Homens: mais empatia, por favor!



Há algumas semanas, o assunto das redes sociais foi sobre funcionários de uma empresa de telefonia e internet que estavam assediando clientes. Foram pelo menos dois casos e os maus funcionários agiram da mesma forma: adicionaram o contato da cliente no aplicativo WhatsApp, porque gostaram da voz da cliente. Mandavam mensagens assediando as moças, que claro, sentiram-se invadidas. E os caras ainda debochavam das reclamações, porque acreditam que o sistema machista garante impunidade para eles. Ora, a culpa é delas que não bloqueou o sujeito! Eles tem essa certeza: nesses casos, a culpa recai sempre na mulher.

Outro caso que estourou um pouco antes foi o de taxistas que usavam um aplicativo e tinham acesso a dados das clientes. Como o telefone das clientes ficava registrado, alguns assediavam as clientes de modo muito parecido com o feito pelos funcionários da empresa de telefonia.

Na timeline de uma querida colega, ela postou a notícia, que gerou revolta por parte de muitas de suas conhecidas e amigas. Aproveitei a situação para narrar uma historinha que aconteceu comigo e que tem tudo a ver com ser mulher nesse mundo hostil. Vou repeti-la:

Vou contar uma coisa aqui e se alguém me achar ‘louca’, tudo bem. Ano passado, troquei meu tel fixo de uma empresa para outra. Meu marido estava viajando, eu estava sozinha em casa e fiquei COM MEDO de atender o técnico sozinha. Como não tinha jeito e eu tive que atender, fiquei o tempo todo sentada no sofá com uma faca do meu lado numa posição que ele não podia ver. O machismo está aí, e a violência consequente dele também, fazendo a gente viver sob tensão o tempo todo.

Isso mesmo, leitores. Eu estava disposta a esfaquear um homem se fosse necessário. E faria isso. Horrível, porque prego muito a paz e o diálogo, mas acredito que temos que nos defender quando precisamos. Eu não gostaria de ter o sangue de ninguém nas minhas mãos, mas se fosse preciso, eu faria. Muitas de minhas leitoras e talvez alguns leitores compreendam. Outros vão dizer que sou louca ou sou exagerada.  Alguns vão vir com discursinho furado  de paz e amor, sem cabimento nesse caso. Não me importo. O que importa é que sei que terei a simpatia e compreensão de pessoas que valem a pena.

Depois de ter narrado minha história, um contato masculino de minha colega disse:

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E aí  aconteceram duas coisas que detesto nessa vida.

A primeira delas é esse pensamento limitado, muitas vezes utilizados em debates e discussões, de que se a pessoa não disse algo, então é porque ela não considerou aquele algo. Caramba, eu não mencionei a invasão de privacidade (mencionei apenas o machismo), porque a invasão de privacidade é a primeira camada da questão. É a camada mais óbvia!  Se o funcionário de uma empresa pega dados do cliente para fazer qualquer coisa que não seja de consentimento do cliente e que não tenha a ver com os interesses do cliente, é óbvio que é invasão de privacidade.

Daí o sujeito vem dizer que é raso enxergar tudo como machismo? Querido homem em questão, raso é você que só enxergou a questão da invasão de privacidade!

Não odeio os homens. Acho que podemos expor e problematizar o machismo. E esperamos que os homens possam compreender o que a gente está falando. Mas nem todos compreendem.

Para o sujeito, o único problema que ele enxerga é o uso de seus dados para, sei lá, usar em crimes de estelionato, como abrir uma conta no banco ou solicitar um cartão de crédito. Nós mulheres, enxergamos um problema além deste, porque sabemos que é possível. Podemos ser vítima de assédio por mensagens (como o que as moças narraram), podemos ser perseguidas, podemos ser estupradas, etc. Por isso eu tive que tomar essa medida tão drástica de sobrevivência no caso que narrei: eu deixei uma faca do meu lado.

Depois dessa mensagem, o sujeito sugeriu que o problema era simétrico: ou seja, homens também são assediados. E essa é a outra coisa que detesto nessa vida: a falsa simetria nessa questão.

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Nessa onda da simetria e parcialidade (ai como odeio!), o sujeito acabou sugerindo que homem é tudo escroto mesmo e assedia tudo que vê pela frente.

Homens não saem na rua de noite e tem medo de serem estuprados. Mulheres tem!

Homens não vão em festas e ficam tensamente desesperados, cuidando do seu copo, controlando a ingestão de bebidas e de olho nas amigas. Mulheres sim!

Homens  não precisam “cuidar dos modos” ou “escolher roupas discretas”. Mulheres sim!

E etc, etc, etc. A falsa simetria seria completamente eliminada se esses homens ouvissem as mulheres. Nem precisa ouvir a ativista feminista XYZ da internet. Ouça sua mãe. Sua irmã. Sua esposa. Sua filha. Observe. Coloque-se no lugar delas.

Como falta empatia nesse planeta! Nessa e em outras questões envolvendo violência e exclusão.

P.S.: Apenas para finalizar minha história: o técnico que me atendeu era bacana, profissional e ainda me explicou uma questão sobre um espelho de tomada que perguntei. Ele agiu de maneira cortês comigo, fez um bom serviço e não ficou puxando conversinha fiada ou qualquer coisa do tipo. Eu acredito que dei muita sorte. E fico feliz que existam homens assim (e felizmente conheço vários).