Por que os rótulos nerd/geek me incomodam?



Ai, por que é tão difícil escrever um post sobre uma opinião boba?

Há alguns dias, levei  unfollow no twitter porque disse isso:

 

Bom, estava rolando comemoração do dia da toalha, dia do nerd, dia sei lá do quê e acho que as pessoas acharam que eu era uma desmancha prazeres, o que não é verdade, adoro uma diversão bacana, que não prejudica ninguém e só traz bons momentos. Provavelmente teve gente que gosta do rótulo nerd e se sentiu ofendido.

Eu não me importo em ser chamada de nerd. Incontáveis vezes me chamaram de nerd, ainda no tempo em que “ser nerd” era motivo  maior de exclusão, de piada dos colegas, de bullying. Talvez por essa razão o termo me incomode um pouco, mas não me importo de que me chamem assim. Afinal de contas, olha as coisas que publico no Meteorópole rs. Ou seja, eu gosto das “coisas nerds”, mas não gosto APENAS de “coisas nerds”. Meu problema é com rótulos.

O termo não me incomoda apenas pelo bullying que sofri. Superei tudo isso! Tenho uma família maravilhosa, que sempre me apoiou e fez com que eu me sentisse forte e protegida. Aprendi a lidar com quem me ridicularizava e o tempo foi a melhor resposta. Fiz ótimos amigos no Ensino Médio e no Ensino Técnico. E na universidade, conheci ótimos amigos, com mentes abertas para a diversidade e com interesses parecidos com os meus.

E ainda hoje, sei que há muitas crianças que sofrem bullying por gostarem de estudar e/ou por terem interesses diferentes dos da maioria. Sei que muitas crianças (e também adolescentes e adultos) sofrem bullying por tentarem agir corretamente, com ética, em meio a um mundo onde agir com “jeitinho brasileiro” é a norma.

Ou seja: eu tenho a impressão de que os chamados “nerds” ainda sofrem preconceito! E aqui uso “nerd” de acordo com a definição que eu conheço, de acordo com o que vi em minha vida escolar.  O que aconteceu é que hoje em dia o termo nerd é também muito aplicado no mundo do consumo. Seriados como The Big Bang Theory, por exemplo, fizeram que “ser nerd” virasse também “ser pop”. Aparentemente, de acordo com as previsões dos anos 80/90, os nerds ganharam dinheiro e hoje tem alguma influência na sociedade. Dessa forma, virou rentável comercializar “coisas nerds”. E detesto esses rótulos. Quadrinhos, por exemplo. Por que uma revistinha tem que ser rotulada como “coisa de nerd”, meu Deus? É apenas uma revistinha! Compra quem gosta, quem tem interesse, quem se identifica. Já vi editoriais de moda nerd e já vi it-girls se vestirem de nerds (como se fosse uma porra de uma fantasia) em semanas de moda e eventos relacionados.

Mas até esse “ser nerd” do mundo do consumo reflete na vida do nerdzinho da escola pública que está sendo excluído do grupo nesse momento? Será que todas as pessoas que estão consumindo nerdisses estão estudando, estão tentando fazer a diferença?

Ou seja, é legal comprar uma camiseta Bazinga, porque isso te deixa cool. Só que estudar pra caramba, adquirir uma compreensão maior da vida e ser excluído por seus amigos e familiares que não te entendem não é legal. Não é legal quando você fala alguma coisa com a maior empolgação, usa todo o seu raciocínio para conversar com alguém e você recebe aqueles olhares esquisitos, de que ninguém te entendeu. Não é legal sentir-se sozinha!

giphy E quase ninguém quer esse fardo e quase ninguém pensa nisso. Só querem a camiseta do Lanterna Verde e os Videogames. Assim é fácil ser nerd!

Há algum tempo atrás, lembro que brincavam com o rótulo “comunista de boutique”, falando de gente que comprava camiseta do Che e andava com um exemplar de O Capital debaixo do braço (uma amiga fala que são os ’marxilas’, rs), mas não tinha nenhuma compreensão sobre a sociedade. Não estou falando que é a mesma coisa e nem quero generalizar. De repente o sujeito assiste The Big Bang Theory e realmente se identifica com aquele rótulo nerd comercial, pois não se importa com o estereótipo de ‘nerd bobão’ que tem dificuldades de se relacionar com outras pessoas.  E de repente o cara é um “comunista de boutique” e também se identifica de verdade com o sistema econômico. Além disso, quem sou eu, né? Se a pessoa quiser passar uma “imagem superficial” da própria vida, não sou ninguém para ditar regras. Estou nesse mundo apenas para dar minha opinião, como tanta gente também faz. Não sou especialista em nerdisse ou nerdeologia.

Para finalizar, posto o tweet do @ferques porque ele entendeu exatamente o que eu quis dizer:

Rótulos. Preciso de um rótulo? Preciso me encaixar em alguma coisa? Preciso seguir um estereótipo? As vezes eu leio Revista Ana Maria e Revista Viva Mais. Será que alguém vai dizer que não sou nerd só por causa dessas leituras? Provavelmente vai sim. Conheço muitos nerds que adoram novela? Ora, eles não são nerds de verdade? O que seria um nerd de verdade? Um sujeito que gasta muito dinheiro consumindo action figures e gadgets de utilidade questionável?

Nos anos 90, lembro de uma celeuma parecida. Era o auge da guerrinha entre pagodeiros e roqueiros. Porque naquela época não havia funk e o preconceito cultural tinha que ser canalizado para alguma coisa. E se você fosse roqueiro, que chatice! Tinha que ficar provando que era roqueiro, comprar aquelas revistas/posteres, gastar dinheiro com CD’s, comprar camisetas de bandas, etc. E ai de você se usasse uma camiseta do Metallica e não fosse fã de verdade! Uma vez presenciei uma cena patética. Uma amiga tinha uma camiseta do Metallica. Mas ela também gostava de Backstreet Boys. Alguns colegas mencionaram que ela não era digna de usar a camiseta. Oi?

Teve gente que me deu unfollow por mencionar essa “polêmica” do rótulo nerd. Só sei que questiono muita coisa nessa sociedade do consumo, que só insere as pessoas nas panelinhas se elas consumirem os produtos voltados para aquele grupo.