Padrões de temperatura na superfície: como são?



Padrões de temperatura do ar na superfície são muito estudados em Climatologia. Eu diria que é uma das primeiras variáveis estudadas no curso de Climatologia. Aqui eu preciso deixar claro que fiz o curso de Climatologia para Meteorologia, que é um pouco diferente do curso ministrado para Geógrafos. Vou falar algo aqui e espero que não seja mal interpretado, pois não sou dessas que acham que “exatas é melhor do que humanas” ou qualquer comparação sem fundamento do tipo. Geógrafos atém-se a classificações climáticas, nomes, ao aspecto qualitativo. Claro que é importante. Tem que dar ‘nomes aos bois’ para melhor descrever o clima de um local. Na Climatologia que estudamos em Meteorologia, o curso é mais quantitativo. Bom, são maneiras diferentes de abordar o mesmo tema e eu pessoalmente acredito que as duas maneiras se completam.

Estudando os padrões de temperatura do ar na superfície do planeta todo podemos entender como eles tem relação com outras variáveis. Por exemplo, podemos ver a dependência com a intensidade de insolação na região (que depende da época do ano) e podemos também notar que as isotermas se modificam dependendo da presença de “massas d’água” (oceanos, grandes lagos, etc). Descobrimos, por exemplo, que lugares localizados perto de grandes massas de água tendem a ter temperaturas mais moderadas do que as mais para o interior.

Isotérmicas ou isotermas são linhas conectando os pontos iguais de temperatura do ar e são usados ​​para mapear o padrão geográfico da temperatura sobre a superfície da terra. O espaçamento das isotérmicas mostram o gradiente de temperatura através de uma porção da superfície da Terra. Isotérmicas espaçadas amplamente (linha AB na figura abaixo) indicam uma pequena mudança na temperatura ao longo de distância e isotérmicas espaçados (CD linha na figura abaixo) indicam grandes variações de temperatura.

Fonte: NOAA/EarthOnlineMedia
Fonte: NOAA/EarthOnlineMedia

Essa é uma das maneiras que identificamos regiões barotrópicas e regiões baroclínicas, conforme discuti nesse post. Mas eu precisaria escrever um post mais elaborado para discutir essas definições. A forma de isotérmicas como elas aparecem no mapa são influenciadas pela distribuição de grandes massas de terra e corpos d’água e da época do ano.

Para discutirmos os padrões das isotermas, vamos considerar dois meses do ano bem específicos, porque dessa forma vamos conseguir acompanhar bem o ciclo anual (estações do ano) e suas consequentes variações nos padrões.

Figura a): Temperatura média para o mês de Janeiro, usando dados dos meses de Janeiro de 1968 até 1996. Para fazer essa figura, foram usados dados das reanálises do NCEP/NCAR;

Figura b): Temperatura média para o mês de Julho, usando dados dos meses de Janeiro de 1968 até 1996. Para fazer essa figura, foram usados dados das reanalises do NCEP/NCAR.

Veja por exemplo a isoterma de 10°C do Hemisfério Norte no mês de Janeiro (Figura a)). Durante janeiro, inverno no Hemisfério Norte e verão no Hemisfério Sul, a água fica mais quente do que a terra no Hemisfério Norte fazendo com que a isoterma de 10°C se desloque para sul. Já em Julho ( Figura b)), verão no Hemisfério Norte e inverno no Hemisfério Sul, a isotérmica de 10°C se desloca para o norte e nessa situação, a água fica mais fria do que a terra no Hemisfério Norte.

Essa diferença entre o aquecimento da água e da terra deve-se a capacidade térmica  de cada uma dessas substâncias. A água demora mais para aquecer e permanece quente por mais tempo do que a terra. Por exemplo, quando observamos uma piscina ao longo de um dia. Quando a temperatura do solo está em seu valor mais alto do dia (por volta das 12h-13h), a água ainda não esquentou. Conforme a tarde avança, por volta das 17h, o solo já refriou, mas a água da piscina está mais “quentinha” e agradável para um mergulho. Nos oceanos acontece algo bem parecido, se consideramos o ciclo de um ano todo. A água do mar fica mais quente no final do verão e no início do outono, ou seja, depois das temperaturas mais altas da superfície (que acontecem mais ou menos no início e em meados do verão).

Como exemplo do que eu disse acima, basta lembrarmos que o pico da temporada de furacões no Caribe ocorre em Setembro, período que já é outono no Hemisfério Norte. Para que os furacões se formem e se desenvolvam, é necessário que a temperatura dos oceanos esteja mais quente (mais ou menos acima de 27°C).

Outra característica interessante a ser notada nos mapas com isotermas é a continentalidade. Repare que há mais água do que terra no Hemisfério Sul. O resultado disso (e fica bem claro quando observamos os oceanos ao sul da Austrália, África e América do Sul) são isotermas mais paralelas, sem as perturbações que ocorrem sobre os continentes. Essas “perturbações” que ocorrem sobre os continentes é resultado dos diferentes tipos de solos (urbanizado, floresta, deserto, presença de rios caudalosos e lagos grandes, presença de cobertura de gelo em quantidades variáveis etc). Quando a região é coberta só por água, o resultado é mais homogêneo.

Agora observe o interior da Austrália, que é uma região bem desértica. No mapa de isotermas de Janeiro (Figura a)), temos uma isoterma de 30°C, pois facilmente a temperatura média da superfície ultrapassa esse valor no verão dessa região. Por outro lado, quando observamos as isotermas em Julho (Figura b)), as temperaturas estão bem menores, com isotermas de 10°C a 20°C.

Outro ponto que podemos observar nos mapas de isotermas é como na região próxima a linha do Equador as temperaturas variam bem menos do que nas áreas subtropicais e polares (observe como a variação é pequena entre a Figura a) e a Figura b)). Isso ocorre porque devido a inclinação do eixo terrestre, temos a ocorrência das estações do ano. Em Janeiro, o Hemisfério Norte recebe menos radiação do que o Hemisfério Sul e em Julho, o oposto ocorre. Para a região equatorial, não há tanta diferença, pois essa recebe uma quantidade bem parecida de radiação solar ao longo de todo o ano. Dessa forma, as estações do ano são bem mais “marcadas” nos subtrópicos do que na região tropical (leia mais aqui). E claro, nas regiões polares, embora a temperatura fique mais amena dependendo da época do ano, não vai ficar completamente quente do jeito que estamos acostumados aqui nos trópicos, porém observe que em Janeiro (Figura a)) é bem frio na região vizinha ao Pólo Norte, com isotermas de -30°C, enquanto em Julho (Figura b)) as isotermas na região possuem temperaturas mais altas, com isotermas de 10°C em regiões onde antes havia as de -30°C.

 

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Figura a): Temperatura média do ar para todos os meses de Janeiro de 1968 até 1996.
Figura a): Temperatura média do ar para todos os meses de Julho de 1968 até 1996.
Figura b): Temperatura média do ar para todos os meses de Julho de 1968 até 1996.

Repare também a região no nordeste da Índia. As isotérmicas são quase “concêntricas”, tanto na Figura a) quanto na Figura b). Isso deve-se a presença da influência marcante da altitude: nessa região fica o Himalaia. Repare também na variação marcante de temperatura entre verão (Figura a)) e inverno (Figura b)) na região da Península Arábica e no Saara. A região é dominada por desertos, que se aquecem muito mais no verão do que no inverno.

Há muitas outras características que podemos destacar em mapas de isotérmicas.Procurei falar das principais (e certamente esqueci de alguma coisa). O objetivo desse post é realmente destacar a quantidade de informações que podemos extrair desses mapas. Além disso, apresento uma sugestão aos professores de geografia: mapas como esses podem ser usados em atividades, para que os alunos aprendam a destacar algumas feições geográficas (como desertos e cordilheiras) a partir deles, por exemplo.

Esse post foi inspirado nesse texto da Earth Online Media.