Blogagem coletiva: “Eu sou do tempo…”

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Daí que a Sybylla, motivada por muita nostalgia, criou essa blogagem coletiva e disse para abrirmos o coração. Ok, coincidentemente essa semana meu irmão marcou minhas primas e eu numa postagem que continha essa imagem:

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E gente, que saudade desse tempo! Claro que não vou colocar meu filho no “canilzinho” (morrendo de rir da observação de uma amiga de meu irmão) do Fusca. Até porque nem tenho um Fusca rs. Pretendo seguir as leis e todo o bom senso no que diz respeito a segurança, mas é engraçado lembrar dessa época em que a gente ia na parte de trás do carro. Inclusive minha família tinha uma Brasília e PASMEM: eu ia em cima do motor. Para quem não está familiarizado com esse modelo de veículo, o motor é na parte de trás. Há uma tampa que cobre o motor e eu ia viajando ali em cima.  Bom, que eu me lembre nunca fui de São Paulo até o Litoral viajando dessa maneira. Mas era comum irmos das casas/pousadas onde ficávamos hospedados até a praia dessa forma (viagens de 15min no máximo). Ou outros trajetos igualmente curtos, como entre as casas de familiares em carros insanamente lotados.

Loucura, né? Concordo, não faria meu filho passar por isso. Mas sinto uma nostalgia imensa, porque lembro dos passeios, da companhia da família e da amizade de minhas primas. As pessoas precisavam de menos espaço antes, parece que eram mais unidas. Eu sinto falta desses momentos, de mais tempo para a família e para a diversão! Eu tinha muito disso quando eu era criança!

Por falar em espaço: minha família era campeã de encher casas de praia de gente. Encher não, lotar. Lotar meeesmo. E as casas eram sempre arranjadas em esquemas absurdos, como emprestadas por um irmão do amigo do tio, coisas assim. As casas normalmente contavam com 2 quartos, sala, cozinha e banheiro. Já fiquei em casas com 30 pessoas e apenas 1 banheiro. Sem privacidade nenhuma! Não, disso eu realmente não sinto falta. E podem me chamar de fresca, mas hoje prefiro viajar com mais tranquilidade. Sempre considero uma taxa máxima de 6 pessoas por banheiro, além de colchão limpo e confortável. Hoje não encaro uma farofada dessas, nem por brincadeira!

Apesar dessas críticas, como disse acima, sinto falta do tempo em que as pessoas precisavam de menos espaço.

Agora vamos falar de guloseimas: balas de goma e Dipnlik.

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Confesso que meu paladar mudou e hoje nem consigo me imaginar consumindo balas de goma. Mas é que lembro que eu gostava muito. E lembro do meu querido avô, que ia me visitar e levava um pacotinho =).

Uma outra coisa bem simplesinha e boba da qual sinto falta é do dinheiro de antigamente. Você que não viveu antes do Plano Real não sabe muito bem do que estou falando, mas era engraçado ganhar MIL CRUZEIROS ou CINCO MIL CRUZEIROS. Esse monte de “zeros” fazia a gente acreditar que éramos milionários!

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Houve uma época em que minha avó frequentemente me dava CINCO MIL CRUZEIROS rs. Outra coisa muito legal que minha avó fazia era me dar um brilho labial e uma colônia de maça verde da Avon:

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Não achei foto da colônia de maçã verde, mas o brilho labial era exatamente igual a esse!

Eu sinto saudades dela! Com o tempo, você percebe que não é o item material em questão, mas sim a lembrança que ele traz.

Já que estamos falando em dinheiro, lembrei que eu recebia R$3,00 por semana como ‘mesada’, isso em 1996. Para vocês terem uma ideia, o suquinho Mupy ou um genérico de Toddyinho custava cerca de R$0,35. E com R$0,10, na mesma época, você comprava uma boa quantidade de balas. Era uma época interessante: o nosso dinheiro “valia mais”. Por outro lado (não entendo nada de economia, falo de percepção), as pessoas não tinham acesso ao crédito e o desemprego era muito grande.

Para vocês terem uma ideia, essa história de ‘mesada’ semanal de R$3,00 durou uns poucos meses. Talvez uns 4 meses, no máximo. Acontece que minha família foi terminar de construir nossa casa e cada dinheirinho contava. Daí meu pai teve que interromper a mesada. Pois é gente, fui prejudicada pelo governo FHC na adolescência rs.

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Hoje em dia nem consigo chegar perto desse suquinho…rs. Muito doce!

As crianças do meu tempo (final dos anos 80/90) não eram consumistas como as de hoje. Aqui eu me refiro a crianças de classe média baixa, que era onde eu me encaixava. A gente babava nas propagandas voltadas para o público infantil (que eram mais inescrupulosas que as de hoje), mas tínhamos uma consciência de dificuldade financeira. Sabíamos que aquele produto que a Xuxa anunciava não era para nós. Nunca fiquei pedindo Danoninho ou qualquer coisa assim, porque sabia que não ia rolar. Eu tenho 32 anos e só tive um único produto da Xuxa: prendedores de cabelo, as tais “xuxinhas”. Elas vinham com lacinho e com uma foto da Xuxa. Eu tinha tanto medo da Xuxa (por motivos de: religião) que arranquei todas as fotos da Rainha das minhas xuxinhas. Eu tinha uns 4 anos de idade.

Nem eu e nem meu irmão ficávamos pedindo as coisas para nossos pais. Não havia essa ideia de consumismo. Quando a gente ganhava dinheiro, até demorava para gastar porque não tinha muita ideia do que fazer. A primeira vez que entrei em um Shopping foi aos 12 anos de idade e inicialmente não entendi muito bem a pegada. Muitas lojas, mutcha gente mutcha alegria. Depois vi que as Lojas Brasileiras (uma ancestral das Lojas Americanas) eram muito legais (variedade de doces com preços bons) e comecei a frequentar bem raramente, porque não era sempre que eu ia ao shopping.

A primeira vez que experimentei McDonald’s eu deveria ter uns 6 anos, mas realmente não me importei. E olha, era aniversário de uma criança, cuja família tinha mais condições financeiras e realizou a festa na lanchonete. Eu não liguei muito e nem fiquei pedindo para que meus pais voltassem lá. Para dizer a verdade, eu era uma criança que tinha uma relação estranha com a TV, por isso eu não era muito bombardeada por publicidade. Vou explicar: eu brincava muito em casa e na rua. Brincava de casinha, amarelinha, esconde-esconde, comidinha, etc. E quando eu ligava a TV, era para ver desenhos (Tom & Jerry, Pica-Pau, Jem e as Hologramas , He-man e She-ra eram meus favoritos) ou para assistir programas da TV Cultura (Ra-tim-bum, Glub Glub, Beakman, Faerie Tale Theatre etc). Assistia também Família Dinossauro e TV Colosso. Eu achava propaganda (ou reclames, como dizia minha avó) um saco, porque interrompiam o programa rs.

Muitos atores consagrados participaram da série Faerie Tale Theatre, que tinha um formato de teatro na TV. Cada história era baseada em um conto de fada famoso. Aqui na foto é Leonard Nimoy, no episódio Alladin. Ele interpretava um mago. A direção desse episódio foi de Tim Burton.

Muitos atores consagrados participaram da série Faerie Tale Theatre, que tinha um formato de teatro na TV. Cada história era baseada em um conto de fada famoso. Aqui na foto é Leonard Nimoy, no episódio Alladin. Ele interpretava um mago. A direção desse episódio foi de Tim Burton.

Já na época do Mundo de Beakman, eu era pré-adolescente. E eu adorava o programa, fiz várias experiências (câmara escura, a das bactérias do chulé na gelatina, etc). Meu irmão e eu adorávamos, sempre fazíamos as experiências juntos! Não é por acaso que meu irmão cursou Matemática e eu cursei Meteorologia =). Quase apreciador de Ciências que tem mais ou menos a minha idade acho que se inspirou no programa.

Meu pai comprava fascículos de enciclopédias e Atlas, trazia livros de bibliotecas, revistas, etc. Então eu fui uma criança e uma pré-adolescente que gostava muito de ler. Eu adorava desenhos de fungos e plantas e tentava reproduzi-los. Até hoje adoro as ilustrações de Botânica.

Por volta de 1998-1999, eu devia ter uns 14-15 anos, as condições financeiras lá em casa melhoraram um pouco.  Meu irmão e eu fomos estudar inglês, ganhamos computador, assinamos TV a cabo. O computador veio com um “kit multimídia”, que consistia no leitor de CD-ROM, placa de som e alguns CD’s. Tinha CD da Microsoft Encarta. Treinei muito inglês lendo os verbetes da enciclopédia e com muita dificuldade eu traduzia o conteúdo para trabalhos escolares.

Meu irmão e eu éramos fãs da Nickelodeon, assistíamos quase toda a programação e éramos fãs de Pokemon (principalmente meu irmão, que sabia o nome de todos, espero que ele não esteja lendo isso rsrs).  Nessa época eu assistia o Sábado Sci-Fi no USA Channel (que hoje é Universal Channel). Eu tive uma vida “normal” de adolescente, apesar de ser nerd. Eu tinha paqueras, namoradinhos, mas sempre gostei muito de estudar e sempre gostei das minhas nerdices. Nunca fui muito antissocial, apesar de já ter sofrido bullying na escola. Ainda assim, consegui ser representante de classe e sempre fui um pouco popular. Acho que lidei bem com o bullying porque meus pais, sobretudo a minha mãe, sempre nos ajudaram com a questão da auto-estima. Minha mãe sempre dizia que éramos melhores do que aquelas pessoas e do que aquelas situações. Meus pais sempre conversaram com a gente e nos proporcionaram um ambiente seguro. Acredito que essa é a chave para evitar as sequelas do bullying, porque infelizmente sempre existirão alunos e até professores que debocham dos outros. Sim, professores! Meu irmão sofreu bullying de uma professora certa vez e minha mãe “rodou a baiana” na escola. A mulher foi obrigada a desculpar-se na frente de todos. Claro que programas anti-bullying nas escolas e maior esclarecimento dos professores e dos funcionários das escolas são fatores importantes, mas uma família acolhedora e receptiva é primordial.

Tem gente que fala que bullying no passado não existia. Existia sim, sempre existiu! O fato é que o assunto não tinha um nome e nem era discutido, mas sempre existiu. E se alguém que estiver lendo isso e for educador (pai, responsável, professor, treinador, etc), por favor, leiam sobre o assunto e reflitam sobre isso. Eu conheço adultos que tem a auto-estima destruída por conta do bullying que sofreram na infância e na adolescência, com traumas tão intensos que hoje desejam o mal para quem os prejudicou no passado. Ou seja, é uma mágoa tão forte que ainda anos depois está dentro de quem sofreu as agressões, perseguições e ameaças.

Bom, não queria terminar minha sessão nostalgia falando de bullying, um tema tão triste e tão pesado. Mas o assunto surgiu, né? Vou postar aqui alguns fatos que não mencionei no texto, mas que me trazem lembranças interessantes:

1) Minhas primas, meu irmão e eu nos divertíamos muito e com muito pouco: botões, retalhos, roupinhas de boneca caseira, caixas, isopor, brincadeiras na rua, etc.

2) Fui mordida por uma cachorra chamada Samantha (naquele tempo as pessoas não cuidavam tão bem dos animais, como é hoje e muitos viviam nas ruas).

3) Por falar em cachorro, naquele tempo davam restos de comida para os cachorros. Triste, né? Ração era caro e as pessoas tinham menos esclarecimento.

4)  As brincadeiras com minhas primas as vezes fugiam do controle e alguém terminava machucado/chorando/de mal.

5) Aos 6 anos, arrebentei minha testa em uma balança de parquinho.

6)  Aos 13 anos, fiz uma cirurgia plástica reparadora pra arrumar a cicatriz explicada no item acima.

7) Adorava filmes de terror. Hoje ainda gosto, mas um pouco menos. Aos 7 anos, me chamavam de A Maldição de Samantha. E eu odiava a alcunha rs

8) Detestava dançar festa junina. Hoje adoro festa junina, mas ainda não gosto muito de quadrilha.

9) Eu estudava em um prézinho da Prefeitura, mas minha mãe tinha que pagar o transporte. Eu ia de ônibus escolar e odiava. Hoje acho que odiava porque os donos do transporte (era um casal) eram muito irresponsáveis. Esqueciam crianças (me esqueceram algumas vezes e eu era a primeira), os filhos deles, crianças mais velhas, perturbavam os pequenos, etc. Pois é Seu Moacir e Dona Jô, espero que estejam lendo isso e espero que tenham mudado de ramo rs.

10) Aprendi a ler muito cedo, com uns 4 anos. Meu pai me ensinou em casa, porque eu era muito curiosa e queria saber de tudo. Até hoje sou assim: com ciência e vida dos outros rs.