A importância de estudarmos o clima



Como o blog já existe desde setembro de 2011, alguns tópicos acabam se repetindo. É normal, já que falo tanto de minha profissão e de Meteorologia por aqui. Hoje vou mais uma vez falar sobre o estudo do clima. Para isso, preciso falar sobre a diferença entre as palavras tempo e clima.

De maneira bem simples, tempo é o que está acontecendo na atmosfera em qualquer momento. Já o clima corresponde ao “tempo médio”, ou como foi muito bem definido nesse link do INMET: “descrição estatística em termos de média e variabilidade de quantidades relevantes durante determinado período de tempo”. Dessa forma, para eu conhecer o clima de uma região, preciso fazer medições sistemáticas ao longo de muitos anos no mesmo lugar. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) recomenda que o período mínimo é de 30 anos para que conheçamos o clima daquela região.

Costumo dizer que uma pessoa que mora há muitos anos no mesmo local pode conhecer o clima daquela região. Esse morador antigo poderá contar qual é o período mais chuvoso do ano. Poderá também contar como era no passado. Por exemplo, moradores antigos da cidade de São Paulo costumam contar que antes havia mais nevoeiro e mais dias frios, indiciando aí algumas características que podem estar relacionadas com as mudanças climáticas. Claro que apenas o testemunho de moradores antigos não é o suficiente para escrever um artigo científico, por exemplo. O conhecimento qualitativo é importante, mas para a ciência é importante que haja dados: ou seja, é importante ter o quantitativo. Por exemplo, em um post recente, falei da importância das medições de precipitação.

Quando eu era criança, gostava muito de folhear atlas geográficos. Inclusive falei um pouco dessa mania nesse post. Lembro de ficar encantada com mapas que indicavam os principais climas do planeta. Havia também mapas com os ventos médios, temperatura média, correntes oceânicas, vegetação, etc. Esses mapas todos tem relação com os mapas que contém a classificação do clima usando siglas. A classificação mais famosa é o Sistema de Köppen-Geiger:

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Falei um pouco sobre esse mapa e sobre esse sistema de classificação nesse post. De acordo com a classificação do sistema Köppen-Geiger, o Sul , o Sudeste e o sul da Região Centro-Oeste do Brasil possui climas dos tipos Cw[a-c] ou do tipo Cf[a-c]. Essas siglas correspondem a variantes do  Clima Subtropical e variantes do chamado Clima Oceânico. O próprio Clima Subtropical vai depender se trata-se de um subtropical com chuva bem distribuída o ano todo (sul do Rio Grande do Sul)  ou de outra variante em que o inverno é seco (São Paulo-SP).

O semi-árido brasileiro varia entre BWh (observem que é a mesma cor da região do Deserto do Saara e do Deserto Australiano) e BSh (clima típico do Sahel, sul do Deserto do Saara, por exemplo). O BWh é o típico Clima Desértico. Ou seja, de acordo com a classificação de Köppen-Geiger temos aqui no Brasil uma pequena área no interior da Região Nordeste com clima igual ao de deserto. Já o BSh significa Clima Semi-Áridoque corresponde a maior parte do que chamamos de polígono das secas. No Semi-Árido, o total anual de chuva fica entre 200mm-400mm, que é mal distribuído ao longo do ano. Para vocês terem uma idéia, em São Paulo-SP chove aproximadamente 1300mm por ano em em regiões da Amazônia Ocidental chove mais de 3000mm por ano.

No restante do país, em áreas que compreendem boa parte da Região Nordeste, Região Centro-Oeste e Região Norte, temos as cores azuis que variam entre os seguintes climas:

– Af – Clima equatorial (azul mais escuro): clima das zonas geográficas caracterizadas pela elevada temperatura média do ar (entre 24º C e 27°C) e com média mensal sempre superior a 18°C. Também é caracterizado pela alta pluviosidade (superior 2000 mm de precipitação total anual e precipitação média mensal superior a 60 mm em todos os meses do ano). É isso o que a gente observa no noroeste da Região Norte, por exemplo.

– Am – Clima de monções: a palavra monção, em árabe, significa estação. O clima de monções é caracterizado principalmente por uma estação chuvosa bem marcada. Além do calor, há a estação seca e a estação chuvosa bem marcadas. A mudança sazonal no regime dos ventos onde há clima de monções é a responsável por essa característica.

– Aw ou As: Clima tropical com estação seca. Ou clima de savana, já que é o clima típico nas savanas africanas. Aqui no Brasil, temos um equivalente das savanas: o cerrado. Inclusive se vocês forem procurar material em inglês sobre o cerrado brasileiro, certamente encontrarão como tradução a palavra savana.

Como vocês podem perceber, muitos itens da classificação climática de Köppen-Geiger são meio “parecidos”. Isso porque as siglas tentam contemplar as variações sutis que existem entre regiões relativamente próximas. Outro fato a se observar é que talvez nem todas as variações devido a altitude estejam contempladas no mapa acima e elas são extremamente importantes. E nem falo da presença de grandes montanhas. No litoral de São Paulo e do Paraná, por exemplo. Quem mora em Santos ou Paranaguá e vai com frequência a São Paulo ou Curitiba sabe que os climas entre cidades relativamente próximas podem ser muito diferentes em decorrência da altitude. E nesses casos mencionados, a altitude varia no máximo em 1ooom entre as cidades de São Paulo e Santos ou Curitiba e Paranaguá.

Na minha opinião, a principal importância em se estudar o clima de uma região está na questão do zoneamento agroclimático. Com o zoneamento agroclimático, estuda-se a possibilidade de implantar uma determinado cultivo em uma região. Determina-se se o risco é baixo, médio ou alto para aquele cultivo. Por exemplo, o café é um cultivo sensível a geada. Determinando-se quais os locais onde há risco maior de ocorrer geada, é possível orientar agricultores e evitar que um cultivo errado seja escolhido para uma região. Dessa forma o agricultor não perde dinheiro e a produção de alimentos fica garantida.

Cada cultivo depende também de uma certa disponibilidade hídrica. Dessa forma, escolhe-se cultivos que aproveitam melhor a água da chuva já disponível para aquele lugar, minimizando o uso de água de irrigação. Dessa forma, ajuda-se a garantir a segurança hídrica e a segurança alimentar. Como exemplo, temos o zoneamento agroclimático do feijão, que vi nesse link da Embrapa:

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Notamos por exemplo que em boa parte de Minas Gerais e em praticamente toda a Bahia, o cultivo do feijão não é indicado, porque há pouca disponibilidade hídrica. Claro que os agricultores produzem feijão mesmo nas regiões de alto risco, muitas vezes para fins de agricultura familiar. Para evitar perdas, utiliza-se variáveis mais resistentes a seca. Ou seja, o zoneamento agroclimático também ajuda no desenvolvimento de variáveis mais resistentes daquele mesmo cultivo.

Podemos dizer também que estudar o clima é importante para coisas menos importantes que a produção de alimentos, mas que tem uma grande importância econômica também. Por exemplo, planejar férias, planejar a construção de resorts e de áreas para lazer. Outro exemplo interessante de citar é o planejamento das cidades de modo geral. Regiões de climas mais frios necessitam de aquecimento em prédios públicos, por exemplo.

Até mesmo a indústria vale-se de informações climáticas. Vamos pensar em uma empresa que fabrica aviões ou foguetes, por exemplo. Muitos dos equipamentos eletrônicos são extremamente sensíveis a umidade extrema. Desse modo, é muito provável que as áreas mais indicadas para esse tipo de industria são regiões um pouco mais áridas.

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Sempre que possível, vou fazer essas retrospectivas de posts antigos, sempre inserindo informações e links mais recentes. Na minha opinião, é uma excelente forma de revisar e ampliar o conteúdo aqui do blog.

E como sempre, se vocês tiverem dúvidas ou sugestões, deixem aqui nos comentários!