A fascinante vida de James Randi



Mesmo que você não seja ligado em mágica e/ou ceticismo, se você tem mais ou menos a mesma idade que eu ou é mais velha e adorava assistir Fantástico aos domingos, deve lembrar-se de James Randi e o ‘Homem do Rá’.

James Randi é um mágico e cético que criou uma fundação que tem como objetivo dar um milhão de dólares (dinheiro que pode ser escrito em notação científica de maneira bonitinha é sempre legal) para um paranormal que prove que é realmente paranormal  e não está de ladainha e mentirinhas que doem demais. Ou seja, o sujeito precisa realmente provar cientificamente (i.e., com testes controlados em laboratório e usando método científico) que é paranormal. Como o próprio Randi disse: paranormais deveriam estar fazendo uma fila do lado de fora da Fundação.

Na época em que Randi apareceu no Fantástico (acho que foi no final dos anos 1990, se não falhe minha memória de tia da internet), ele estava falando de seu desafio de um milhão de dólares e o desafiado era Thomas Green Morton, o Homem do Rá.

que montagem maravilhosa rs [obrigada internet]
que montagem maravilhosa rs [obrigada internet]

Não, jovem amiguinho nerd leitor. Não estou falando de Rá, o deus egípcio. Se fosse seria legal. Rá era o barulho que o maluco fazia enquanto ENTORTAVA TALHERES que viraram talismãs nas mãos de Baby Consuelo (que hoje é conhecida como Baby do Brasil).

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Foto linda, adoro a Baby sendo linda amamentando (e dando exemplo). Mas estou falando dos TALHERES PENDURADOS no pescoço da diva.

Não vou entrar em detalhes, até porque não lembro de todos e não é o ponto do post pesquisá-los. A história é que o Home do Rá era (ou é, não sei) uma espécie de Uri Geller brasileiro. Usando uma suposta energia paranormal (ou qualquer outro nome ae), Morton entortava talheres. E esses talheres viravam talismãs nas mãos de Baby Consuelo e Pepeu Gomes. Não lembro se foi mencionado o nome de algum outro cantor esotérico de MPB, mas lembro desses dois. E essa imagem de Baby Consuelo com um colar de garfos entortados nunca saiu de minha mente.

Bom, claro que Morton não quis se submeter aos testes de Randi dentro de um ambiente controlado. Claro que, tal qual Uri Geller, ele se esquivou de qualquer confronto mais sério e inventou desculpas malucas.

Quem não se lembra ou nunca ouviu falar de Uri Geller, é um cara bonitão da década de 1970 que dizia que entortava talheres e outros prodígios. Foi desmascarado por James Randi de diversas fotmas e até  um livro foi escrito, mas como as pessoas adoram uma coisa mágica-paranormal, o sujeito continuou atuando e parece que até hoje tem seguidores.

Bom, depois dessa longa introdução: afinal, quem é James Randi?

RANDI

Eu sabia muito pouco sobre ele. Sabia que ele foi um mágico de bastante destaque, que alcançou sucesso e dinheiro com essa profissão. Era especializado em “escapismos”, não sei se o termo em português é esse, mas é aquele tipo de mágico que escapa de camisas de força, correntes, caixas, etc. Randi é um grande fã de Houdini e se inspirou muito nele ao longo de seus anos de atividade.

Meu conhecimento sobre Randi foi aprofundado depois que assisti um documentário muito bom no Netflix: An Honest Liar. O documentário é uma biografia de Randi. Fala de seus anos como mágico, do desafio de um milhão de dólares e de detalhes curiosos e surpreendentes de sua vida pessoal.

Depois de um número que quase provocou sua morte, Randi decidiu se aposentar da mágica e passou a dedicar sua vida a desmascarar charlatões. Ele observou que muitos charlatões usavam truques de mágica para enganar as pessoas e através de seu conhecimento nessa arte, decidiu alertar o povo.

A opinião de Randi é muito justa e interessante: os mágicos usam os truques para enganar as pessoas de maneira honesta. Ou seja, quando você assiste um espetáculo de mágica, sabe que é ilusão. Sabe que está sendo enganada, só não sabe como e essa é a graça e a magia.  Os ditos paranormais usam os mesmos truques de mágica, só que eles dizem que tem “superpoderes” ou “uma conexão com o além” ou “um poder divino” ou qualquer coisa do tipo.

No documentário An Honest Liar, a trajetória de Randi desmascarando líderes religiosos, pessoas que se dizem médicos e que fazem cirurgias espirituais, etc. Em uma de suas sagas para desmascarar pessoas e para mostrar como somos facilmente enganados por charlatões, ele realmente foi o Mestre da Trollagem. O documentário narra uma ocasião em que Randi convenceu um amigo a interpretar um paranormal-místico que recebia uma entidade de centenas de anos (uma coisa Fundação Cacique Cobra Coral rs). Claro que tudo era encenação. Antes da internet, era ainda mais fácil ludibriar gente muito crédula. Randi forjou toda uma biografia para que Carlos (nome do personagem que seu amigo interpretou) pudesse ser considerado um importante e renomado paranormal. A farsa foi tão bem feita que Carlos conseguiu lotar o Sydney Opera House, com pessoas que queriam conhecer esse novo messias. Depois que o próprio Randi falou que era uma farsa, as pessoas ficaram furiosas. Em outra ocasião, Randi convenceu dois estudantes a passarem-se por “místicos entortadores de talheres”. Os estudantes aprenderam, lendo o livro de Randi, a entortar talheres. Esses estudantes foram treinados, passaram-se por místicos e enganaram até pessoas que faziam uma pesquisa sobre paranormalidade!

O documentário aborda também a vida pessoal de Randi. Mostra uma face, talvez hipócrita, da vida de Randi. Não vou contar, porque é o ponto alto do documentário. E a gente entende que algumas mentiras precisam ser contadas e algumas verdades omitidas.

Quando o documentário acabou, senti vontade de saber mais sobre James Randi. Eu diria que me tornei fã. Que sujeito interessante! Ele não terminou os estudos, mas possui um senso crítico e uma busca pela verdade que não vemos em muitas pessoas com diplomas universitários (sem esquecer de mencionar o bizarro e recente caso de cúrcuma como creme dental). Sem contar que ele tem um senso de humor sagaz e parece serextremamente simpático. E o cara fez tanta coisa maneira ao longo de seus mais de 80 anos de vida, que conversar com ele deve ser delicioso.