rowling faz na saga de Harry Potter.

Bom, mas já falei de Sagrados. Vamos falar de Amor em Jogo, que também é ambientado em Provença. Antes de falar de minhas impressões, vou deixar abaixo a sinopse fornecida pela autora e pela editora. Dessa maneira, eu vou evitar revelar mais do que o necessário sobre o enredo:

       Aos vinte anos, Alix perdeu os pais, a fazenda onde morava no interior da Provence e toda a esperança de ter um futuro.
Sem saída e rezando por um milagre, ele surge na forma de um emprego que parece ser extraordinário: durante três meses, ela vai trabalhar em uma mansão com vista para a baía de Saint-Tropez por um salário milionário.
O proprietário é Clif Forestier, um astro do cinema excepcionalmente belo, extremamente rico e cinicamente sórdido. O oposto de Nathan, um jovem comerciante sensível e cativante, por quem ela começava a sentir algo especial até que o encontro explosivo com o ator desperta em Alix sensações que ela desconhecia.
O verão começa e, aos poucos, ela percebe que é apenas uma carta do baralho no qual luxo, mentiras e sexo fazem parte de um contrato que coloca muito mais do que a sua dignidade em jogo: se quiser descobrir e ganhar quem realmente ama, Alix vai precisar enfrentar os seus demônios e apostar alto.
As cartas estão na mesa. Uma nova partida da “Confraria de Ases” vai começar!

Li o livro muito rapidamente, em apenas alguns dias. E há uma explicação imediata para isso: a narração em terceira pessoa é deliciosa, prende o leitor que fica ávido por um desfecho. A leitura também é muito fácil, um delicioso entretenimento. Se você está de férias e quer levar algum livro para ler debaixo do guarda-sol, esse é um fortíssimo candidato.

A narração pode deixar algumas pessoas revoltadas. Eu explico: o ser humano tem essa tendência que acredito que seja natural de julgar seus semelhantes. E logo julgamos Alix. Julgamos suas decisões e sua aparente ingenuidade. Entretanto, cabe aí um exercício que precisamos fazer todos os dias: o da empatia. Alix é uma jovem de 20 anos que estava acostumada com a vida simples no interior de Provença. Seus pais eram donos de uma propriedade rural, mas não eram ricos. Ela era uma simples estudante de agronomia, muito ingênua e que ainda não estava preparada para os dissabores e tristezas da vida. Os pais da moça morrem e ela perde a fazenda para o banco. Alix não tem familiares, não tem dinheiro e não tem para onde ir. E ela sonha em recuperar a fazenda, um pedido de sua mãe pouco antes de morrer.

Eu tenho mais de 30 anos, não estou na mesma situação de Alix. Talvez outras leitoras da obra também não se encontrem na mesma situação. Mas acredito que esse exercício de empatia é importante para compreender as decisões da moça e para compreender como ela pode ter caído numa armadilha. Confesso que a xinguei de “tonta” muitas vezes durante a narrativa, mas depois fiquei pensando que se eu tivesse no mesmo lugar que ela aos 20 anos, poderia ter caído numa armadilha também. Muitas vezes envelhecemos e nos esquecemos de quem fomos, nos esquecemos da dura trajetória que é amadurecer. E sobre amadurecer: nossa protagonista amadurece muito ao longo da trama. Ela torna-se capaz de perdoar e compreender o outro. Eu confesso que no momento não seria capaz disso, se estivesse numa situação semelhante a de Alix.

Quando os pais de Alix morrem, ela é acolhida por uma amiga de infância. Essa amiga tem um carinho especial por ela, apesar de terem passado tantos anos separadas. Atualmente a amiga vive em um mundo completamente diferente do de Alix: um mundo de luxo, roupas de marca, muita riqueza e glamour. Dentro desse mundo, a amiga tenta ajudar Alix, só que não funciona muito bem. Alix é uma moça do campo, simples, que não se importa com essas coisas. Alix acaba eventualmente absorvendo um pouco do que sua amiga e a agente da amiga ensinam. Ao longo do livro é possível perceber que Alix continua simples, amando a vida no campo e as atividades que envolvem a terra, mas ela ganha alguma sofisticação. E isso não é interessante? No passado, eu era radicalmente contra alguns programas estilo “Esquadrão da Moda”. Confesso que ainda sou, porque acho a abordagem um pouco exagerada. Entretanto, acho bacana que nós possamos melhorar nossa auto-estima aprendendo a usar maquiagens, penteados e roupas bonitas. Há possibilidades para todos os estilos, não é necessário fazer uma maquiagem forte ou usar uma roupa de moda passageira. E a gente pode aprender a ficar mais bonita e elegante sem perdermos nossa essência e acredito que o romance nos ensina isso.

Alguns momentos da narrativa me deixaram um pouco perturbada, pois envolveram violência sexual. Em alguns momentos, a violência sexual ficou muito clara. Em outros momentos, ela fica ambígua, como se Alix e outras mulheres estivessem fazendo parte do jogo (e estão). E eu sempre ficava pensando nas “sequelas” que isso poderia trazer às personagens da trama. E isso me incomodou bastante enquanto eu lia, confesso, talvez por me colocar no lugar delas. E provavelmente foi a intenção da autora: promover esse debate interno, esse diálogo com a situação. Confesso que ainda tenho sentimentos confusos sobre algumas partes do livro, justamente por essa razão.

Outra interessante discussão que o livro promove: todos nós vestimos máscaras. E a presença das máscaras é marcante no livro todo, literalmente ou figurativamente. Quando digo literalmente, é porque no livro há maquiagem, baile de máscaras, ida a Veneza, etc. E figurativamente, bom, para isso é necessário ler o livro. O que quero dizer é que há muitas pessoas que vestem uma pele de cordeiro, mas na verdade são lobos. Costumo dizer que não confio muito em pessoas que ficam proclamando o tempo todo que são boazinhas.

Por outro lado, há pessoas de interior muito bom que vestem uma capa e uma máscara enorme, pois tem o coração machucado e marcado por traumas e problemas pessoais. Todos nós escondemos nossa verdadeira face do mundo. Algumas pessoas vestem máscaras delicadas, que permitem ver o rosto parcialmente. Outras vestem máscaras enormes, que cobrem o rosto todo, como o médico da peste.

Além disso, é clichê bem verdadeiro: todos nós temos um lado bom e outro lado mais obscuro. O importante é equilibrar esses lados e claro, trabalhar para que o lado bom sobressaia. Entretanto, algumas pessoas tem o lado bom escondido por uma face má, pois  como disse anteriormente, acredito que traumas e situações que não foram bem resolvidas podem nos transformar negativamente.

A relação de Alix com Clif e Nathan é curiosa. Com Nathan, ela descobre o amor romântico, mas tem medo de se entregar (e não falo apenas sexualmente, ela tem medo de falar sobre ela, de dividir seus problemas e suas tristezas). Com Clif, ela descobre uma poderosa atração sexual. E não é assim nos relacionamentos que temos ao longo da vida? Há momentos de amor romântico e muita doçura. Por outro lado, há relações mais intensas onde a atração sexual predomina. Acredito que todas nós temos histórias para contar e por essa razão, podemos nos identificar com o romance.

Outra coisa interessante da obra: muitas pessoas são influenciáveis pelas atitudes suas companhias. E veja, essa influência pode ser positiva/construtiva ou negativa/destrutiva. Clif tem um círculo de convivas e nem todos são confiáveis e/ou de bom coração. E talvez ele demore a perceber quem é digno de confiança e quem não é.

O luxo e a opulência são presenças marcantes no livro. A autora descreve vestidos e cenários luxuosos de maneira magistral. Enquanto eu lia, fiquei pensando naquelas roupas e cenários maravilhosos. Em minha opinião, a autora acerta muito bem nessa descrição, enriquecendo a narração sem torná-la cansativa. Além disso, o livro mostra como o dinheiro pode dar poder a quem o detém. Quem tem dinheiro realmente acredita que pode comprar quem não tem e isso torna-se tão natural que é assustador.

Sobre as relações entre as mulheres (gosto de observar como as mulheres são retratadas): há sim competição e até a presença de uma mulher que só pensa em si mesma e é capaz de prejudicar outras pessoas. Mas por parte de outras personagens, há também muita amizade e solidariedade, principalmente em momentos difíceis.

Gostei da escolha do nome da protagonista, Alix (equivalente a Alice, para nós). Na história, o jogo de pôquer e as cartas do baralho são muito presentes e literalmente ganham vida num jogo bastante absurdo que trata pessoas como objetos. Além disso, a fazenda da família de Alix chama-se Reine de Cœur (Rainha de Copas). Isso, claro, nos faz pensar em Alice no País das Maravilhas. Alice precisa usar sua astúcia e a ajuda de outros personagens para se desvincilhar das situações e dos enigmas que se envolve. Alix também tem essa necessidade. Claro que não trata-se de uma coincidência, a autora soube usar sutilmente essa intertextualidade, o que deixou o romance ainda mais interessante.

Acredito que Anaté Merger tem tudo o que necessário para tornar-se escritora de best-sellers. Inclusive consigo imaginar Amor em Jogo como um filme e por favor, esse homem tem que estar no elenco (e quem ler vai saber qual personagem ele deve ser):

Gaspard Ulliel, ator francês
Gaspard Ulliel, ator francês

Recomendo muito, mas já aviso: há conteúdo erótico explícito no livro. Sei que somos todos adultos (acredito que tenho alguns leitores adolescentes também), mas entendo que muitas pessoas se ofendem com esse conteúdo. Mas garanto: tudo é escrito com muito bom gosto e em algumas situações, bastante sutileza.

Se você gostou do livro, tenho algumas dicas muito boas:

– A autora disponibilizou o primeiro capítulo do livro nesse link;

– Leia mais sobre a autora e sobre esse livro no site da autora;

– O livro custa apenas R,99 na Amazon  em sua versão digital, para Kindle. Se você não tem um Kindle mas tem um tablet com Android, sei que na Google Play há um programa gratuito da Amazon. Você pode baixá-lo, comprar e ler o livro tranquilamente. Talvez o programa também esteja disponível na Apple Store, mas como não tenho iPad não sei dizer. Achei o preço do livro muito bom, realmente vale a pena adquiri-lo;

– E há uma promoção bem bacana no site NaProvence, que também é da Anaté. Confira :). Leia todas as regras da promoção e observe que apenas maiores de 18 anos podem participar.