A “Cientista” Grávida – Conhecendo uma maternidade (episódio 9)



Fonte dessa fofurice: Free Digital Photos
Fonte dessa fofurice: Free Digital Photos

No último fim de semana, fomos visitar uma maternidade para conhecer sua infraestrutura e bater um papo com a assistente social responsável pela recepção aos visitantes.

Logo que chegamos ao hospital, duas recepcionistas muito simpáticas nos receberam. Ainda era cedo e ficamos aguardando no saguão do hospital. Essa oportunidade me permitiu fazer as primeiras avaliações sobre o hospital. Achei o saguão amplo, limpo e bastante organizado. Ficamos aguardando por uns 15min, quando as recepcionistas nos chamaram. Inicialmente era um grupo de aproximadamente 20 pessoas, composto majoritariamente por mamães e papais.

Esse hospital especificamente não organiza exatamente uma visita. É uma palestra em um auditório do hospital. Por telefone, já haviam me explicado que a visita às dependências do hospital não era possível. Claro, imagine que desagradável e desconfortável para as mamães, bebês e equipe média ter um monte de gente visitando o local, como se fosse um zoológico ou algo assim. Sem esquecer-se de mencionar os riscos de contaminar o ambiente hospitalar. E aqui faço um apelo: se você tem um parente ou amigo hospitalizado (seja em decorrência de uma cirurgia, doença ou mesmo parto), não seja inconveniente! Faça uma visita breve e respeite as solicitações da equipe médica. Sei que muitas vezes é difícil e somos tomados pela emoção. Quando minha avó estava em coma em decorrência de um AVC, minha prima e eu fomos chorando até a equipe médica, para permitir uma visita fora de hora. Claro que não permitiram. Não discutimos com a equipe médica, agradecemos a atenção, pois acho que a gente já sabia que não seria possível.

Logo que chegamos ao auditório, ainda faltava cerca de 10min para a palestra começar. Ofereceram-nos biscoitos, café, suco e água. Tínhamos que preencher um formulário com nossos nomes e e-mails para recebermos informações. Também nos deram um panfleto com informações sobre procedimentos de como realizar registros fotográficos no dia do parto. Em uma das recomendações, era dito em outras palavras que era para não atrapalhar a equipe médica. Chegamos a esse estágio da civilização humana, amigos! Eu pensei que em 2015 teríamos hoverboards e carros voadores. Ou que teríamos chegado a Marte. Mas nada disso aconteceu. Temos pessoas fazendo selfies com pau-de-selfie e tudo na sala de parto, no momento em que o bebê tá coroando! Eita loucura!

A assistente social apresentou-se. Mostrou slides com fotos do hospital, deu detalhes sobre a missão e sobre a ideologia do hospital, etc. Esse hospital no caso é bastante pioneiro no que diz respeito ao parto humanizado. Eles garantem que só fazem cesárea como último recursou ou em casos em que a mulher agendou o procedimento. E nesse caso também garantem uma cesárea humanizada, com profissionais capacitados para tal e garantem o acompanhamento do companheiro(a) ou de outro familiar. Sim, é possível fazer uma cesárea humanizada, com atendimento humanizado. Se você precisar de ou quiser uma cesárea, informe-se sobre hospitais que tenham esse atendimento diferenciado.

Durante a palestra, várias pessoas foram chegando atrasadas. O auditório lotou, várias pessoas tiveram que ficar em pé. Acredito que ao final da palestra, cerca de 60 pessoas estavam no auditório. Mamães, papais, vovós, vovôs, irmãozinhos, curiosos, etc.

A assistente social foi muito atenciosa e depois da palestra, abriu um espaço para fazermos perguntas. E aí começou o show de horrores e uma excelente oportunidade para observar o comportamento humano.
Uma moça levantou a mão e pediu para que a assistente social repetisse toda a palestra, porque ela havia chegado atrasada (inacreditável). Claro que a palestrante não repetiu e sugeriu que a moça voltasse em um outro dia, já que esse bate-papo é organizado com bastante frequência. A mesma moça pediu para que a palestra fosse enviada por e-mail, o que lhe foi negado, certamente por questões de uso de imagem. A moça ficou meio indignada, mas cá entre nós, a pessoa chegou atrasada e QUER TER RAZÃO? A pessoa pega o bonde andando e quer sentar na janelinha, abrir a janelinha, colocar metade do corpo pra fora e dar tchau pra toda família.

Ainda durante a palestra, as pessoas começaram a conversar entre si, em total desrespeito à palestrante e ao restante da plateia. Durante as perguntas, as pessoas se atropelavam e não permitiam que as outras fizessem as perguntas. Pessoas saiam no meio da apresentação (a parte das perguntas é parte da apresentação!), faziam barulho, etc. Um horror!
E percebi uma coisa: as pessoas estão realmente ficando perturbadas com o excesso de informação. Percebi que há gente mais confusa do que eu! Faziam perguntas bastante óbvias, confundiam fatos, atropelavam seu próprio raciocínio, etc. Alguns foram até rudes com a assistente social. E insistiram por uma visita em todo o hospital, sem compreender o motivo simples e muito óbvio pelo qual tal visita seria impossível. Imagine 60 pessoas andando pelos corredores da maternidade!

Acredito que as pessoas têm lido muito, buscado informações em fontes diversas (algumas boas e outras ruins), perguntado para outras pessoas, etc. E esse monte de coisa dentro da cabeça demora em ser processado. Notei por exemplo, a confusão entre parto humanizado x parto normal x parto natural. Percebi que as diferenças muitas vezes são ideológicas ou pessoais.

Um dos casais perguntou se o local realizava parto na banheira. A palestrante deu a informação necessária e o rapaz logo disse:

– Mas a médica dela (médica de sua companheira), realiza parto até naquele cantinho ali (apontou para um cantinho escuro do auditório).

Em outro diálogo, um senhor meio esbaforido, cheio de razão, disse:

– Mas e no meu caso, minha mulher e eu vamos agendar uma cesariana, porque nós escolhemos assim. Vamos ter direito a isso?

No final, quando fomos pegar nosso carro, uma mulher conversava com o companheiro em tom de seriedade:

– Olha, é melhor contratar uma parteira e ter o bebê em casa.

Entendo de onde surgem essas posturas. A violência obstetrícia é manchete em diversos portais de notícias, várias mulheres já deram relatos assustadores. O índice de cesarianas é enorme, principalmente na rede particular e dos convênios. Entretanto, não acho seguro de maneira alguma que uma criança venha ao mundo em uma casa. A não ser que você for ABSURDAMENTE RICA GISELE BÜNDCHEN STYLE. Nesse caso, você terá condições de instalar toda a infraestrutura de hospital em sua casa.

Enfim, como disse, essa é a minha opinião particular. Há mulheres que acham ok um parto em casa. Eu não acho. O índice de mortalidade materna era muito maior no passado, justamente porque os partos eram feitos em casa, sem a infraestrutura de um hospital. Desejo que tudo corra bem para mim e para todas as outras mamães, mas e se algum imprevisto acontecer? Nesse caso, o hospital tem condições de tentar evitar uma tragédia!

Ou seja, precisamos do hospital, mas o que fazer para evitar ser maltratada? Devemos buscar informação adequada e não devemos nos calar. Os relatos das mulheres que sofreram violência obstétrica são um lembrete para que não nos calemos, para que denunciemos tudo. Talvez eu sofra violência obstétrica, não sei. Eu estou me preparando inclusive para isso, mas não estou segurando pedras nas mãos para jogar em enfermeiras e equipe médica. Coloquei o foco todo no meu bebê. Vou ser gentil com todo mundo, argumentar educadamente e esperar que eu não sofra nada. E se eu sofrer algum desaforo, quero ser forte para aguentar e então denunciar. Porque eu, Samantha, prefiro correr o risco de sofrer violência obstétrica em um hospital do que correr os riscos que eu teria em um parto em casa.

Também discordo da enorme quantidade de cesáreas eletivas, embora eu respeite o desejo PESSOAL que uma mulher possa ter, por n razões. Mas em muitos casos, acho que entendo o que acontece: desinformação. Já ouvi cada coisa! Mulher que não quer que “a bexiga caia” ou não quer que “a vagina fique ‘relaxada’”. Ou mulher que tem medo de ter “algo” saindo de sua vagina. Nunca me esqueço de um caso, uma moça que conheci pela internet há alguns anos. Ela teve seu bebê por cesariana, estava feliz e tudo correu bem. Até aí tudo bem. Só que seu companheiro, médico, justificava a escolha da companheira dizendo que o prazer dele não seria estragado. E ele escreveu toda essa justificativa esdrúxula e machista em uma rede social, o que me fez morrer de vergonha alheia e sentir pena da moça. Quando li, fiz facepalm duplo twist carpado. Sim, caros leitores, o sujeito era médico! E até onde me lembro, pois não temos tanto contato, ela se separou dele (fico feliz por ela!).

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Acho que para este post, tenho duas conclusões principais. A primeira é sobre opinião pessoal. Nesse blog, eu falo de fatos científicos, mas também expresso minhas opiniões. Se você acha que uma cesárea eletiva ou um parto natural de cócoras na água em sua casa com 30 profissionais de áreas diferentes te rodeando são procedimentos aceitáveis, tudo bem. Eu não tenho nada a ver com isso, de verdade! Não quero atrapalhar o empoderamento ou protagonismo de ninguém. Se você tem uma opinião totalmente contrária, crie seu blog, produza seu texto, escreva uma crítica, faça um comentário, etc. Viva a internet!

Minha segunda e última conclusão é sobre o excesso de informações. Tomar atitudes práticas é melhor do que ficar em casa sentada lendo toneladas de informação na internet. Faça visitas a maternidades, compare o que elas têm a oferecer. Não importa se você usa rede do SUS, de convênios ou particular. Vá até os hospitais mais próximos de sua casa, informe-se sobre visitas, converse com mães que já tiveram seus partos nesses locais, etc. Direcione sua busca pela informação, canalize sua linha de pesquisa. Converse com seu obstetra, se possível, consulte uma segunda opinião profissional, etc. Ouça o que sua mãe, amigas, irmãs, colegas, primas, tias, avós e sogra têm a dizer. Acredito que é importante ouvir relatos de diversas gerações de mães para sabermos como as coisas eram no passado e como são hoje. A medicina, como todas as áreas do conhecimento, avança ao longo dos anos e as pessoas são testemunhas desses avanços. Por isso conversar e fazer perguntas no maior estilo “repórter investigativo”, são procedimentos que recomendo muito. Acreditem, nem tudo a gente aprende mais facilmente pela Internet. Na Internet, o joio e o trigo estão muito mais misturados e eu nem conheço essas duas plantas direito.

E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.