Resenha de “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz” de Marcos Bagno



O querido @silviogois me indicou um livro muito fácil e gostoso de ler, muito conhecido por profissionais de Letras ou Jornalismo. Trata-se de Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, de autoria de Marcos Bagno, tradutor, linguista e professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília.

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Apesar do livro ser bastante conhecido pelo pessoal da Letras e do Jornalismo, não é de maneira nenhuma um livro técnico, daqueles com termos pouco conhecidos por quem não é da área. Eu diria que é um livro que nos ajuda a mudar nossos paradigmas e  a abandonar velhos pensamentos e preconceitos. É um livro de “popularização da Linguística”, acho que podemos chamá-lo assim.

A capa do livro é muito interessante: trata-se dos sogros do autor, que são nordestinos e representam muito o tema do livro. Aqui na Região Sudeste é muito comum que pessoas da Região Norte e Região Nordeste sejam tratadas com preconceito, infelizmente. Até a maneira de falar português é alvo de preconceito e de ignorância. Minha família por parte de mãe é baiana e já ouvi, por ignorância e preconceito das pessoas, coisas como:

– Nossa, sua mãe não parece baiana! [A pessoa diz como se estivesse elogiando, quem é de família nordestina sabe do preconceito que estou falando]

– Nossa, sua mãe não fala como baiana! [Mais uma vez, como se fosse um elogio. E a pessoa talvez ache que o sotaque de todo o Estado da Bahia é homogêneo ou talvez ache que o sotaque da Bahia é aquele “mostrado na TV” rs]

E reparem como na TV a maneira”padrão” de falar é alguma coisa entre o sotaque de São Paulo-SP (capital) e o sotaque do Rio de Janeiro. Quem é de outras regiões do Brasil chega a fazer treinamento com fonoaudiólogos para ‘perder’ o sotaque.

Outra característica na capa do volume é o título. Em letras minúsculas, sem os dois pontos, sem o ponto final ou interrogação quando necessário. Apenas a vírgula. Tenho certeza que isso foi intencional e pode ser interpretado de diversas maneiras. Eu entendo já uma rebeldia na capa e uma ideia de que o assunto ‘não tem fim’, poderiam ser escritos vários livros sobre o tema.

O livro é dividido em 4 partes e é escrito de maneira bem leve e até divertida em alguns momentos. Há momentos em que o leitor se identifica como perpetrador do preconceito apontado, o que é bom, pois nos ajuda a refletir. Na primeira parte, o autor apresenta um conjunto de 8 mitos. Destaco o mito n°2, que é aquela velha história de que brasileiro não sabe falar português (apenas os portugueses o sabem, oras pois). Já ouvi esse mito várias vezes e infelizmente há muitos brasileiros que acreditam nisso. Eu mesma costumava acreditar nisso, até que aprendi que a língua falada não deve ser escrava da gramática. A língua falada muda, novas palavras são acrescentadas, outras entram em desuso, a cultura também muda com o tempo, etc. Por exemplo, no início do século XX éramos “colônia cultural” da França, tanto que muitas pessoas nascidas na primeira metade do século XX aprenderam francês na escola. Após as guerras, os EUA é que passaram a nos dominar culturalmente. E claro, o vocabulário foi modificando-se dependendo da época e da influência estrangeira.

Posso destacar o  mito n°8 também, pois tem um pouco a ver com minha história de vida familiar. É aquela história de que “saber falar bem” te garante ascensão social. Até parece. Não funciona dessa maneira, ainda mais numa sociedade como a brasileira, em que muitos grupos são marginalizados desde sempre.

Acho que nessa primeira parte do livro entendemos principalmente que a língua pode ser considerada um instrumento de opressão social. E vemos isso o tempo todo nas redes sociais, quando algumas pessoas pretendem oprimir outras e desmerecer suas reclamações e argumentos usando como base sua maneira de se expressar. O (suposto) domínio da norma culta também é um instrumento utilizado como muitos para transparecer uma erudição que não existe. Por isso acredito que a leitura do livro vem a calhar.

Na segunda parte do livro, o autor faz um passeio histórico pelo preconceito linguístico aqui no Brasil. A terceira parte do livro também merece destaque, já que nos ajuda a desconstruir o preconceito e é exatamente o que precisamos. A quarta parte é uma crítica aos linguistas e especialistas em gramática que lutam por uma ‘língua pura’. E também fala da língua como instrumento de comunicação, democrático, que não segue uma fórmula pura e é de todos.

Em diversos momentos o autor critica celebridades, como o Prof. Pasquale, que divulga como a língua deve ou não ser falada. Em outras palavras (usando termos bem populares), Bagno é contra as atitudes dos “cagadores de regras”, que querem homogeneizar o português falado (como se isso fosse possível). Bagno (assim como outros linguistas) defende que a língua é uma entidade viva, modificando-se ao longo dos anos. E por essa razão a gramática deve acompanhar essas mudanças. Principalmente na primeira parte, Bagno cita bastante o livro Emília no País da Gramática, de Monteiro Lobato.  Eu diria que o livro de Bagno foi inspirado no de Monteiro Lobato, de muitas maneiras =). É quase como se o livro dele fosse uma “versão para adultos” do livro que narra as aventuras de Emília e sua turma, levados pelo rinoceronte Quindim a esse estranho país. E Bagno mostra como lá na década de 1930 Lobato já tinha opiniões contundentes sobre a linguagem, considerando-a ‘viva’.

Acho que vou ser meio subversiva falando isso, mas o livro pode ser lido no Slideshare (clique aqui).  Como o livro já tem mais de 40 edições, também não acho que é difícil encontrá-lo em lojas de livros usados a preços bem em conta. Recomendo muito! O livro nos dá um “tapão”, nos ajudando a entender que muitos daqueles que criticam quem fala ou escreve errado não são sumidade em gramática. E ajuda a entender também que língua falada não deve servir a gramática. Além disso, celebra o português falado no Brasil, como um idioma que foi transformado ao longo dos anos. Nos ajuda a ter orgulho das diversas maneiras que falamos em nosso país. Nosso país é o mais populoso dentre os lusófonos. Dentre os lusófonos, também é o que exporta mais cultura para os outros países lusófonos. Basta observar o sucesso das novelas brasileiras e o sucesso de cantores como Roberto Carlos. Nos dois casos, são itens da cultura popular, nem menciono cinema e outros compositores e intérpretes. Por isso recomendo o livro para que possamos ter orgulho e conhecimento sobre nosso idioma,  o Português Brasileiro.