Resenha de The Coral Island, de R. M. Ballantyne



The Coral Island, de R. M. Ballantyne é uma das fontes de inspiração de O Senhor das Moscas. Como gostei muito do livro de Sir William Golding, decidi ler esse romance juvenil que o inspirou a escrever seu trabalho mais importante e conhecido.

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The Coral Island (A Ilha Coral ou A Ilha de Corais) é um romance infanto-juvenil de 1858, uma típica Robinsonade. Não sei se existe um termo em português, mas Robinsonade é o nome dado a romances que se inspiram no famosíssimo livro Robinson Crusoe, de Daniel Defoe.  Ou seja, a típica história de “pessoa(s) que sobrevive(m) a um naufrágio”. Se formos ser bem elásticos, podemos considerar sobreviventes de acidentes de avião e a série Lost seria uma espécie de Robinsonade em alguns aspectos.

E talvez as próprias Robinsonades sejam aí inspiradas em histórias antigas de naufrágios. Consigo me lembrar por exemplo de Odisseia, em que são narradas as aventuras de Homero em sua volta pra casa. Esse gênero de “história de sobrevivência épica” surgiu na Grécia Antiga e ainda hoje é relativamente comum, com várias obras famosos relativamente recentes, como Ulysses de James Joyce (que preciso colocar em minha lista de futuras leituras).

Depois que li The Coral Island, pude entender melhor  O Senhor das Moscas. O livro  O Senhor das Moscas faz justamente uma crítica ao heroísmo e história de superação dessas Robinsonades. O romance de  Sir William Golding mostra a natureza obscura do ser humano, capaz de cometer atos cruéis quando motivado pelo medo e pela vontade de sobreviver. Fiz uma resenha d’ O Senhor das Moscas nesse post.

Mas vamos falar agora de The Coral Island. O narrador em primeira pessoa é um dos protagonistas da história. E ele conta uma biografia bem heróica sobre si mesmo. Seu nome é Ralph Rover e ele tem 15 anos. Ele fala que sua família está no mar há muitas gerações, ele fala que sempre gostou de sair para explorar, desde muito bebê. Fala que é um rapaz forte, etc. Ele tem uma autoestima elevadíssima, olha. Acho que ele é o personagem com mais autoestima do qual já tive notícia. Numa escala de 1 a 10 para baixa autoestima e elevada autoestima, eu diria que o n°1 corresponde a Sepha, de As Belas Coisas, Que é do Céu Contê-las (Dinaw Mengestu) e 10 corresponde a Ralph Rover.

A quantidade de elogios que Rover escreve para ele mesmo me faz quase acreditar que ele etá preenchendo um perfil em um site de relacionamentos.  Mas enfim, Rover narra como ele e seus 2 amigos de 18 e 13 anos sobreviveram a um naufrágio (se não me engano, foram os únicos sobreviventes). Uma coisa importante que dá para perceber claramente e talvez explique o excesso de elogios: a narrativa não é feita durante o acontecimento dos fatos. Rover está mais velho e conta tudo o que viveu de maneira romântica e saudosa, transformando a história numa grande epopeia. Isso fica bem claro logo no começo:

“I was a boy when I went through the wonderful adventures herein set down. With the memory of my boyish feelings strong upon me, I present my book specially to boys, in the earnest hope that they may derive valuable information, much pleasure, great profit, and unbounded amusement from its pages.”

Sabe quando seu avô fica contando o quanto ele era um às do futebol e quando seu tio conta que era sucesso entre as garotas? Bom, duvido dessas narrativas! Acredito que por conta do saudosismo, as pessoas tendam a exagerar as histórias. E acho que Rover não fugiu disso.

O romance é dividido em duas partes. Na primeira parte, Rover narra o naufrágio (que ocorreu no Oceano Pacífico). Eles vão parar em uma pequena ilha. Rover conta como ele e seus amigos se viraram para se alimentar, se vestir e se abrigar.

Na segunda parte, Rover narra conflitos com piratas e nativos.

Eles comem frutas, peixes e porcos selvagens. As semelhanças de cenário e de alimentação com O Senhor das Moscas são muito grandes. A grande diferença é que os três garotos de The Coral Island são bastante unidos e o problema não está no grupo: eles entram em conflito com piratas e nativos, evitam atos de canibalismos e chocam-se com outros hábitos dos nativos. Os meninos são retratados como herois cheios de virtudes.

Outro momento que lembrou muito O Senhor das Moscas é quando em um determinado momento os três garotos escondem-se em uma caverna. A caverna também está presente n’O Senhor das Moscas, como um local que seria de abrigo para um adulto, porém um local de muito medo para as crianças. Os meninos também entram em contato com piratas ingleses que faziam negócios na ilha, um contato que é difícil mas mostra-se proveitoso depois.

Os nativos são retratados como seres muito vis, cruéis, inumanos. Missionários surgem na história e conseguem converter parte dos nativos. Acredito que nesses romances mais “antigos” as virtudes eram sempre associadas ao Cristianismo e grupos não-cristãos eram considerados não-civilizados. O que nos faz pensar mais uma vez em O Senhor das Moscas como uma grande crítica a The Coral Island e outros romances do gênero. Os meninos d’O Senhor das Moscas aparentemente são de famílias tradicionais, estudantes de um colégio. Ou seja, são elite. Certamente frequentavam a igreja todos os domingos, membros de famílias “perfeitas”. Mas na situação de crise e medo, toda “perfeição do Cristianismo” desaparece.

Além d’O Senhor das Moscas, A Ilha do Tesouro, clássico da literatura juvenil de Robert Louis Stevenson foi parcialmente inspirada no livro de Ballantyne. Li o livro de Stevenson quando eu tinha uns 11 ou 12 anos e fiquei fascinada pela descrição dos cenários e pelos piratas. Quem gosta da franquia Piratas do Caribe certamente deve ler esse livro. A inspiração de Stevenson foi completamente diferente da de Golding. Golding quis fazer uma crítica, explorar o lado obscuro da natureza humana. O livro de Stevenson é um livro de aventura, com problemas que os protagonistas devem resolver, mas que sempre dão certo de alguma forma.

 Se você tiver interesse em ler The Coral Island, tenho uma excelente notícia: é possível baixar gratuitamente no Project Gutenberg. Clique aqui. As versões para e-reader do Project Gutenberg são muito boas, não é necessário nenhum ajuste para lê-las. Já baixei vários livros no site e nunca tive problemas.

 P.S.: Encontrei uma edição em português da Ediouro. Veja aqui.