O que é geada?

Confesso para vocês que ando sem ideia e sem inspiração para postar. Gosto de falar de minha gravidez, mas também quero continuar falando sobre Ciência, especificamente sobre Meteorologia. Comecei a pensar em fenômenos típicos do inverno brasileiro e me refiro especificamente ao inverno da Região Sudeste, Região Sul e sul da Região Centro-Oeste. Porque falar de inverno em outras regiões do Brasil nem faz sentido, regiões que são abençoadas com calor o ano todo.

Um dos fenômenos bem típicos do inverno é a geada. É até um fenômeno relativamente comum. A Estação Meteorológica do IAG-USP contabiliza, desde 1933, quantos dias de ocorrência de geada foram registrados na área da Estação. E o resultado é este:

Total anual de dias com geada, de 1933 até 2010. Fonte: Estação Meteorológica do IAG-USP

Total anual de dias com geada, de 1933 até 2010. Fonte: Estação Meteorológica do IAG-USP

O gráfico acima está publicado nos Boletins Anuais da Estação Meteorológica do IAG-USP, para quem quiser consultar =)

A geada não é um produto de precipitação que “cai” das nuvens. Na verdade, até acho estranho considerar a geada como precipitação, mas é o que diz a OMM. A geada normalmente forma-se pela manhã, depois de uma noite sem nuvens, com pouco vento e muito fria. E de acordo com a literatura [1], pode ser classificada da seguinte maneira, dependendo do processo de formação:

Geada de advecção: provocadas por injeção de ar com temperaturas muito baixas;
Geada de radiação: ocorre o resfriamento intenso da superfície, que perde energia durante as noites de céu limpo e sob o domínio de sistemas de alta pressão;
Geada mista: ambos juntos;

E dependendo do aspecto visual da geada, termos normalmente empregados em agrometeorologia:

Geada negra: em condições de pouca umidade. Em situações assim, a planta “queima” ou “seca”, porque o que se congela são os fluidos da planta. Essa geada é aquela que destrói cultivos, como o do café;
Geada branca: em condições de maior umidade do ar, quando efetivamente existe o congelamento de água. E essa geada não “queima” a planta, que fica apenas esbranquiçada em decorrência da presença de gelo em sua superfície.

Numa noite sem nuvens, a superfície da Terra perde bastante radiação de onda longa. Então a superfície vai ficando cada vez mais fria, de modo que ela fica mais fria que o ar que está logo acima dela. O vapor d’água contido nesse ar, em contato com a superfície fria, acaba passando para o estado líquido (condensação). Dessa maneira forma-se o orvalho, que é outro fenômeno meteorológico bem conhecido e bem típico do outono e do inverno. Só que se estiver realmente muito frio, com a temperatura do solo por volta dos 0°C, as gotinhas que formam  o orvalho acabam passando para o estado sólido (solidificação). E também ocorre geada quando o vapor d’água existente no ar sublima (passa do estado gasoso direto para o estado sólido, sem passar pelo líquido). Temos dessa forma a geada de radiação, porque houve perda radiativa por parte da superfície. A geada de advecção acontece quando ar bem frio é injetado na superfície, normalmente em decorrência de uma queda abrupta de temperatura, por exemplo, devido a aproximação de uma frente fria. Em geral, as geadas são resultado dos dois processos atuando simultaneamente (geada mista).

Observem que no parágrafo anterior falei muito em superfície. Essa superfície pode ser qualquer coisa. Por exemplo, geadas costumam se formar em gramados. Mas também podem se formar sobre carros ou portões. Uma vez quase caí de boca no chão. Eu estava em uma localidade muito fria, era muito cedo e a calçada de uma rua estava parcialmente tomada por geada. Escorreguei e por pouco não me esborrachei rs.

Antes de começar a escrever no Meteorópole, eu tinha um blog no Stoa, plataforma da USP. Esse blog inclusive me inspirou a ter um site para mim, e então surgiu o Meteorópole.  Nada contra o Stoa (tanto que os arquivos do meu blog podem ser consultados aqui), mas é que com o WordPress as coisas ficam mais bonitinhas e um site só meu deixa tudo mais organizado e com minha cara (momento Monica Geller). Bom, lá no Stoa eu tinha escrito um post sobre geada. Em 2010 (que foi um ano até que frio em São Paulo, quando comparado com anos mais recentes), eu registrei um episódio de geada. Ela ocorreu no dia 07 de junho daquele ano. Anteriormente a 2010, a última geada registrada foi no dia 18 de agosto de 2003.

Geada registrada por mim em

Geada registrada por mim em 07 de junho de 2010, no PEFI – São Paulo-SP.

 

Daí que no dia 28/06/2011, que foi quando escrevi essa postagem, eu estava no trabalho e um colega fotografou geada. Como cheguei por volta das 8h, a geada já estava meio que derretendo (com o nascer do Sol, a superfície vai esquentando). Só que eu ainda consegui ver resquícios de geada nas áreas de sombra!

Abaixo, as fotos que meu colega Edvaldo tirou no dia 28/06/2011:

Geada de 28/06/2011. Foto: Edvaldo Gomes

Geada de 28/06/2011. Foto: Edvaldo Gomes

 

Geada

Geada de 28/06/2011. Foto: Edvaldo Gomes

 

Geada

Geada de 28/06/2011. Foto: Edvaldo Gomes

Um fato curioso sobre este dia (28/06/2011) é que a temperatura mínima foi de apenas 2,4°C lá na Estação Meteorológica do IAG-USP. Escrevi isso lá no Stoa também, na ocasião:

Esta manhã (de 28/06/2011), registramos 2,4°C aqui na Estação Meteorológica do IAG-USP. É a temperatura mais baixa registrada, desde 2000. Em 2000, registramos -0,2°C no dia 17 de julho daquele ano.

Também registramos geada, hoje pela manhã.

Lembrando que a Estação Meteorológica do IAG-USP funciona desde 1933 e a temperatura mais baixa registrada por nós foi de -1,2°C, valor este observado em 3 dias distintos: 06/07/1942, 12/07/1942 e 02/08/1955.

Relendo esse material sinto uma saudade desse frio! Em termos, né? Porque na época eu morava em outro apartamento, imóvel este que era muito, mas muito frio. Era na verdade ineficiente, termicamente falando. Eu passei muito frio e muito calor naquele lugar! Não gostaria que o inverno de 2015 fosse muito frio, porque eu não quero que meu menino sinta tanto frio. Apesar de que o imóvel onde moro atualmente é mais aconchegante.

Para finalizar, sugiro este vídeo da Climatempo, apresentado pela Maria Clara Machado. No vídeo, Maria Clara explica o que é geada:

Ah sim, vale a pena lembrar que geada, granizo e neve são fenômenos distintos. Leia mais aqui.

Fontes

– [1] Em uma das ocasiões que vi o fenômeno geada nas aula de Graduação em Meteorologia, vi em um material disponível aqui, mais especificamente nesse link.
Geada, Wikipedia