A “Cientista” Grávida – Acompanhamento pelo SUS em São Paulo-SP (episódio 16)



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Dependendo do bairro e dependendo do posto de saúde (ou Unidade Básica de Saúde), o acompanhamento da gestação pelo SUS pode ser muito bom. E volto a dizer: muito bom mesmo.

Fui atendida por uma médica em uma UBS e ela foi tão legal, profissional e humana que eu fiquei maravilhada. Muito, mas muito melhor do que muitos médicos do convênio. Bom, é bem simples entender o que acontece: os convênios pagam muito pouco por consulta. Dessa forma, o médico que atende pelo convênio marca um monte de paciente no mesmo dia.

Antes de ficar grávida, eu costumava ir a uma ginecologista, a Dra. A. Ela falava comigo e preenchia a guia do convênio médico em cerca de 5-10min. Não dava tempo de conversar, explicar eventuais incômodos ou coisas assim. Eu observava que no consultório dela havia muitas pessoas e calculo que das 8h-11h de uma manhã qualquer ela chegava a atender umas 20 pessoas. Era uma loucura! A médica mal dava atenção para suas pacientes.

E mais ou menos o mesmo ocorre com a GO que me atende pelo convênio. Como uma consulta de pré-natal dura mais do que uma consulta ginecológica de rotina, deduzo que ela “gasta” cerca de 15min por paciente, desde que a paciente não faça muitas perguntas e esteja com uma gravidez tranquila. Fica uma coisa meio mecânica, perde todo atendimento humanizado. E hoje em dia fala-se muito em parto humanizado, as discussões nesse sentido são muito importantes para garantir para a mulher uma gestação e um parto tranquilo. Só que eu digo mais: o atendimento médico de um modo geral, em todas as especialidades, deveria ser mais humanizado.  E não vemos isso em consultas de rotina nos convênios (há raras exceções, claro)!

Achei o atendimento médico da UBS bem mais humanizado. Até as recepcionistas e técnicas de enfermagem são mais atenciosas e gentis. Fui tomar algumas vacinas na UBS e a técnica me atendeu com uma enorme paciência, tendo calma na manipulação das vacinas e nas anotações em minha carteirinha de vacinação. Por outro lado, a médica do convênio anota as coisas na minha carteirinha de gestante de qualquer jeito, com letra incompreensível, sem respeitar linhas/colunas.

Ok, vai ter gente que vai ler o parágrafo anterior e vai dizer: ah, mas você é chata demais, Samantha, que frescura. Queridos leitores, trabalho com dados científicos que são anotados em cadernetas e formulários desde 1933. Esses dados são anotados cuidadosamente. Durante o treinamento dos técnicos do meu trabalho, a gente inclusive avalia a caligrafia deles. Porque o dado científico anotado por uma pessoa será consultado por outras pessoas. Imagine lidar com um 4 que parece um 9? Pois então, não vejo esse cuidado por parte de minha médica e isso me incomoda muito!

A médica da UBS é mais cuidadosa até nas anotações. Ela conversou comigo e explicou coisas de maneira bem simples e sem ser condescendente. Passei por uma situação ridícula de condescendência por parte de um médico que fez meu ultrassom recentemente. Detesto ser tratada dessa forma, mas só nos resta ignorar e seguir em frente.

Diante dessas situações que vivi, concluí algo (claro, que é de acordo com minhas observações): se você quiser um atendimento top, muito bom, excelente e até exagerado no puxa-saquismo, pague. O médico ganha muito mais numa consulta particular do que numa consulta de convênio. Alguns convênios inclusive oferecem re-embolso (nem sempre integral) de consultas particulares. Entretanto, não é todo mundo que pode ou quer pagar. Eu por exemplo: acho que pagar por uma consulta é um absurdo, uma vez que tenho direito a todas as especialidades na rede pública e no convênio que pago mensalmente.

E tenho a impressão que “médicos renomados”  nem atendem pelos convênios: atendem apenas na rede particular. E muitos médicos muito bons também atuam no SUS, pelo o que observo. E para atuar no SUS o médico precisa ser concursado, ou seja, há um diferencial pois o profissional precisou estudar para passar em um concurso.

Pelo menos aqui em São Paulo-SP, chego a uma conclusão: em alguns casos, o SUS pode ser muito melhor do que o convênio! É bom pagar convênio, claro, porque considero importante termos as duas opções. Mas vale a pena procurar uma UBS perto de sua casa e para isso é necessário:

– Levar seu RG ou outro documento de identificação;

– Levar um comprovante de residência.

Ah sim, você tem que se consultar na UBS próxima de sua casa, pelo menos com relação a consultas consideradas de rotina, como o pré-natal. Pelo próprio CEP da residência, a atendente vai te dizer se aquela é a UBS indicada. Em caso de emergências e vacinação, você pode ir em qualquer UBS ou hospital do SUS. Mas para fazer a carteirinha e procurar médicos especialistas, tem que ser na UBS próxima de sua casa.

Sei que o SUS não é perfeito. O convênio também não é perfeito. Temos que reclamar e sempre lutar por melhorias nas duas redes, mas podemos enquanto isso aproveitar o bom de cada uma delas.

Outra coisa que observei: o bom dos convênios (pelo menos do meu convênio) é a rede de laboratórios. Você consegue marcar vários exames com uma rapidez muito maior do que conseguiria se fosse pela rede pública. Ou seja, se a gente for comprar SUS e Convênios, vamos encontrar pontos bons e pontos negativos em cada um.

E como outro exemplo: meu convênio atende bons hospitais e as acomodações das quais tenho direito são muito boas. Por outro lado, fico desanimada com a cultura cesarista dos convênios. Há hospitais da rede pública que são hospitais de referência e que costumam realizar cesáreas apenas quando não há outra maneira. No entanto, as acomodações após o parto não são boas em muitos desses hospitais. Dessa forma, estou em um dilema: arriscar em um hospital do convênio, correndo o risco de uma cesárea desnecessária, porém tendo a possibilidade de uma boa acomodação ou ir para um hospital público, correndo o risco de não ter uma boa acomodação?

Ainda não sei o que escolher. Acho que vou optar pelo hospital do convênio, porque a gente acaba ficando bastante tempo no hospital. No Brasil, o tempo mínimo é 48h, o que considero desnecessário para o caso de uma mãe e um bebê saudáveis. Muita gente aqui no Brasil ficou surpresa com a Kate Middleton, que teve o bebê e rapidamente deixou a maternidade. Lá no Reino Unido, os cuidados pós-parto são feitos na casa da nova mamãe. Uma enfermeira é designada para ir até a casa e verificar a saúde da mamãe e do bebê. Eu acredito que deveria ser assim aqui também, imagine o que se economizaria em acomodações! Outra lição dada por Lady Kate é a ausência de ‘medo’ de passar das 40 semanas. Realmente, não há o que temer. Vou escrever um post sobre tempo de gravidez, aguardem =)

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E acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui. Espero que essa série ajude outras gestantes e permita troca de experiências.