Nuvem iridescente em Brasília



Na última terça-feira (dia 21), alguns moradores de Brasília observaram um fenômeno lindo no céu:

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A imagem acima foi feita por Lilian de Paula e ficou bem famosa, pois foi divulgada no portal de notícias Fato Online. A Lilian me procurou pela fanpage para mostrar a foto (obrigada, Lilian!). Trata-se de uma nuvem iridescente.

As nuvens iridescentes não são um tipo especial de nuvens (como as nuvens mesosféricas ou nuvens noctilucentes): são apenas nuvens que sofreram o processo de iridescência, independentemente de sua classificação, embora o fenômeno normalmente é observado associado a nuvens Altocumulus, Cirrocumulus, Cirrus e nuvens lenticulares (Altocumulus lenticularis).

A iridescência é um fenômeno de difração, causado pelas gotículas d’água e cristais de gelo que compõe a nuvem. Cada um desses elementos desvia a luz individualmente. Em nuvens Cirrostratos, os cristais de gelo são um pouco maiores e temos um fenômeno de difração um pouco diferente, que são os halos.

Denomina-se difração o desvio sofrido pala luz ao passar por um obstáculo, com as bordas de uma fenda ou um anteparo (veja mais aqui). Nas nuvens, esse fenômeno normalmente ocorre quando a nuvem está próxima do disco solar e é mais fácil de ser visto quando o disco solar está oculto.

Para saber mais sobre o fenômeno, clique nesse post que escrevi em 2013. E no comecinho de 2015 mostrei uma linda imagem feita pela Rita, onde foi possível observar iridescência bem localizada, numa parte de uma enorme nuvem de tempestade.

Na nuvem observada em Brasília, é possível notar que o disco solar aparentemente está encoberto por algumas nuvens e a iridescência ocorreu em outra parte da nuvem (ou outra nuvem). A Lilian me mandou a foto completa, sem o zoom:

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Minha impressão é que nuvens iridescentes são fenômenos mais difíceis de serem vistos que os halos. Os halos são maiores e em um dia com poucas nuvens baixas ele é perfeitamente observável e chama muito a atenção no céu. Quando esses fenômenos são observados, noto um fenômeno curioso. No Neolítico, quando um fenômeno natural era observado, as pessoas tomavam aquilo como algo pessoal. Lembre-se que para uma pessoa daquela época, o Universo era apenas aquilo em volta dela, aquilo que ela poderia observar. Quando algo assim acontecia, as pessoas acreditavam que eram a manifestação de um Ser muito maior. E claro, com o surgimento das primeiras ‘vilas’, começaram a padronizar esse pensamento, dando nomes aos deuses responsáveis pelos fenômenos.

Atualmente nós sabemos como esses fenômenos ocorrem. Muitas vezes não compreendemos todos os pequenos detalhes envolvidos durante os processos que causam um fenômeno óptico, por exemplo. Mas podemos pesquisar, estudar e aprender. Só que vejam só que coisa: a gente (=moradores das grandes cidades) sai menos de casa ou do escritório! Muitos moradores das cidades passam 8h do dia presos dentro de escritórios. Muitos não saem nem para almoçar, já que há refeitórios na própria empresa ou solicitam comida por delivery.

Com relação aos fenômenos astronômicos, os moradores da cidade muitas vezes se esquecem da existência dos astros, pois a poluição luminosa nos impede de vê-los. Além disso, já não dependemos deles, cotidianamente falando, para conhecer o calendário ou nos localizarmos.

Quando um típico habitante de uma cidade sai ao ar livre e observa o universo ao seu redor, fica mesmerizado diante de tanta beleza. E acredito que um pouco daquele “medo pré-histórico” ainda é presente. E acho isso tão espantoso! Acontece muito comigo quando faço algum passeio ao ar livre. Essa minha percepção (não sei se está incorreta, é uma opinião mesmo) me leva a concluir que nós precisamos sair mais, observar mais o céu, as plantas e o universo ao nosso redor.