Exposição gratuita e imperdível: Picasso e a Modernidade Espanhola, no CCBB



Se você more em São Paulo-SP ou vai dar uma passadinha pela cidade até 8 de junho, não pode deixar de ver a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola, que está em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e ficará por lá até 08 de junho.

Mas prepare-se para a fila de espera. Ouvi pessoas que ficaram mais de 1h esperando para entrar na exposição. Exposições no CCBB normalmente fazem muito sucesso, principalmente quando trazem obras de artistas renomados.

Como estou grávida, não fiquei nem 10min na fila preferencial. É uma das vantagens, né? Se você é gestante, aproveite seus direitos. E se você é gestante e está sem nenhuma restrição (repouso absoluto, por exemplo), aproveite para ir ao cinema, teatro, museus, etc. É muito relaxante e inspirador =)

Bom, vou falar de minha relação com Picasso. O que eu sabia do pintor era o mínimo do básico: já tinha ouvido falar do Cubismo e conhecia a obra Guernica, que certamente é a obra mais conhecida do artista. Sobre Guernica, há alguns meses assisti uma aula introdutória de História da Arte e as professoras mencionaram essa obra, mostrando alguns de seus detalhes e mostraram esse vídeo fabuloso, que faz um  em 3D pela obra:

Bom, eu conhecia o básico do básico de Picasso. E não, a exposição não me tornou expert na vida e na obra do artista, mas certamente aprendi muito mais. A exposição conta com trabalhos de Picasso da década de 1920 até a década de 1960. Picasso trabalhou muito, produziu muita coisa e a exposição mostra desde esboços e estudos (há vários esboços e estudos para Guernica, por exemplo) até obras maiores, em que ele refletia sobre a pintura e a escultura. Em diversas obras Picasso mostra essa reflexão sobre seu próprio trabalho, fazendo “pinturas sobre ser pintor”. Há um nome bonito para isso, mas não me lembro rs.

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A obra acima chama-se Cabeça de Cavalo (1937) e é um dos esboços para Guernica (também de 1937). Como disse anteriormente, há na exposição um conjunto de esboços da obra mais conhecida do pintor. O quadro Guernica é enorme: 349 cm × 776 cm. Está em exposição no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid (perto da estação de metro Atocha). Guernica deve ser tão impactante quanto os painéis Guerra e Paz, de Portinari (falei dos painéis aqui, mas meu texto não está aparecendo e prometo republicá-lo). Impactante pelo tamanho da obra e pela quantidade de detalhes presentes nela. Além disso, o tema da Guerra (no caso de Guernica, a Guerra Civil Espanhola) sempre nos faz refletir sobre os horrores, sobre a dor, sobre a tristeza e sobre a importância da paz.

Bom, mas a exposição no CCBB não é só sobre Guernica. E não é só sobre Picasso. Mas antes de falar de outros expoentes das artes plásticas espanholas do século XX, vamos continuar falando de Picasso. Anotei em minha caderneta o nome das minhas obras favoritas que vi na exposição, dessa forma ficou mais fácil procurá-las para mostrar para vocês.

Gostei muito de “Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos (1939)“, pois senti a impressão que o pintor quis retratar a mulher vista de cima e de frente. Ele quer mostra todos os ângulos da imagem ao mesmo tempo, se não me engano isso é Cubismo. Pois é gente, esse blog é pura especulação de quem só aprecia as obras e não tem conhecimento técnico rs. Outra coisa que chama minha atenção é a cor do adorno da cabeça. Ele é de duas cores mesmo ou o artista também quis mostrar diferenças iluminação? Não sei, mas achei o quadro bem bonito. A mulher retratada é Marie-Thérèse Walter, uma das mulheres com quem Picasso se relacionou (ele teve umas 7 esposas, algo assim). Picasso colocou Marie-Thérèse Walter numa posição de reflexão, exaltando a beleza intelectual. Em muitos esboços e pinturas, as mulheres estão nuas. Sempre tive a impressão de que Picasso observava a beleza feminina não apenas no aspecto estético, pois as mulheres com quem ele se relacionou eram também artistas, pintoras e intelectuais.

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A presença do touro e do minotauro são também marcantes em diversos trabalhos de Picasso e muitos dos que estão na exposição do CCBB possuem esses elementos. Inclusive o tema aparece em Guernica. Durante a exposição, aprendi que o minotauro é uma espécie de alter-ego de Picasso. E ao mesmo tempo que pode representar a brutalidade, está “ao lado do povo”. Na obra Guernica, o touro aparece ao lado da mãe com a criança. Eu entendi (interpretação minha, amo arte, melhor que exatas rs) que mesmo a brutalidade do dia a dia, a “força bruta”, ficou horrorizada com a guerra.

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Como mencionei antes, Guernica não está na exposição. E além dos esboços (que se não me engano estão no 3° andar do CCBB), há um vídeo sobre a obra, mostrando imagens do bombardeio a cidade de Guernica. São imagens que sensibilizam. Há também um espaço interativo, onde com uma espécie de lanterna você pode explorar a obra, fazendo uma relação entre a obra final e seus esboços.

A presença do touro/minotauro também é presente em ilustrações lindas, onde o Minotauro aparece cego, sendo guiado por uma criança, normalmente uma menina. Se não me engano eram 3 ilustrações com o mesmo tema, sendo essa minha favorita:

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É a minha favorita porque é a única em que aparece o minotauro sendo guiado durante a noite. Mesmo uma pessoa que enxerga normalmente tem dificuldades de noite. Quando olho para esse quadro, vejo a criança como os bons sentimentos e o bom caráter, que deve nos guiar sempre. Até o minotauro (força/brutalidade) rendeu-se a essa necessidade. Como eu disse, é arte. E a gente pode interpretar como quiser (melhor que exatas rs). E não, a gente não deve ter vergonha de refletir sobre a obra, mesmo que não tenha o conhecimento técnico (como é meu caso). Acho que o que escrevo aqui é para inspirar todo mundo, para que cada um possa se inspirar e aprender a apreciar =)

A exposição também conta com obras de outros mestres espanhóis do século XX. A lista completa de artistas presentes na exposição pode ser vista aqui. Há algumas esculturas também, como a linda Mulher Laboriosa, de Ángel Ferrant. A obra é uma espécie de móbile e representa uma mulher tecendo. Essa escultura também veio do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, onde há uma sala dedicada ao escultor.

Outra escultura linda é Mujer descansando en hueco, de Pablo Gargallo. Chamou minha atenção porque onde deveria haver “volume” na escultura (se compararmos com as esculturas greco-romanas), ela está esvaziada, achatada:

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Ah sim, havia uma reprodução do Caderno de Desenhos de Joaquín Torres-García. E os visitantes podiam manusear o caderno, em que ele falava sobre a arte de desenhar. Os escritos do caderno estão em francês, mas lembro que ele dizia o quanto o artista do passado fazia esculturas e pinturas e o artista do presente fazia edifícios e pontes.

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Essa é a capa do famoso caderno de desenhos de Torres-García. Algumas páginas do interior do caderno encontram-se disponíveis aqui.

Torres-García era um cara genial. Sulamericano, nasceu no Uruguai, porém mudou-se em 1910, aos 17 anos, para a Catalunha. Foi pintor, desenhista, escultor e professor. Publicava muitos de seus desenhos em jornais e outros periódicos. A identidade sulamericana ainda continuava presente nele, bem evidente no trabalho América Invertida (1943). Esse trabalho não está na exposição do CCBB, mas ele é muito interessante, pois tem tudo a ver com um aspecto sobre os mapas que mencionei nesse post, pois questiona a orientação usual dos mapas. 640px-Joaquín_Torres_García_-_América_Invertida

Outro artista presente na exposição é Joan Miró, com seus quadros que uniam a arte ao lirismo, com o objetivo de provocar no observador sensações parecidas com a provocada pela poesia. E a obra Cabeça e Aranha (1925) é uma das principais do artista das que estão presentes na exposição:

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Trabalhos de Juan Gris também estão na exposição. A obra Arlequim com Violino (1919), foi a que mais chamou minha atenção. Aliás, enquanto estava na sala onde essa obra estava exposta, ouvi várias pessoas falarem que trata-se de arte abstrata. Não, gente! Até eu que não entendo nada de arte sei que ABSTRATO é algo que não representa objetos/coisas da nossa realidade. Quando olhamos uma obra abstrata, não dá pra saber o que é. Mas quando a gente olha Arlequim com Violino, dá pra saber o que é:

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A propósito, museus são locais interessantes. Quando a gente para e ouve as conversas por alguns instantes, é possível identificar claramente quem tem um conhecimento técnico sobre arte, quem é um mero apreciador e está aprendendo e quem quer se aparecer. Desculpe, é que ando numas de não acreditar mais no ser humano. Acho que é bem melhor a gente reconhecer que não sabe e tentar aprender do que tentar impressionar falando do que não sabe #desabafo.

 A exposição também contava com artistas do Novecentismo Espanhol, com pinturas que tentam ser bem fiéis a realidade, mas uma realidade de sonho, uma realidade misteriosa. Na parte do Novecentismo, chamou minha atenção o trabalho Os Noivos (1955), de Antonio López García. Ao mesmo tempo que os semblantes dos noivos são bem realistas (lembram inclusive uma foto antiga), o fundo é bem ‘mágico’. Há uma natureza morta bem diferente do lado da noiva, com uma melancia, um cesto, bebidas e um instrumento de cordas. Que noite eles devem ter tido rs.

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Bom, eu destaquei as obras que mais chamaram minha atenção. Se você foi à exposição e gostaria de compartilhar algo a respeito, deixe nos comentários 🙂

Agora vamos reclamar um pouco?

E é claro que não era possível fotografar nada durante a exposição. Acho que na maioria dos museus é assim. Já me disseram que o flash prejudica as obras, mas não é bem assim. E é notável que muita gente fotografando ao mesmo tempo atrapalha as pessoas que querem apreciar as obras, que estão transitando pelo museu. E no caso do CCBB, o espaço é pequeno, então imagine se todo mundo fosse fotografar.

Mas infelizmente há pessoas que ignoram os avisos e saem fotografando tudo. Era tanta gente fotografando, que em um momento na exposição que disse ao Emerson:

– Seria muito legal se houvesse um mecanismo em que a pessoa pudesse digitar o nome da obra e uma reprodução de qualidade pudesse ser copiada para o seu computador.

Bom, mas meus leitores devem estar acostumados com minha personalidade um tanto ranzinza diante dessas situações. Fiz reclamações parecidas quando fui na exposição sobre os maias (veja aqui).  Fato é que as pessoas em geral não sabem se comportar em museus e outros ambientes públicos de exposição. E outro fato é que estou ficando velha e não consigo acompanhar e entender certas coisas. Por exemplo, reza a lenda que nessa exposição do CCBB teria uma sala para tirar selfie. Não vi tal local, mas repito: uma sala para tirar selfie. Será que não estamos indo longe demais nisso de querer fazer selfie com tudo? Bom, acho que devo ficar agradecida por não ter visto nenhum pau-de-selfie durante a exposição.

A equipe do CCBB é muito antenciosa e rigorosa. Qualquer tentativa de tirar fotos das obras é logo coibida. Alguém da equipe aparece prontamente, explicando que o registro não deve ser feito. E eles aparecem também quando algum sem noção atende o celular. No tempo que fiquei lá (cerca de 3h), vários celulares tocaram. Em uma das vezes, a pessoa atendeu o celular em voz alta, fazendo o maior estardalhaço. Que falta de educação!