Davi com a cabeça de Golias – Caravaggio



Caravaggio é um artista que chama a atenção de todos, não apenas de acadêmicos da área de arte. Mesmo quem vê uma obra do artista pela primeira vez, fica impressionado com o drama e como o movimento. Nesse post, vou contar uma historinha que me fez chegar no quadro Davi com a cabeça de Golias  (Davide con testa di Golia).

Acho que esse quadro ficou na minha cabeça essa semana porque minha prima Jeane deu uma ótima aula na escola dominical. Ela falava para as crianças sobre “seu Golias”. As crianças escreveram seus medos em um desenho representando um homem de quase 3m de altura. A Jeane desenhou um boneco de quase 3m de altura, usando folhas de papel pardo. As crianças falaram de “seus Golias”, ou seja, seus medos. Muitas tem medo de ficar sozinha, medo da morte dos pais, medo da polícia (é uma igreja da periferia, o medo da polícia é recorrente), medo de bandido, etc. A aula foi sobre coragem. Sobre como as crianças deveriam vencer seus medos usando a fé e sua capacidade.

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A história de Golias é bem conhecida. Rapaz hebreu fracote cuidador de ovelhas ficou indignado com o medinho dos soldados hebreus, que tremeram nas bases quando viram um dos soldados inimigos, o gigante filisteu de nome Golias. Tal qual Anakin Skywalker, um profeta (Samuel) já tinha dito pouco antes disso tudo acontecer que David faria coisas bem maneiras e seria um sujeito bem importante.

A iluminação da obra é muito bonita, pois foca no braço esquerdo de David segurando a cabeça de Golias. David demonstra uma cara de desprezo, mas ao mesmo tempo uma cara de “missão cumprida”. O torso nu do rapaz revela que ele era um rapaz jovem, talvez de menos de 18 anos. Na mão direita, ele segura a espada responsável pelo feito. Na espada, há uma sigla para  Humilitas Occedit Superbiam (“A Humildade Conquista o Mundo”, em latim). Essa “liberdade artística” é interessante, porque é óbvio que hebreus da época de David nem sonhavam com Latim. David (se existiu) foi o líder de um reino tribal de hebreus, que deve ter existido por volta de 900 a.C. Há algumas evidências históricas que sugerem que David realmente existiu, mas provavelmente as histórias contadas nos livros bíblicos de I e II Samuel, I Reis e I Crônicas são mais “exageradas” e “heroicas” do que sua existência foi.

A verdade é que as histórias bíblicas serviram e ainda servem de fonte de inspiração para diversos artistas.  Eu já conhecia o quadro de Caravaggio, mas fiquei com ele na cabeça e recentemente quis saber mais detalhes a respeito. Entrei em vários sites, consultei a Wikipedia, etc. Acabei encontrando um breve texto com a biografia de Caravaggio e vi essa ilustração em giz de Ottavio Leone, feita por volta de 1621, alguns anos depois da morte de Caravaggio:

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Pessoal, estou ficando bem maluca ou a cabeça de Golias, na obra Davi com a cabeça de Golias é realmente IGUAL o rosto de Caravaggio? Vocês podem argumentar que o rosto dele era comum, lembrando o rosto de diversos italianos até hoje. Mas não consigo tirar da minha cabeça que Caravaggio inspirou-se em si mesmo para pintar a cabeça de Golias. Depois li aqui (não achei fontes confiáveis) e acredito que posso ter razão.

Vamos supor que eu tenha razão. Que esqueletos no armário guardaria Caravaggio para retratar o “mal” (a cabeça de Golias, humilhado”) usando sua própria aparência? Talvez ele estivesse vivendo um momento difícil, arrependido de algo que fez. Ou com isso quis fazer com que nós refletíssemos sobre a natureza obscura presente em cada um de nós.

P.S.: Quando falo sobre arte em meus posts, quero deixar uma mensagem para todo mundo. A mensagem é: a arte não pode ser elitizada. Podemos aprender a apreciar e gostar de coisas boas e bonitas. Não há nenhum problema em não ser acadêmico e não conhecer os detalhes técnicos da obra. Isso não impede ninguém de ficar hipnotizado, encantado ou em estado de reflexão diante de uma obra de arte. Observo que museus são espaços que muitas vezes são considerados “exclusivos”. Já ouvi pessoas falarem que tem vergonha de entrar nesses lugares porque não conhecem nada. Não tenham vergonha! Como exemplo, fiquei quase 8h caminhando pelos salões e corredores da Galleria degli Uffizi, em Florença. Sou meteorologista, gente! O básico que sei de arte foi o que aprendi com a ótima Prof. Cibele, que me deu aula de artes no Ensino Médio. E depois li alguma coisa na internet e em livros. Eu sou uma leiga apreciadora e perdi toda a vergonha de caminhar por lugares que outrora eu considerava chic. Falei um pouco mais sobre isso nesse post em que fiz algumas considerações sobre arte.