A “Cientista” Grávida – O desafio de escolher um bom médico ginecologista e/ou obstetra: minha experiência pessoal (episódio 10)



Fonte: Free Digital Photos
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Disclaimer inicial: esse post é direcionado para você, leitora da classe média, que utiliza um convênio médico e talvez também tenha condições de consultar-se com um médico particular. Ou seja, para pessoas na mesma situação que eu. Vou escrever aqui um pouco de minha experiência pessoal, então ela pode ser útil para quem está numa situação parecida com a minha. Obrigada.

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Então você descobre que está grávida. E não tem muitas amigas de sua idade que são mães. Para vocês terem uma ideia, a maioria das minhas amigas que já são mães, eu conheci pela internet. Tenho 32 anos e a maioria das minhas amigas mais próximas quase da minha idade não são mães, não pretendem ser por enquanto ou não pretendem ser nunca. Tenho uma família grande e unida, com várias primas de primeiro grau entre 19 e 40 anos e dentre as netas de Dona Lice, eu sou a primeira a ser mãe! Claro que converso com minha mãe e minhas tias, mas eu queria também a experiência de alguém mais ou menos da minha idade.

Se você está na mesma situação do que eu, é quase “pioneira” no seu grupo de pessoas mais próximas, deve ter passado por uma situação parecida: como escolher a médica (ou médico) que vai me acompanhar?

Claro que a essa altura você já faz exames periódicos há muitos anos e já é acompanhada por uma ginecologista de sua escolha e confiança. Mas há profissionais que são ginecologistas, mas não são obstetras! E há profissionais que são bons ginecologistas, mas não são bons obstetras. E isso a gente só descobre conversando, conforme as situações vão se desenrolando. Para ajudar outras gestantes ou até mesmo moças que só querem escolher um bom ginecologista para acompanhá-las, vou falar de minha experiência pessoal.

Quando eu tinha uns 19 anos, fui fazer meu primeiro acompanhamento ginecológico. Eu deveria ter feito isso mais cedo, mas havia certo tabu em minha família, como há em muitas famílias. Sexo ainda é tabu e para muitos e a ida ao ginecologista significa que a mulher está tendo relações sexuais. Discordo das duas coisas! Sexo é algo natural, não deveria ser tabu. E a moça deve começar a ir ao ginecologista antes mesmo de começar uma vida sexual.

Minhas primas não falavam muito sobre ida ao ginecologista. Eu tenho CERTEZA que muitas delas nunca foram fazer seus exames periódicos. Ninguém fala nada sobre isso! Ou seja, é como se fosse uma vergonha ou algo do tipo. Triste.

Comecei então a conversar com amigas da faculdade, que me falaram dos exames que eram solicitados, que sugeriram que eu procurasse o hospital universitário e algumas até se propuseram a me acompanhar na primeira visita.

Como eu ainda era dependente do convênio de meu pai, decidi procurar uma médica conveniada.  Fiquei morrendo de vergonha, porque meu pai recebia o extrato mensal de uso do convênio. Mas eu conversei com ele e expliquei que havia coisas me incomodando. Meu pai me apoiou e fui ao médico. Foi mais fácil do que eu havia pensado!

Escolhi uma médica de uma clínica próxima à faculdade. A médica foi muito atenciosa, perguntou sobre meu curso na faculdade e não me criticou por ter procurado cuidados médicos aos 19 anos (quando na minha opinião eu deveria ter procurado mais cedo). Fiz uma colposcopia (coletada no próprio consultório) e fiquei aguardando o resultado. Voltei lá, a médica me receitou um medicamento e fiquei bem. Ela falou que eu deveria voltar no ano seguinte.

Daí a enrolada aqui não voltou. Só voltei uns 3 anos depois, mas fui em outra médica porque apesar desse consultório ser perto de minha faculdade, eu teria que pegar outro ônibus. Escolhi uma médica que ficasse mais perto de minha casa e que atendesse aos sábados. Encontrei uma médica, ela era gentil e comecei a fazer os exames anuais que ela pedia (colposcopia e ultrassom transvaginal). Foi quando descobri que eu tinha alguns cistos no ovário direito. A médica queria operar, mas ela não me convenceu. Para ajudar, a fofinha atendeu o celular DURANTE A CONSULTA, quando discutíamos uma cirurgia, o que acho inaceitável e rude.  Resolvi buscar uma segunda opinião.

Encontrei uma médica perfeita, uma mulher firme e de opinião. Ela olhou meu ultrassom, pediu outro e concluiu que aquilo não era caso de cirurgia, pois se tratavam de uma espécie de “cistos” que já nasceram comigo. Eu queria muito continuar me consultando com ela, mas daí meu pai se aposentou e eu já tinha uma fonte de renda melhor e passei a pagar meu próprio plano de saúde (que era da mesma empresa do plano que meu pai tinha, porém mais modesto). E infelizmente essa médica não atendia mais o convênio. Fui procurar outra médica, pois não quis voltar na anterior (a que queria me operar). Encontrei uma próxima do local onde trabalho. A essa altura, minha vida já era outra, eu já era praticamente casada. Num relacionamento estável, longo e de confiança, pensei em usar anticoncepcionais.

Comecei a ler sobre anticoncepcionais e fiquei preocupada com os problemas circulatórios relacionados ao seu uso prolongado, pois minha família tem histórico de varizes e AVC. Foi quando optei pelo DIU, depois de pesquisar a respeito e de conversar com colegas e amigas. O convênio aprovou a solicitação e qual não foi minha surpresa quando a médica disse que só colocaria o DIU se eu pagasse R$300,00? A cobrança é ilegal! Ela então me coagiu em seu consultório, me forçando a realizar uma transferência bancária em seu computador. Ela ainda disse que não correria o risco de perfurar meu útero por R$30,00 (valor da consulta paga pelo convênio aos médicos na época). E disse que se eu queria um serviço bem feito, eu teria que pagar, pois ela pagava cerca de R$200,00 no cabeleireiro. Isso mesmo, ela comparou a colocação do DIU com luzes e chapinha.  E ainda me assustou e praticamente me ameaçou, falando em perfurar meu útero. Além disso, ela se negou a me dar uma nota fiscal do procedimento, caso eu o fizesse, o que também está errado. Ou seja, a mulher é uma pilantra sem noção. Aposto que é do tipo que fala mal dos políticos corruptos. Eu saí do consultório revoltada, chorando e sem o DIU. Preenchi uma reclamação no convênio e até hoje não obtive resposta. Minha categoria profissional acabou mudando de convênio depois e contratei uma cobertura um pouco melhor, já pensando na gravidez futura.

Procurei outra médica, a Dra. A. C., que me atendeu muito bem apesar da correria de seu consultório. Dra. A.C. me atendeu por uns 4 anos e ela iria acompanhar meu pré-natal todo, mas infelizmente ela perdeu o prazo de recredenciamento do convênio. Além disso, ela não estava atendendo todos os dias, uma vez que ela acabara de ser mãe. E também tem o fato de meu convênio oferecer um valor muito baixo para reembolso de consultas. Fiquei chateada, mas procurei uma nova médica, através de indicações da Internet (chamaremos de T.C.), que foi a que atendeu o celular durante a última consulta (narrei aqui). Isso mesmo, já é a segunda médica que age dessa forma comigo durante uma consulta.

Gente, meus sentimentos por Dona T.C. são confusos e tendem ao negativo desde o início. Trata-se de um consultório pequeno, com duas salas. Uma das salas é da Dona T.C. e a outra é consultório de seu marido, que atua em outra área da saúde. O marido de Dona T.C. é um chato que não deve ter muitos pacientes, tem muito tempo livre e adora ficar falando mal de pobre e de política na sala de espera. Sabe aquela mala sem alça que acha que a classe média alta é perseguida e injustiçada? Desse mesmo. Poderia ficar quietinho dentro de sua sala, mas sua necessidade por atenção e aprovação o impede de ficar quieto.

Da mesma laia dessa moça (relembre o caso aqui).
Deve ser da mesma laia dessa moça (relembre o caso aqui).

Em minha última consulta (a que ela atendeu o celular), eu tinha marcado para 09:00. Além de chegar atrasada, ela ficou uns 20min fazendo sei lá o que dentro de seu consultório. Ela me atendeu (muito mal!) apenas 09:30. Repetindo o absurdo: ela atendeu o celular durante a consulta. Além disso, foi um pouco sarcástica comigo quando perguntei sobre parto natural. Mostrou ser retrógrada e não esperou que eu terminasse de falar.  Ela me tratou como uma total ignorante, não quis discutir o assunto. Usou argumentos ruins, mal organizados e encheu a conversa com termos médicos que evidentemente não compreendo. Ela quis vencer pela “autoridade no assunto” e ela não precisava disso. Além disso, durante toda conversa enrolada, ela deixou mais ou menos claro que prefere agendar cesarianas, procedimento que não me submeto eletivamente, por convicção.  Achei tudo muito triste e fiquei bastante mal quando saí do consultório.  Tudo isso aconteceu na segunda-feira da semana passada. Fiquei com o raciocínio atrapalhado, tive péssimo rendimento no trabalho e prejudiquei meu relacionamento com as pessoas. Tudo isso porque ela me deixou nervosa e estressada.

Até o fatídico episódio, a Dona T.C. tinha sido uma médica regular e faz pré-natal direitinho. Mas já tinha me avisado na primeira ou na segunda consulta que queria uma taxa de disponibilidade no valor R$3000,00 para fazer meu parto. Taxa que é considerada ilegal (veja aqui). Sério mesmo? Dane-se! Meu parto pode ser realizado pelo plantonista do hospital, não precisa ser pela médica que acompanhou meu pré-natal. A assistente social da primeira maternidade que conheci me informou sobre isso e me deixou super tranquila (leia meu relato de visita a maternidade aqui). Só quero ser bem atendida. Se a médica fosse MUITO LEGAL, MUITO ATENCIOSA E MUITO PROFISSIONAL talvez eu fizesse questão que ela me acompanhasse, embora a tal taxa de disponibilidade seja uma cobrança ilegal.

Katherine_Pulaski
Bem que a Dra. Pulaski poderia existir de verdade =)

Conclusão: fiquei revoltada com a Dona T.C. e não gostaria de ver a cara dela novamente, embora eu tenha uma consulta marcada no final do mês. Para esse meio tempo, consegui marcar uma consulta com uma nova médica, em um consultório pertíssimo de minha casa. Vamos ver, estou esperançosa! Além disso, fiz uma visita a uma maternidade recentemente e isso me ajudou bastante a esclarecer algumas dúvidas.

Pois então, depois de todo esse relato, tenho algumas opiniões e conselhos que podem ajudar quem procura uma ginecologista e/ou obstetra:

  • O acompanhamento periódico é muito importante. Procure um médico perto de sua casa ou de seu trabalho, assim você não usará a distância como um problema para postergar sua visita ao médico.
  • Converse com amigas e colegas. Quando o convênio médico é vinculado à empresa, suas colegas de mais tempo de casa podem te indicar um bom profissional. Suas amigas também podem te indicar alguém e mesmo que o profissional não atenda seu convênio, alguns convênios trabalham com reembolso de consultas. Converse com o profissional e com o convênio.
  • Tentativa e erro. Se você possui convênio, continue tentando e errando, até o fim dos tempos, não importa. Se não deu certo com um profissional, vai dar com outro. Não pode é deixar de ter acompanhamento médico.
  • Questione todas as atitudes de seu médico e procure seus direitos. Denuncie comportamentos antiéticos. Vocês devem ter notado que ao longo do post não escrevi o nome de nenhuma médica que me atendeu mal porque já tomei providências a respeito nos locais certos. E mesmo que eu não tivesse tomado, não faria diferença alguma e eu poderia atrair problemas para mim.
  • Pesquise! Use a internet ao seu favor e quando que você encontrar um determinado profissional pelo livrinho do convênio, faça uma busca. Veja se outras pessoas tem reclamações ou elogios ao profissional. Veja se o profissional está nas redes sociais, se ele tem um site ou um blog. Procure informações nos Conselhos Médicos, na FEBRASGO e outras associações, etc.
  • Leia boas informações sobre medicina (sites de universidades, sites de outros médicos, etc). Aprenda bastante sobre o funcionamento de seu corpo, sobre seus limites e tente compreender pelo menos o básico. Há péssimos profissionais em todas as áreas e com medicina não seria diferente.
  • Se você vai fazer pré-natal com um determinado profissional, lembre-se que você vai ver a cara dele pelo menos 1 vez por mês durante toda a gestação. Não adianta, além de ser bom profissional, você vai ter que simpatizar com o médico. Exija o cartão pré-natal e toda documentação, para caso você troque de médico, o novo profissional terá acesso a todas as informações e seu pré-natal poderá continuar sem problemas.
  • Você não precisa e nem deve pagar taxa abusiva nenhuma! Se seu convenio cobre parto, basta procurar uma maternidade credenciada. Na maternidade, há obstetras de plantão! Visite a maternidade se for possível, converse com mulheres que já pariram no local, observe bem a infraestrutura, etc. Informe-se bastante para tomar sua decisão sobre o local do parto. Você não precisa ter o parto com o profissional que acompanhou seu pré-natal! Para isso, existe a carteirinha de gestante. E lembre-se de  organizar todos os exames, receitas médicas e outros documentos em uma pasta.
  • Ninguém merece ser maltratada, seja na rede do SUS, convênios ou particular. Nada justifica negligência ou estupidez. Há pessoas que acham que “por estarem pagando”, não deveriam ser tratadas com grosseria. Isso independe de pagar ou não, todo mundo merece ser tratado com respeito. Porque se formos pensar dessa forma, o usuário do SUS também está pagando impostos e também merece ser tratado com dignidade. Lute por um mundo em que as pessoas sejam bem tratadas independentemente de suas condições financeiras. Se você foi vítima de qualquer comportamento antiético, denuncie!
  • O mais importante: sexualidade não pode ser tabu em 2015! Não deveria ter sido tabu nunca, mas é triste demais saber que muitas famílias não encaram o assunto. Por ser “proibido”, percebo que muitas mulheres deixam de conhecer o próprio corpo e de buscar acompanhamento médico. Não deixem fazer “Carrieta White” de você. Se você ainda é menor de 18 anos e não tem grana para pagar um médico particular, é possível buscar acompanhamento em postos do SUS. Informe-se sobre o posto mais perto de sua casa, vá até lá e pergunte sobre a documentação necessária para se cadastrar e iniciar o acompanhamento. Tente conversar com sua família, converse com sua mãe, com uma tia querida, uma prima mais velha, com uma professora, com seu pai, etc. Sei que em muitos casos é difícil, mas tente conversar, vença a vergonha e tente estabelecer um dialogo. Muitas de vocês são beneficiárias de convênios médicos de seus pais. Diga que não se sente muito bem e tem algumas dúvidas e que precisa de auxílio médico.
  • A Internet não é médico. Não existe o Dr. Google! E nem a Dra “Minha Amiga Disse”. Gente, isso é muito sério. Você não deve tomar o mesmo anticoncepcional que sua amiga toma, assim como não deve confiar em todo conselho médico da Internet. Procure um profissional, sempre. Outro dia li o conselho mais estapafúrdio e absurdo na internet. Um site ‘médico’ aí tinha uma reportagem sobre candidíase. Um dos conselhos era: passar iogurte nas partes íntimas para minimizar a proliferação dos fungos. Se eu estraguei seu lanche da tarde, me desculpe. Eu só queria ilustrar o tipo de coisa absurda que a gente lê na internet.
  • Seja amiga, seja acolhedora e seja sábia. Se uma amiga mais nova, prima, aluna, etc vier te procurar pedindo conselhos médicos, sempre indique um profissional. Se você não tem um profissional para indicar, procure saber, informe-se sobre as condições da pessoa, pergunte para outras pessoas e incentive que a pessoa também faça a busca. Apoie, ajude a marcar e incentive. Se algum tratamento for necessário, incentive que ele seja feito até o fim. São situações assim em que podemos ser gentis e amigas umas com as outras, exercendo a tal sororidade na prática.

Espero que essas dicas sejam de grande valor para quem estiver procurando um profissional da área de saúde da mulher. Se você tiver alguma sugestão, se discordar de algo ou se tiver uma colocação, contribua nos comentários =).

E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.