A “Cientista” Grávida – O sonar (episódio 19)



Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

Lembram que ontem falei sobre duas pérolas ditas por uma médica? Então, a primeira delas era com relação a duração da gestação e escrevi sobre ela (nesse post).  E a segunda era com relação ao sonar, aparelho que mede os batimentos fetais durante todas as consultas pré-natal. Hoje vamos falar do sonar, detector fetal ou fetal doppler.

A palavra SONAR significa  Sound Navigation and Ranging ou “Navegação e Determinação da Distância pelo Som”. Ou seja, o sonar, assim como o aparelho de ultrassom, usa o som em uma frequência que não escutamos para detectar o feto. Mas antes de falar isso, vou contar o que aconteceu na consulta da médica.

O consultório dessa médica fica numa área próxima a um aeroporto. E todas as vezes que ela vai tentar escutar o coração do meu filho, ela tem dificuldades. Ela diz que é por conta do radar do aeroporto, pois o radar do aeroporto interfere com o ultrassom(?).

Quem é mãe ou já acompanhou alguém em uma consulta pré-natal sabe de qual aparelhinho estou falando. Ele é portátil e vem em diversas apresentações. A mais comum é algo mais ou menos assim:

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Sim: vende no DX! Não sei se é bom…

Funciona assim: a médica ou enfermeira passa um gel em sua barriga, para deslizar melhor. Em seguida, ela passa esse “microfone” na barriga até captar os batimentos cardíacos fetais. Quando capta, é possível identificar a frequência dos batimentos cardíacos fetais. Claro que isso deixa qualquer mãe mais tranquila e exclui muitos problemas sérios da gestação. Então esse procedimento é feito em toda consulta pré-natal. Há consultórios mais “chiques” que dispõe de um ultrassom, que é um aparelho bem mais caro do que o sonar. Li que no Japão, por exemplo, o ultrassom é usado em todas as consultas pré-natal. Quem sabe um dia o ultrassom fique mais popularizado e mais barato por aqui. Enquanto isso não acontece, continuarão usando o sonar em consultas de rotina e o ultrassom apenas sob pedido médico.

O sonar envia ondas sonoras de alta frequência que passam através de seus tecidos e dos tecidos do bebê. Quando as ondas encontram movimento, tais como batimento cardíaco do seu bebê, eles retornam  o dispositivo. O dispositivo, em seguida, traduz o movimento em som audível pelos humanos, que amplifica a máquina para que você possa ouvi-lo.Para a gente entender melhor esse funcionamento, veja abaixo o espectro das ondas sonoras. Falei disso no post sobre ultrassons (veja aqui).

Os ultrassons são sons em alta-frequência e os infrassons são sons em baixa frequência. A gama audível consiste na faixa em que nós, humanos, podemos escutar. Fonte da imagem

E por falar em ultrassom, o sonar funciona de maneira muito parecida com o ultrassom, porque ambos utilizam ondas sonoras de alta frequência. A diferença é que o ultrassom produz imagens. A máquina de ultrassom também emite pulsos sonoros de alta freqüência para o interior do corpo da gestante. Essas ondas de ultrassom vão se deslocando pelo corpo e atingindo os limites entre os tecidos. Atravessam  a pele, o músculo, a gordura, chegam no útero, atingem partes do corpinho do bebê que são ósseas e outras partes que são moles, etc. Parte das ondas é refletida (eco) quando atingem um “obstáculo” (o crânio do bebê, por exemplo). Outra parte continua se deslocando até atingir outros obstáculos e então serem refletidas também. Essas ondas que são refletidas são captadas pelo aparelho de ultrassom e as informações são interpretadas pelo computador.  A máquina calcula o tempo de retorno de cada eco. Cada tempo de retorno está associado a um tipo de tecido e dessa forma o computador cria a imagem do bebê.

O sonar da foto que mostrei, por exemplo, de acordo com as especificações, opera em 2,0MHz. Acredito que os sonares em geral operam em frequências muito próximas a essa. Isso dá 2.000.000 Hz! Como comparação, a frequência audível nos humanos vai entre as frequências de 20Hz e 20.000Hz. É por isso que a gente não ouve a onda sonora emitida pelo sonar, ouve apenas o retorno dessa onda (na verdade, o aparelho “converte” a onda retornada numa faixa de frequência que a gente consegue ouvir).

E o radar do aeroporto? Radar significa Radio Detection And Ranging (Detecção e Telemetria pelo Rádio). Ou seja, o radar utilizar ondas de rádio e/ou microondas, que são uma região do espectro eletromagnético:

Radares são usados em aeroportos, para controlar o tráfego aéreo. Para verificar o posicionamento das aeronaves, por exemplo. Mas a comunicação entre os controladores na torre e os pilotos nas aeronaves também é feita usando ondas de rádio, mas de uma frequência um pouco mais baixa. Veja na imagem acima, por exemplo. Na região das “Microondas”, há uma região tipicamente usadas pelos radares. Em frequências mais baixas, temos as ondas de rádio (UHF, VHF, ondas curtas, médias e longas). Essas são as ondas usadas na transmissão das emissoras de rádio, por exemplo. Mas há faixas de frequência bem definidas e separadas para outros fins: radioamadorismo, comunicação policial e comunicação de aeroportos. Por isso rádios piratas podem ser tão prejudiciais: elas podem ocupar frequências inapropriadas, atrapalhando a comunicação dos aeroportos, por exemplo.

Acontece que a parte eletrônica do sonar pode, em algumas situações, funcionar como um receptor dessas ondas de rádio. Então o trabalho de escutar os batimentos fetais pode ficar prejudicado. E acredito que foi isso o que a médica quis dizer, quando disse que as ondas de rádio atrapalham no sonar. Mas as ondas de rádio não atrapalham a propagação da onda de som! O que acontece é que o aparelho pode captar algumas ondas de rádio.

Usar o sonar é bem complicado e exige muito treino, já que com o ultrassom podemos captar outros  movimentos do corpo humano. É fácil, por exemplo, pegar o som de sangue que flui através da placenta ou os movimentos do corpo da mãe. Uma enfermeira ou médica treinada podem identificar esses problemas, mas uma pessoa comum que simplesmente compra um aparelho talvez tenha dificuldade em usá-lo. E ao invés de tranquilizar a mãe, ele vai deixá-la ainda mais ansiosa!

E o uso do sonar é seguro? Aparentemente, é sim. Nenhuma pesquisa mostrou que o ultrassom ou o sonar  fazem mal para a mãe ou para o bebê. No caso do sonar, acho que o único problema é o que mencionei acima: pela falta de prática, as pessoas podem obter resultados equivocados.

E da onde vem o termo Doppler?

O sonar também chama-se Fetal Doppler. Além disso, vocês já devem ter visto guias de pedido de exame solicitando Ultrassom com Doppler Colorido. E o que é esse tal de Doppler?

O Efeito Doppler é a mudança na frequência de uma onda (onda de som ou onda eletromagnética) para um observador se movendo relativamente a fonte dessa onda. Para o caso do som, o exemplo didático mais utilizado é o da ambulância. Vamos supor que você está parado na frente de sua casa e uma ambulância passa. Quando a ambulância está se aproximando, você escuta o som mais agudo. Conforme ela vai se afastando de você, você ouve o som mais grave.

Isso acontece porque comparando com a frequência emitida pela fonte (no caso, a ambulância), a frequência recebida pelo observador é maior durante sua aproximação (som mais agudo), idêntica bem no instante em que passa na frente do observador e mais baixa quando está se afastando (som mais grave).

No exame ultrassom, a fonte de ultrassom é o aparelho. As ondas de ultrassom atingem o interior do corpo da gestante e do bebê. Só que o corpo da gestante e o corpo do bebê não estão imóveis. O coração bate e temos também o fluxo sanguíneo, o movimento das veias e artérias. Quando a onda de ultrassom retorna para o aparelho, ele detecta essas variações causadas pelo Efeito Doppler.

O Efeito Doppler também ocorre em ondas eletromagnéticas. E essa descoberta gerou muitas possibilidades na Astronomia. O Efeito Doppler permite a medição da velocidade relativa de objetos celestes luminosos com relação à Terra. Essas medidas permitiram concluir que o universo está em expansão, já que observou-se desvio para o vermelho (região da cor vermelha do espectro eletromagnético). Se os objetos celestes estivessem se aproximando, teríamos um desvio para o azul. Não vou entrar em detalhes sobre esse recurso, para o post não ficar muito longo. Mas é provável que eu aborde esse tema em outra ocasião.

 

 

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Acompanhem toda série A “Cientista” Grávida – A Série [minha saga pessoal rs]  aqui.