A “Cientista” Grávida – O Excesso de informação (episódio 8)



O excesso de informação está me enlouquecendo.

Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

O post de hoje da série não vai apresentar nenhum dado científico ou explicação técnica. Vou escrever um desabafo.

Isso mesmo, gente: o excesso de informação está me enlouquecendo.

E você nem precisa estar grávida (ou ter uma companheira grávida) para passar por isso. Vou dar um exemplo bem besta. Há mais de 1 ano quis comprar um aparelho de Blu-Ray. Fui nas lojas e vi diversos modelos, com preços bem diferentes. Conversei com alguns vendedores. Entrei em fóruns de internet e verifiquei as opiniões de pessoas que tinham adquirido um aparelho. Confesso para vocês que se eu fosse levar TUDO em consideração, acho que eu estaria até hoje procurando o “aparelho perfeito”. Acabei optando por um modelo, gostei e fiquei satisfeita. Eu poderia não ter ficado satisfeita, coisas da vida.

Agora vamos para uma esfera completamente menos trivial e muito mais importante do que a compra de um bem: gestação e parto. Mesmo antes de engravidar, eu já lia bastante informação sobre esses assuntos. Como eu planejava a gravidez, queria saber mais para me preparar.

Tenho a sorte de ter como amiga a Bárbara, do Uma Mãe das Arábias, que escreve um blog leve e divertido. E mesmo com essa leveza, ela transmite informações muito úteis e sábias. Só que a Dona Samantha aqui não se contém com o blog da Bárbara. Para dizer a verdade, é impossível ter apenas UMA fonte de informação nos dias de hoje. A informação te bombardeia sem você pedir.

Se eu saio por aí com minha barriga de 5 meses, pessoas que conheço (e até quem não conheço) sempre tem algo para falar. Pode ser uma lenda, uma conversa fiada, uma conversa da vovó, etc. Pode ser uma informação boa, uma troca de experiências. Pode ser um comentário “nadavê”, até ofensivo, que grávidas não gostam de ouvir (confiram essa lista).

Além disso, minha curiosidade intrínseca me faz querer pesquisar tudo. E saber tudo (ou melhor, tentar). E ler comentários em fóruns. E participar de grupos de parto natural. E saber mais sobre os tipos de parto. Etc, etc, etc. Aprendi muita coisa com essa curiosidade toda. Percebi por exemplo que minha médica (que a essa altura talvez já seja ex-médica) só pensa em cesárea e parto normal com analgesia/anestesia e episiotomia . Ela inclusive tentou argumentar usando a tradição (que faz assim há 30 anos e etc) e tentou me empurrar diversos termos médicos bem desconexos. Depois atendeu seu telefone celular na minha frente, durante a consulta (o que achei de uma falta de educação absurda). Com tudo isso,  percebi que não quero essa médica. Já não queria que ela fizesse meu parto antes (não sei, antipatia, sou bem chata quando quero). Agora não quero nem que ela acompanhe o pré-natal.

Comecei a ficar com medo de tudo. Tive pesadelos. Fui procurar o SUS, tive um problema muito idiota de burocracia. Eu fiz o cadastro em um site do Ministério da Saúde. Imprimi o tal protocolo, que dizia para procurar a UBS perto da minha casa. Cheguei na UBS perto de casa e descobri que aquele cadastro não serve de nada. Eu teria que levar um comprovante de endereço (que eu não tinha naquele momento). Ou seja, trabalho inútil. Eu já estava tão cansada e frustrada que decidi procurar o SUS outro dia.

Estou com medo do parto. Gente, não quero postar aqui minha opinião sobre parto porque nunca tive um parto. Sei por exemplo que parto normal/natural (não preciso e nem quero explicar as diferenças nesse post) são os mais indicados para a maioria das mulheres. Sei também que o Brasil é recordista em cesarianas, principalmente na rede de convênios e particular. Sei que isso não é bom, a cesariana é uma cirurgia. Tudo isso conclui lendo reportagens, denúncias de violência obstétrica, depoimentos, etc.

Mas eu sei também que ter filhos em hospitais ajuda a reduzir a mortalidade materna. Quantas mulheres morriam de parto no passado! E ainda morrem hoje, principalmente em locais sem hospitais e bom atendimento médico de emergências. Sei que várias pessoas têm histórias para contar. Um tio meu (marido de minha tia) perdeu duas irmãs dessa forma. Um colega do trabalho, um senhor de quase 80 anos, ainda conta com tristeza no olhar que sua mãe morreu dessa mesma forma, enquanto paria seu irmão mais novo. Ela morreu deixando 4 filhos pequenos.

Dessa forma eu sei de uma coisa: quero ter meu filho em um hospital. Só que quando falo em parto natural humanizado para alguns médicos mais tradicionais, eles ficam de cabelo em pé e me acham uma espécie de doida que quer ter um filho nas cavernas (e eu poderia querer, se quisesse, só pedir ao meu marido para me levar ao PETAR rs).

Acho que o termo parto natural humanizado possui uma série de interpretações e depende de cada mulher. A MINHA interpretação é: sem anestesia/analgesia e sem episiotomia . Não precisa ser na água, não precisa ter 300 pessoas me rodeando (eu detestaria isso), não precisa ser na piscina, não precisa de nada disso. Sou uma mulher simples, talvez meio bruta, diria até meio Klingon rs.  Quero deixar claro (não acho que precisa, mas…) que  respeito e entendo as intenções e sonhos de cada mulher. Não julgo quem quer ter seu filho em casa, na casa de parto, etc. Como disse anteriormente, somos bombardeadas por informações o tempo todo, então cabe a cada uma separar aquilo que serve para si e aquilo que não serve. Não precisamos obrigatoriamente fazer o que um determinado grupo está fazendo. Você não vai ser menos mãe se precisar (ou se quiser) uma cesariana. Ou se passar por uma episiotomia. Há diversas formas de ser boa mãe, como diz a Barbrinha no banner de seu blog.

Nos últimos dias, esse excesso de informação me causou muito desespero e ansiedade. Óbvio que isso não faz bem pra mim e consequentemente para meu bebê. Isso afetou minhas relações pessoais e minhas relações de trabalho. Estava me prejudicando muito! Decidi trocar de médica (óbvio que sim, inaceitável atender o celular durante a consulta) e decidi seguir minha vida, tocá-la em frente. Vou confiar na genética, no tamanho dos meus quadris (ok, há médicos que dizem que isso não tem nada a ver rs), na minha força física, na minha perseverança, na minha saúde e em Deus. Já tenho em mente alguns hospitais próximos de minha casa e do meu trabalho. Tenho boas referências de alguns e péssimas referências de outros (e olha, alguns são considerados maternidades top). Fiz uma lista de hospitais por prioridade de qualidade e proximidade. E para mim é o que basta. De acordo com minha opinião e com meu modo de vida, acredito que depois de ter sofrido tanto por antecipação (e bota antecipação nisso), preciso buscar serenidade. E é dessa forma que pretendo agir.

Sei que é provável que eu receba comentários esquisitos aqui nesse post, de ativistas do parto natural humanizado Leboyer de cócoras enquanto entoam orações em hindu. Evoco mais uma vez a ética da responsabilidade e da convicção. Eu fico feliz que você tenha suas convicções e você deve mesmo lutar para exercê-la com certa liberdade. Mas eu não preciso segui-las. E como cientista, mesmo que não da área de biológicas, também luto por mais esclarecimento científico da população, o que naturalmente leva a melhores escolhas e a lutas para que essas escolhas sejam respeitadas.

E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.