Um dos melhores episódios de Star Trek: TNG– Time’s Arrow



Como adorei escrever esse post e ele teve uma excelente receptividade (fico contentíssima em encontrar outros trekkers por ai), resolvi transformá-lo em uma espécie de série e falar de outros episódios que gostei bastante. Já aviso que vou focar em TOS e TNG, porque são meus favoritos, mas com certeza vou falar de VOY (porque JANEWAY né?) e de DS9 também!

O episódio que vou discutir hoje é o Time’s Arrow, que é um episódio duplo. É o 26° episódio da quinta temporada e o 1° episódio da sexta temporada de Star Trek: The Next Generation. A história do episódio é de Joe Menosky. Os leitores assíduos vão lembrar que mencionei esse episódio nesse post.

Bom, gosto desse episódio porque revela um pouco mais sobre a misteriosa Guinan, porque tem o enredo centrado em um mistério envolvendo o Data e porque envolve viagens no tempo! E claro, adoro viagens no tempo, que nerd não gosta?

Qual nerd não quer uma camiseta com essa estampa?
Qual nerd não quer uma camiseta com essa estampa?

Confesso que livros, séries e filmes com viagens no tempo me deixam absurdamente confusa, porque fico pensando em todos os paradoxos envolvidos. Em um livro recente, quem explorou isso muito bem e de maneira louca foi Stephen King em Novembro de 1963 (fiz resenha aqui). Para vocês terem uma ideia, fico confusa na trilogia De Volta Para o Futuro (o Emerson é fã da franquia e sempre me explica o DeLorean escondido no segundo filme, essas coisas). É uma confusão saudável, porque me faz pensar nos paradoxos das viagens no tempo e me faz pensar no enredo.

Mas vamos voltar a falar no episódio de Star Trek: TNG em questão, que é famoso por causa da cabeça do Data:

ST-TNG_Time's_Arrow_Part_1

A Enterprise está em órbita na Terra, investigando uma possível existência de alienígenas no planeta 500 anos antes. Apenas lembrando que Star Trek: TNG se passa no século XXIV, precisamente entre os anos de 2364 e 2370, aproximadamente. Ou seja, nesse episódio a Enterprise investiga a provável presença de alienígenas no século XIX. Ok, mas como chegaram nessa hipótese? A partir de evidências arqueológicas e paleontológicas. Em uma caverna em São Francisco, nos EUA, perto da Starfleet Academy, encontram uma caverna com várias relíquias do século XIX e encontram também a cabeça do Data. E foi por isso que a Enterprise foi chamada.

Mas daí você pensa: é a cabeça do Data mesmo? Caramba, o Data não tá sem cabeça naquele momento. Não seria a cabeça do Lore, do B-4, ou de outra criação maluca do Dr. Soong (que é o Dr. Robotinik do Star Trek). Não gente, é a cabeça do Data mesmo!

Perturbador né? O que aconteceu?

Bom, acontece que encontram lá na caverna também alguns fósseis. Aqui é o trabalho de um paleontólogo, coisa da Sybylla. São evidências celulares de fósseis de metamorfos do planeta Devidia II. Essas evidências tem a mesma idade das relíquias encontradas. Ou seja, o mistério começa a ganhar outros contornos e essas novas evidências ajudam muito. O capitão conclui que precisam ir até Devidia II. Chegando lá, eles detectam anomalias temporais, mas não detectam formas de vida. A Conselheira Troi consegue sentir a presença de seres em sofrimento. Data então percebe que consegue detectar os alienígenas, a questão é que eles não estão no mesmo referencial de tempo que a tripulação da Enterprise.

Aqui noto uma semelhança interessante com o episódio Wink of an Eye, da terceira temporada de Star Trek TOS. Em que Kirk é sequestrado por uma espécie que vive em um referencial mais rápido que o nosso. Acredito que Roddenbery e seu time de roteiristas parte dessa idéia em Star Trek TNG. Não li nenhuma informação oficial a respeito, mas que é fã da série talvez tenha notado a mesma coisa. Só que no episódio de Star Trek TOS, a espécie de aliens que vive em um referencial acelerado é a dos scalosians (acho que a ‘tradução’ por aqui deve ter ficado escalosianos, se não me engnao). Os escalosianos são exatamente iguais aos humanos (como muitas espécies de Star Trek TOS, sacumé, sem recursos para maquiagem) e muitos são inférteis devido terem sido atingidos por radiação.

Deela, rainha dos escalosianos que sequestra Kirk
Deela, rainha dos escalosianos que sequestra Kirk

Já os devidians (os habitantes de Devidia II) são formas “espectrais”. Parecem aqueles espíritos bons que aparecem em algumas cenas de Ghost (e que levam o Sam, personagem de Patrick Swayze para o outro lado da vida). Mas eles não são nada bons com os humanos, como falarei adiante. O fato é tecnicamente que eles não vivem em um referencial mais acelerado do que os outros humanóides. Eles vivem com uma diferença de fase mínima das outras formas de vida. Acredito que é o mesmo do que dizer que as partículas que compõe o corpo dos devidianos vibram em fase diferente. Olha, nem quero entrar em detalhes porque daí entraremos na mecânica quântica (assunto que não domino) e aqui há pano para manga para discussões de Espiritismo. A propósito, muitos fãs de Star Trek que conheço são espíritas, mas isso é outra discussão e pode ser certamente uma percepção pessoal e pontual minha.

Devidians
Devidians

Os devidianos são maus com a gente! Eles se alimentam de nossa energia neural, deixando os humanos muito debilitados e causando mortes. Eles podem viajar no tempo e há fortes indícios de que usaram momentos de sofrimento e mortes aqui na Terra (epidemias, guerras), para ocultar seus assassinatos.

E no século XIX, em São Francisco, ocorreu uma epidemia de cólera. Pessoas doentes, debilitadas e que consequentemente morreram em consequência da cólera eram fatos comuns. Imagino que em todas as grandes cidades do século XIX epidemias de cólera foram comuns. E se alguém quiser saber como foi o surto de cólera no Brasil no mesmo período, leiam esse interessante texto do Drauzio Varella.

Bom, mas a história toda tinha que ser ambientada em São Francisco, claro, porque  é lá que fica a  Starfleet Academy. Então o episódio mostra como era a São Francisco do século XIX. E aproveita para falar um pouco do trabalho do jornalista e escritor Samuel Langhorne Clemens, conhecido como Mark Twain, que morava em São Francisco na época e é personagem do episódio. Vale a pena ler um pouco da biografia de Mark Twain. O sujeito era uma figura, um grande humorista e crítico de sua época. O ator que interpreta Mark Twain é Jerry Hardin, e a caracterização visual está ótima. Um sujeito meio desengonçado, engraçado, extremamente curioso e muito a frente de seu tempo. Fica bem claro que o roteirista do episódio é realmente fã do escritor. Ah sim, outras celebridades menos famosas do século XIX também aparecem no episódio, vamos falando disso aos poucos =)

clemens
Samuel Clemens fuçando nos inventos de Data no século XIX.

 Assim que chegam em Devidia II, Data consegue entrar em fase com os devidianos, alterando sua vibração. Quando ele consegue fazer isso, ele consegue vê-los (como na imagem acima) e é sugado para um portal que o leva para a São Francisco do século XIX. Chegando lá, ele rapidamente se disfarça e diz que é um inventor. Claro que há diversos alívios cômicos provenientes da adaptação e estranheza de um androide no século XIX. Ele se hospeda em um hotel e faz amizade com um dos funcionários, que é na verdade o escritor e ativista social Jack London. A amizade com London é importante porque Data quer construir um detector de devidianos e para isso precisa da ajuda de um morador local para conseguir as peças necessárias.

Jack London era um profundo admirador do socialismo e defendia os direitos dos trabalhadores. Para mim, Star Trek é totalmente socialista. E aqui falo de socialismo utópico, Marx, Engels, essas coisas. Não estou falando de Lenin, de mortes, etc. Com as últimas eleições, percebi que muitas pessoas cometem equívocos terríveis e vergonhosos quando falam “da esquerda”.  Roddenbery acreditava que o fim das classes sociais, o fim da propriedade privada, o fim do desespero pelo acúmulo de riquezas serial alcançados no futuro. E eu sonho com o mesmo, uma das razões que me fazem ser fã da franquia.

Data precisa disfarçar-se e adaptar-se ao século XIX em São Francisco. Ele tem todo o conhecimento histórico, o que é bom. E isso o ajuda, mas há coisas na “personalidade’ do androide que são difíceis de disfarçar. Além disso ele não tem a cor de pele muito humana. Por ser meio amarelado, muitos acham que ele é chinês ou albino. Muitos chineses e japoneses migraram para São Francisco no século XIX e a maioria viveu sob condições desumanas. Data percebe que precisa de dinheiro para pagar o hotel, comprar as peças, comprar roupas, etc. E ele usa toda sua habilidade no poker para isso.

Graças aos contatos de London, Data acaba conhecendo outras pessoas do século XIX e imaginem a cara dele ao conhecer Guinan. Ok, ele não consegue demonstrar surpresa ou qualquer outro sentimento, mas o telespectador fica embasbacado. Data fica pensando se Guinan não teria, de algum modo, sido arrastada com ele para o futuro, mas a hipótese não parece funcionar bem. Ele começa a fazer algumas perguntas e percebe que a Guinan é a Guinan do século XIX! No meme de personagens que eu gostaria de ser (leia aqui), fiz uma breve biografia de Guinan. Acontece que por ser El Auriana, ela tem uma expectativa de vida de vários séculos. Em um momento do passado, a rebelde Guinan se desentendeu com seu pai e resolveu fazer um mochilão pela galáxia. Encontrou a Terra do século XIX, descobriu São Francisco e resolveu passar uma temporada por lá.

As perguntas de Data acabam intrigando o curioso Samuel Langhorne Clemens (ou Mark Twain), que começa a segui-los. Com seu espírito jornalístico, certamente percebeu que ali haviam segredos que renderiam uma ótima história. A curiosidade de Clemens preocupa Data e Guinan (que logo percebe que Data não é humano e desconfia de tudo, apesar de ainda não conhecê-lo).

Discretíssima, Guinan nunca havia contado a Data que o conheceu 500 anos antes. Essa mulher é um mistério, por isso sou tão fã da personagem (e adoro o fato de ela ter sido interpretada por Whoopi Goldberg).

Enquanto essas coisas se desenrolam, na Enterprise do século XXIV, La Forge e a equipe toda estão bolando uma forma de alterar a fase, assim como Data fez. Dessa forma, uma equipe poderia ir ao passado encontrar-se com Data e resgatá-lo. Guinan implora para que Picard vá também nessa arriscada missão. E ela sabe do que está falando: se Picard não for, a história vai ser alterada. Agora posso estar meio “confusa”, mas se não me engano antes disso Guinan havia dito que “um homem careca salvou sua vida”. E essa informação tem tudo a ver com a insistência de Guinan em que Picard fosse, como veremos adiante.

A presença de Clemens no episódio é fenomenal. Quando Picard, Riker, Dra. Crusher e Deanna Troi chegam no passado, eles fingem ser uma trupe de teatro, amigos de Data. Clemens fica ainda mais intrigado. Sim, Mark Twain é retratado como o maior mexeriqueiro do mundo. Isso é muito engraçado, de um grande espírito jornalístico. É claro que quem curioso é, acaba descobrindo muito mais do que gostaria. E é óbvio que Clemens descobre tudo e essa é uma das melhores partes do episódio. Mesmo tratando-se de uma série antiga e que muitos dos meus leitores talvez conheçam (e apesar de ter revelado muitas coisas sobre o enredo), não vou contar sobre a descoberta de Clemens. Isso é para deixar muito curioso quem ainda não assistiu esse episódio, que volto a dizer: é um dos melhores de Star Trek: TNG.

A interação dos personagens do século XIX com os personagens do século XXIV é muito boa. E eu acredito que essa interação poderia ser mais bem explorada no episódio, porque gosto desses “choques culturais temporais”. Mas acredito que se isso fosse feito, o mistério da cabeça do Data ficaria em segundo plano. Optaram por deixar em segundo plano (o que ficou perfeito!) a mexeriquice de Clemens.

Tá, mas e a cabeça do Data? Bom, rola uma explosão no século XIX e a cabeça dele é solta do corpo, ficando perdida no tempo por quase 500 anos. Não vou dar detalhes sobre essa explosão porque ela revela bastante sobre a relação entre Picard e Guinan. E também porque ela consiste no ápice da história (aqui só relembrando: o episódio é duplo, então me refiro aos dois).

Agora vejam só como a cabeça da gente dá um nó nessas viagens no tempo: Data achou a cabeça dele em algum momento do século XXIV, momento esse em que ele estava com a cabeça. Ele não ficou 500 anos sem cabeça. Mas ele só descobre que perdeu a cabeça no século XIX (a única forma de um ser positrônico perder a cabeça rs) quando está no século XXIV!

Os fãs discutem muito esse assunto. Em um fórum bem famoso do mundo trekker, o Trek BBC há um tópico interessante em que vários fãs discutem a cabeça do Data. Se Star Trek fosse “real”, a cabeça do Data ainda estaria enterrada lá em São Francisco, esperando ser encontrada daqui pouco mais de 300 anos.

Se essas coisas de alterações na linha do tempo e viagens no tempo não te deixam confuso, então meus parabéns. Posso ficar horas pensando nas consequências das viagens do tempo. Ao mesmo tempo que me sinto confusa, fico doida para ver mais e adoro episódios com essas temáticas. Para evitar paradoxos, acredito que a teoria dos Multiversos  é a que melhor explica essas situações. Há um outro episódio muito bom (que pretendo discutir em um outro post) que explora os multiversos muito bem: Parallels, que também é um episódio de Star Trek TNG. No episódio, Worf está voltando de um tornei de bat’leth em uma nave auxiliar, quando encontra uma Enterprise de outra timeline.

Vocês também gostam de episódios que exploram esses temas? Tem algum episódio favorito para mencionar? Escrevam aí nos comentários =)