Frente subtropical? O que é isso???



Há alguns dias eu escrevi um post sobre cartas sinóticas. Sem modéstia, acho que o post ficou bem bacana. Porque consegui falar sobre como essas cartas são construídas, qual a importância delas e como interpretá-las. Claro que não é um curso de Meteorologia Sinótica, mas acredito que ficou um texto bem interessante para quem quer ter uma visão geral.

Bom, depois da propaganda estilo iogurteira, confiram o post do qual estou falando aqui.

Voltei no assunto porque recentemente ouvi, pela TV, os jornais falando em frente subtropical. Achei curioso, porque sempre falam frente ou frente fria. Nunca falam das frentes subtropicais. E há uma razão para isso: é muito raro que elas “cheguem” na superfície!

A definição de frente é: uma zona de separação entre duas massas de ar de densidades diferentes, e portanto possuem características bem diferentes: por exemplo, uma é quente e úmida e a outra é fria e seca. Com essa diferença de densidade, uma das massas de ar acaba sendo forçada a subir. Quando o ar é forçado a subir, temos a formação de nebulosidade. É dessa forma que se formam as frentes. Um dia ainda escrevo um post explicando as diferenças entre os quatro tipos de frente que mencionei.

Agora vamos voltar a falar da frente subtropical, a estrela desse post. A frente subtropical normalmente não chega na superfície porque por definição, ela separa o ar tropical do ar de latitudes médias na média troposfera. Ou seja, ela acontece lá em cima, acima do nível de pressão de 500hPa (alguma coisa perto dos 10km de altura, dependendo da região). E é um fenômeno bem comum, mas que se intensifica mais no final do outono e no inverno. As coisas ‘lá no alto da atmosfera’ não são tão pacíficas. Há uma climatologia para os níveis mais altos. Como prometi, ainda vou escrever um post sobre Cartas Sinóticas de níveis mais altos e então poderemos discutir os níveis médios e altos com maiores detalhes.

Entretanto, para esse post aqui é preciso lembrar que o que acontece na média e na alta troposfera, influencia também o tempo aqui na superfície, já que ocorrem trocas de massa e energia em toda a atmosfera.

Como ocorre lá em cima, uma frente subtropical é mais difícil de ser “visualizada” do que uma frente comum. É preciso fazer uma análise em diversos níveis da atmosfera para confirmar sua presença. Em algumas situações,  quando ocorre a intrusão forte de uma massa de ar intensa e fria de latitudes médias, as frentes tropicais podem chegar na superfície. E quando isso ocorre, ela fica bem parecida com um sistema frontal comum. A diferença é que por conta do formato do nosso continente e devido a distribuição oceano-continente aqui na América do Sul (tem mais oceano do que continente e o continente vai “afunilando” conforme avançamos para Sul), a frente subtropical de superfície (se é que posso chamar assim, mas falo apenas para separar da frente subtropical normal) acaba muitas vezes ficando bem  mais “em cima” do continente. Temos então cartas sinóticas lindas, didáticas, como a abaixo de 28/05/2015 00Z.

Fonte: CPTEC/INPE
Fonte: CPTEC/INPE

 

Veja, olhando assim eu não poderia dizer com certeza que é uma frente subtropical.  Eu sei por causa da análise sinótica de superfície (descrição de uma carta sinótica de superficie) feita pelos colegas do INPE:

Clipboard01

Para fazer uma análise sinótica de superfície, o meteorologista também olha os níveis mais altos. Para traçar o que acontece na superfície e para escrever sobre isso, o meteorologista consulta informações da média e da alta atmosfera.

A frente subtropical foi uma “polêmica” há algumas semanas porque eu ouvi uma jornalista dizer que a frente subtropical tem esse nome por se formar nos trópicos. Mas nem é preciso conhecer meteorologia sinótica para entender que há algo errado nessa definição: subtropical dá a ideia de algo que ocorre “abaixo” dos trópicos.

Em um material de apoio que usei na disciplina de Meteorologia Sinótica durante a faculdade, essa imagem era muito discutida:

Fonte:  Material de Meteorologia Sinótica do IAG-USP e Djuric, Dusan 1994. Weather Analysis - Chapter I, Prentice-Hall Inc.
Fonte: Material de Meteorologia Sinótica do IAG-USP e Djuric, Dusan 1994. Weather Analysis – Chapter I, Prentice-Hall Inc.

A imagem acima é um modelo da estrutura vertical da atmosfera. No eixo y, temos a altura (em hPa e em km) e a latitude. Observe que a “subtropical front” ou frente subtropical está “abaixo” dos trópicos, ou seja, já quase chegando no que chamamos de latitudes médias. Além desse erro da repórter, ela não mencionou a principal especificidade da frente subtropical, que é exatamente o fato de ela estar presente no alto, na média atmosfera!

P.S.: Eu não sou meteorologista da área de previsão operacional! Trabalho com observações meteorológicas e difusão científica. Por isso, caso algum colega encontre esse post e tenha algo relevante para corrigir ou adicionar, me informe, porque assim eu aprendo e é melhor (mais proveitoso para a internet e mais gentil para mim) do que simplesmente sair falando mal por ai 😉