Tornado em Xanxerê – SC



Em 2011, escrevi o post mais comentado desse blog, que explica brevemente como os tornados se formam. Notei que o acesso a esse post aumentou nos últimos dias, claro, porque todos querem conhecer mais o fenômeno meteorológico que foi responsável por tanta destruição na cidade de Xanxerê, em Santa Catarina.

Por essa razão, vou re-escrever com mais detalhes o processo de formação do tornado. Entretanto, não deixem de consultar o post original, para dessa forma ter acesso a bibliografia citada. E no presente post também falarei brevemente do caso de Xanxerê.

Tornados forma-se em regiões onde temos contrastes entre massas de ar. O melhor exemplo (e provavelmente o mais didático) é a Alameda dos Tornados, região nos EUA onde tornados são muito comuns:

Corredor dos Tornados. Fonte: Wikimedia Commons
Corredor dos Tornados. Fonte: Wikimedia Commons

No Corredor dos Tornados, a massa de ar quente e úmido vinda do Golfo do México encontra-se com a massa de ar frio e seco vinda do Canadá. Quando a massa de ar quente e úmida sobe (formando as nuvens de tempestade) e encontra-se com a massa de ar fria e seca, o ar seco e frio é então forçado para baixo. Esse é o gatilho para a formação do tornado.

Exatamente como a coluna de ar do tornado começa a girar, não é completamente compreendido pelos cientistas. Entretanto, já foi observado que a rotação começa a ocorrer quando temos cisalhamento do vento. Cisalhamento do vento é quando o vento sopra em diferentes velocidades em diferentes alturas. Por exemplo, o vento a 300m de altura sopra a uma velocidade de 8km/h e o vento a 1500m de altura sopra a uma velocidade de 40km/h, como vemos na ilustração abaixo:

Fonte: adaptado de UCAR
Fonte: adaptado de UCAR

A partir desse momento, temos uma coluna de ar com cisalhamento. Se essa coluna de ar com cisalhamento encontrar uma área de convecção (ou seja, uma corrente de ar quente ascendente que pode formar nuvens), essa corrente de ar quente ganha energia e acelera-se. Forma-se uma tempestade muito intensa. A chuva e o granizo dessa tempestade fazem com que o funil de nuvens atinja a superfície. Quando a nuvem não está carregada o suficiente, o funil do tornado pode não atingir o solo.

Um tornado categoria F5 em Elie, Manitoba, Canadá. O tornado em sí é o estreito funil que vai da nuvem ao solo. A parte inferior deste tornado está rodeada por uma nuvem de pó translúcida, que foi levantada pelos fortes ventos do tornado na superfície. Fonte: Legenda/Imagem da Wikimedia Commons
Um tornado categoria F5 em Elie, Manitoba, Canadá. O tornado em sí é o estreito funil que vai da nuvem ao solo. A parte inferior deste tornado está rodeada por uma nuvem de pó translúcida, que foi levantada pelos fortes ventos do tornado na superfície. Fonte: Legenda/Imagem da Wikimedia Commons
Tornado em Saskatchewan, também no Canadá. Repare que este nem chegou a tocar no solo. Fonte: cbc
Tornado em Saskatchewan, também no Canadá. Repare que este nem chegou a tocar no solo. Fonte: cbc

Outro fato importante observado sobre tornados é que eles costumam acontecer em regiões bem planas, sem montanhas ou morros, que desaceleram os ventos enquanto o tornado se desloca e talvez seja esse o motivo de vermos tornados bem formados, que atingem a superfície e causam destruição em áreas mais planas.

Tornado em Xanxerê

Após um resumo muito rápido e despretensioso sobre tornados, podemos falar do tornado que ocorreu em Xanxerê. Por que ocorreu esse fenômeno por lá? Ora, pelas mesmas razões que ocorre no Corredor dos Tornados ou em qualquer outra parte do mundo também sujeita ao fenômeno: encontro de duas massas de ar com características bem contrastantes.

Mapa de Santa Catarina. Observe Xanxerê, bem no oeste do Estado. Fonte: InfoEscola
Mapa de Santa Catarina. Observe Xanxerê, bem no oeste do Estado. Fonte: InfoEscola

Os estados da Região Sul do Brasil ficam no que os meteorologistas chamam de zona com características baroclínicas. Uma região baroclínica da atmosfera é aquela em que a densidade do ar depende da temperatura e da pressão em contraste com as regiões barotrópicas, onde a densidade depende apenas da pressão. De um modo bastante geral, as regiões barotrópicas ocorrem em baixas latitudes e as regiões baroclínicas ocorrem em latitudes médias e altas (ou seja, subtrópicos e regiões polares).

Estou apenas falando esses termos mais técnicos para que aqueles que realmente desejam um conhecimento mais aprofundado de meteorologia possam aprende-los. Acho inclusive que deveria ser assim: os meios de comunicação em geral deveriam introduzir para a população termos um pouco técnicos de meteorologia. Acredito que a previsão do tempo e as informações sobre o tempo deveriam ser mais bem explicadas, apresentadas por meteorologistas mesmo. Dessa maneira a informação seria tratada com mais seriedade e importância. Quer um exemplo? Normalmente chamam economistas para falar sobre Economia. Não vejo razão para não fazer o mesmo com Meteorologia.

Enfim, em zonas baroclínicas as isotermas (linhas de mesma temperatura) estão mais próximas. Isso indica um maior contraste de temperatura na superfície. O que é diferente dos trópicos, onde precisamos ‘andar’ várias faixas de latitude para encontrar mudanças significativas na temperatura. Como exemplo e para identificar bem essa questão, veja esse mapa com linhas de mesma temperatura:

Sobre Isotermas e padrões de temperatura, leia mais aqui
Sobre Isotermas e padrões de temperatura, leia mais aqui

Quando as isotermas estão mais próximas entre si, maior a probabilidade de termos fenômenos severos, como o tornado de Xanxerê. E como dito anteriormente, a Região Sul do Brasil encontra essas condições.

Outro fato interessante sobre os tornados é que em geral eles se formam mais para o interior, mais distantes da costa. Há mais contraste de temperatura em áreas mais para o interior. Por isso as regiões norte-americanas mais sujeitas a este fenômeno estão no interior do país. Observem nos mapas como o Canadá e os Estados Unidos são bem “grandes” na direção leste-oeste. Além disso, estão em áreas baroclínicas.

Não é o caso do Brasil. A parte do nosso território que é maior na direção leste-oeste fica em áreas tropicais. A região subtropical do país fica bem na região em que a América do Sul fica menor na direção leste-oeste. No entanto, as condições baroclínicas podem favorecer a formação de tornados. E o relevo de algumas regiões do interior do sul da América do Sul também podem favorecer. Além disso, massas de ar bem contrastantes costumam se encontrar. Essas condições todas favoreceram a formação do tornado em Xanxerê, em 20 de abril de 2015, que certamente ficou para a história por ter sido o tornado mais intenso já registrado no Brasil.

Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), os ventos que formaram o tornado podem ter variado de 100 km/h até 330 km/h por volta das 15h, horário do fenômeno. De acordo com o meteorologista Mamedes Luiz Melo, do INMET de Brasília: . “Pelas características dos estragos e pela intensidade dos ventos, este deve ficar entre F2 e F3”, conforme divulgado no G1.  E para ter uma ideia dos estragos, veja essas imagens feitas com o auxílio de um drone sobre a região.

Mas o que seria essa classificação? O que é esse F2 e esse F3? Bom, há uma classificação de tornados, uma escala chamada Fujita (ou Fujita-Pearson). Essa escala leva em conta a velocidade máxima atingida pelo tornado e relaciona com a destruição causada por ele.

Tornado F1: Velocidades de vento entre 117 e 180 km/h. Até mesmo estes tornados podem levantar telhas e mover carros em movimento para fora da estrada. Trailers podem ser tombados e barracos podem desmoronar.

Tornado F2: Velocidades de vento entre 182 e 252 km/h. Os telhados de algumas casas começarão a levantar e os trailers/casas móveis que estiverem no caminho do tornado serão demolidos. Este tornado também pode soprar vagões de trem para fora de seus trilhos.

Tornado F3: Velocidades de vento entre 253 e 333 km/h. Árvores pesadas serão levantadas com raiz e tudo, e paredes e telhados de edifícios sólidos serão arrancados como palitos de fósforos. Isto é um tornado severo.

Tornado F4: Velocidades de vento entre 334 e 419 km/h. Motores de trens e caminhões de 40 toneladas serão arremessados como brinquedos. Haverá devastação total na manhã seguinte.

Tornado F5: Velocidades de vento entre 420 e 511 km/h. Tornados com esta intensidade destroem tudo em seu caminho. Os carros são arremessados como pedras para centenas de metros, e edifícios inteiros podem ser levantados do chão.

Apenas relembrando, que falei sobre a Escala Fujita nesse post sobre um tornado F2 que aconteceu em 2012, em Santa Bárbara do Sul-RS.

Algumas perguntas que as pessoas tem feito: dá para evitar? Infelizmente não, assim como todos os fenômenos naturais. Mas dá para alertar a população com antecedência. E isso só é possível com investimentos no setor: estações meteorológicas de qualidade bem distribuídas espacialmente, implantação de uma rede de radares meteorológicos, investimento na contratação e treinamento de meteorologistas e técnicos, etc. Uma rede bem estruturada, contando com o apoio de representantes de comunidade e com boas condições de comunicação (para alertar a população com antecedência), é mais do que essencial.

Nos EUA, por exemplo, há cidades que contam com um sistema de sirenes. É só tocar a sirene que a população já sabe: há chances de tornado. Para prever um tornado, os meteorologistas observam se há condições de formação e se há desenvolvimento de supercélulas. Claro que muitas vezes há condições para formação de um tornado, mas ele não se forma. Mas não é problema, uma vez que outros fenômenos que são ‘primos’ do tornado podem formar-se nas mesmas condições dos tornados e são também destrutivos, como as downburst (micro-explosões). É melhor um alerta “exagerado” do que a inexistência de um alerta, pelo menos é a minha opinião.

Esclarecer a comunidade é outro ponto essencial. Planos de contingência, explicando por exemplo onde a população deve se abrigar para buscar orientação e apoio, após a ocorrência do tornado. Esses locais podem ser igrejas, edifícios públicos, etc. Até treinamento em caso de tornado poderia ser feito em escolas, por exemplo.

O que estou mencionando aqui é a minha opinião baseada na experiência. Leio muito sobre como esse trabalho é feito nos EUA, por exemplo. E já assisti palestras de alguns funcionários super dedicados da Defesa Civil, que falam bastante sobre como agir em situações de desastre natural. Talvez eu esteja falando coisas sob o olhar do “puro bom senso”, mas acredito que precisa existir uma maior articulação entre Meteorologia e serviços públicos de atendimento a população.

Em diversas cidades de Santa Catarina, há campanhas de doação para ajudar as vítimas do tornado. Leia mais informações aqui. E como tornados são fenômenos que já foram bem mencionados aqui no Meteorópole, me lembrei de outro caso: um que ocorreu em 2013, em Taquarituba-SP. O fenômeno ocorreu em 22 de setembro de 2013 e deixou 3 mortos.

Outra pergunta que as pessoas tem feito: e isso tem relação com as mudanças climáticas? Não é correto fazer qualquer afirmação baseando-se em um único fenômeno específico, entretanto há indícios de que uma das consequências das mudanças climáticas é o aumento de fenômenos extremos (secas prolongadas e extremas, tempestades, etc). Alguns, ingenuamente, usam o argumento de que “há mais tornados e tempestades hoje, já que antigamente não falava-se tanto dessas coisas”. É uma afirmação complicada de se fazer, porque hoje em dia monitoramos mais as coisas. Só lembrar da quantidade de gente que tem um smartphone com câmera de qualidade, que pode fazer registros de fenômenos meteorológicos e suas consequências. E só lembrar também do aumento na quantidade de câmeras e outros sistemas de segurança e monitoramento, hoje disponíveis a preços bem mais baixos do que no passado e acessíveis até para uma pessoa que deseja instalar algo assim em sua casa.

De maneira análoga, os meteorologistas contam com uma rede de monitoramento também maior do que contavam no passado. Há mais radares, satélites, estações meteorológicas, etc. Dessa maneira, acabamos “vendo” mais fenômenos do que víamos no passado.

Vejam bem, não devemos nos esquecer das mudanças climáticas e das consequências que já estão acontecendo no ambiente, mas devemos ter cautela ao fazer algumas afirmações.

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Além do tornado em Xanxerê, outro fenômeno meteorológico que aconteceu por esses dias aqui no Brasil também ganhou a atenção dos meios de comunicação. Trata-se de uma tromba d’água que aconteceu em Parintins, no Amazonas. O fenômeno ocorreu em 21/04/2015. A imagem é impressionante, mas felizmente o fenômeno não ocasionou nenhum dano pessoal ou material:

Tromba d'água que ocorreu no último dia 21, em Parintins. Fonte: G1
Tromba d’água que ocorreu no último dia 21, em Parintins. Fonte: G1

As trombas d’água são fenômenos bem mais comuns do que os tornados, aqui no Brasil. São fenômenos muito parecidos, que formam-se a partir de nuvens de tempestade. Em 2012, uma tromba d’água aconteceu em São Sebastião-SP (leia mais aqui).