Aprendendo sobre xilogravura + dica de exposição!



A xilogravura é uma técnica de gravura onde utiliza-se a madeira como matriz. Em palavras bem samanthescas, é como se a madeira fizesse o papel de um carimbo. E quando criança, eu amava carimbos! Na verdade tenho um carimbo do Keropi e outro da Hello Kitty em minha mesa, mas ninguém precisa saber disso rs.

Por gostar de carimbos, fiquei encantada quando vi as xilogravuras pela primeira vez. Acho que eu estava no início da adolescência e uma queria professora de português falou sobre Literatura de Cordel. Quando ela mostrou os livrinhos, explicou que as capas eram feitas através do processo de xilogravura.

E por falar em Literatura de Cordel, sempre recomendo os trabalhos da Jarid Arraes. Ela escreve cordéis com temática feminista, até quando fala de sua própria biografia. Fala também do racismo e do preconceito contra homossexuais. E se você gosta de cordel, quer conhecer, trabalha em uma escola ou está coordenando algum projeto, recomendo que adquiram os cordéis da Jarid para sua biblioteca, porque a escrita é deliciosa e porque o conteúdo é maravilhoso.

Depois de ter feito propaganda merecida para a amiga, vamos continuar falando da xilogravura. O uso da xilogravura na Literatura de Cordel é provavelmente o mais conhecido, porque faz parte da cultura nacional. Mas a xilogravura é uma técnica muito antiga, conhecida provavelmente desde o século VI. Está presente na história da arte do Japão, da China e de diversos países da Europa. No século XIX, era uma técnica muito usada para imprimir rótulos de produtos, por exemplo.

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Xilogravura do século XIX, do artista japonês Katsushika Hokusai. Chama-se A Grande Onda de Kanagawa e a mencionei nesse post. Fonte: Wikimedia Commons

É uma técnica muito barata de gravura, já que é possível realizar lindos trabalhos com pedaços pequenos de madeira. As ferramentas para “entalhar” a madeira também são baratas e podem ser até improvisadas ou fabricadas em pequenas oficinas. Artistas muito famosos utilizaram xilogravura em suas obras. Picasso e Edvard Munch são exemplos de artistas muito renomados que utilizaram a técnica em alguns de seus trabalhos.

O Beijo IV, de Edward Munch (1902)
O Beijo IV, de Edward Munch (1902)

É interessante notar no trabalho acima que Munch deixou as ranhuras naturais da madeira. Há trabalhos em que o artista lixa a madeira até ela ficar mais lisa, para minimizar esse efeito. Claro que lixar ou não vai do conceito e da ideia de cada artista. E para ver mais trabalhos de xilogravuras (woodcuts) de Edvard Munch, clique nessa galeria.

No Brasil, os xilogravuristas mais conhecidos são também cordelistas ou estão muito envolvidos nessa cultura. Um dos nomes mais famosos é o Mestre Dila, por exemplo.

E recentemente eu descobri que existe um museu dedicado a Xilogravura, que funciona lá em Campos do Jordão-SP desde 1897. É o Museu Casa da Xilogravura. O Museu foi fundado por Antonio F. Costella, professor aposentado da ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP. Até hoje o Prof. Antonio atua na direção do museu e é proprietário do imóvel onde o museu está instalado. Ele deixou documentado em um testamento, para que o acervo e o imóvel sejam doados para a USP no futuro. O Professor Antonio F. Costella escreveu diversos livros sobre o tema, todos lançados pela Editora Mantiqueira, também fundada por ele. Os lucros na venda dos livros são utilizados na manutenção do museu. E lendo a biografia do Prof. Antonio, vi que ele também é escritor de ficção. Escreveu uma série de livros em que o narrador é o seu cachorro Chiquinho, durante uma viagem a Europa. Fiquei ainda mais curiosa sobre esse professor, que publicou diversos obras de literatura infantil. E achei tão fofa uma das condições do testamento: a USP será proprietária do imóvel e do acervo do Museu Casa da Xilogravura desde que respeite o túmulo do cachorro Chiquinho, localizado nos jardins da propriedade. Caso contrário, o imóvel pertencerá a UNITAU. Não sei se é lenda ou se é verdade, mas achei a condição do testamento muito fofinha <3.

Infelizmente ainda não conheço o museu pessoalmente, mas assim que eu for fazer um passeio em Campos do Jordão, pretendo colocar o museu em meu itinerário. Mas enquanto isso não acontece, me delicio com a exposição Uma Casa Para a Xilogravura, em cartaz no Parque CienTec. A exposição consiste em painéis que divulgam a arte da xilogravura, mostrando quais são as principais técnicas, quais ferramentas são utilizadas e contando um pouco da história desta técnica. A exposição é uma divulgação do Museu Casa da Xilogravura, despertando no visitante da exposição a curiosidade em conhecer o Museu.

Na exposição do CienTec, há inclusive a possibilidade de se participar de uma pequena oficina sobre xilogravura. Essa oficina é bem simples, mostra a impressão a partir de matrizes já existentes. É muito interessante, mas é mais voltada para crianças. Ou seja, na oficina não se ensina a entalhar a madeira, por exemplo.

A exposição é bem pequena, você consegue participar da visita e da oficina em cerca de 1h. Ela seria mais completa se contasse com exemplares da arte da xilogravura, com material sobre Literatura de Cordel, por exemplo. Acho que isso deixaria o público mais curioso, além disso iríamos compreender melhor o processo de escolha da madeira, entalhe, impressão e exposição do trabalho.

Um destaque na exposição são os livros da Editora Mantiqueira, quase todos escritos pelo Prof. Antonio F. Costella. Os livros estão presentes na exposição para que o leitor possa conhecer mais sobre a arte e há um volume maravilhoso que incentiva o leitor a criar sua própria xilogravura. É o livro Xilogravura – Manual Prático. Pesquisei no site da Livraria Cultura e diz que está esgotado =(. Mas encontrei em sebos e pelo Mercado Livre. E talvez entrando em contato com a Editora, seja possível adquiri-lo. Esse livro é muito bacana, porque explica de forma prática e muito clara sobre as principais técnicas de xilogravura, fala dos passos iniciais necessários para começar a produzir xilogravura, etc. Percebo que qualquer pessoa dotada de talento e criatividade pode trabalhar com xilogravura e acho que foi exatamente isso que o autor pretendia ao escrever esse manual prático.

Para conhecer a exposição do CienTec, veja mais informações aqui. E para conhecer o Museu Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão, veja mais informações aqui.