Como distinguir entre ciência e pseudociência?



gif-geller-uriO prefixo pseudo- significa falso. Sendo assim, o termo pseudociência significa “falsa ciência”. Mas como fazer para distinguir se uma informação trata-se de ciência ou de pseudociência? Usando algumas coisinhas que aprendi por ali e por aqui (alguns links no final do texto!), vou falar um pouco sobre o assunto.

A chave inicial para a distinção entre ciência e pseudociência é ter informação, saber sobre os fatos científicos reais. Mas não devemos nos ater apenas a isso. É preciso entender a natureza da ciência. Ou seja, é preciso entender como um experimento é projetado, quais as etapas para o sucesso de uma pesquisa científica, é preciso entender um pouco sobre probabilidade, sobre avaliação de possibilidades, etc. Em outras palavras, é preciso compreender os principais os métodos científicos empregados para contribuir na compreensão do universo ao nosso redor.

Vou dar um exemplo que me diz respeito: física quântica. Eu não entendo nada de física quântica, mas sei que o termo “quântico” tem sido utilizado em diversos contextos pseudocientíficos. E como sei disso? Porque normalmente, quando isso ocorre, misturam o termo com expressões esotéricas ou com termos científicos de maneira desconexa, para confundir as pessoas incautas e que não tem conhecimento científico básico. Ha alguns anos mencionei o caso da Placa Energética Púrpura (leia aqui e aqui).

A propósito, somos um país de analfabetos científicos (falei disso nesse post recente). E assim como os analfabetos e iletrados, que podem assinar documentos sem compreender e assim cair em algum golpe, sendo analfabetos científicos também estamos sujeitos a golpes de charlatães. Dessa maneira, apenas o conhecimento, disseminado em escolas e em centros de divulgação científica, pode mudar esse quadro. É curioso lembrar que o lema do nosso atual governo federal é Pátria Educadora, mas no entanto muita verba para educação tem sido cortada e a própria presidenta tem dificuldades com alguns conceitos científicos básicos (ela acha que dá para estocar vento…). Com esses recentes acontecimentos, fica difícil acreditar que um dia o quadro vai mudar. Tem sido difícil ser otimista.

Ok, mas ainda assim vou dar minha pequena contribuição. Consiste em uma lista de quatro alertas para que possamos identificar quando algo trata-se de pseudociência ou ciência. Há uma lista super completa com outros alertas, nesse site. Entretanto, os quatro tópicos mencionados abaixo tratam-se de pontos percebidos por mim ao longo desses anos de interesse por divulgação científica.

1) A pseudociência é malfeita

Um texto pseudocientífico NUNCA cita nomes de pesquisadores e suas credenciais. Pesquisadores sempre estão vinculados a Universidades ou Instituições de pesquisa muito sérias. Além disso, não basta falar que “Dr Fulano disse”. É preciso dizer onde aquela informação foi publicada (em qual revista científica) e se possível, ouvir a opinião de outros pesquisadores da mesma área. Um texto divulgado na coluna de Ciências de um jornal ou revista deve revelar essas informações, para que o leitor possa ler caso tenha interesse em aprofundar-se no assunto.

2) A pseudociência é obscura

São textos confusos, que misturam diversos termos científicos e até colocam termos esotéricos no meio da conversa. A ciência, por outro lado, é fácil de compreender. Os argumentos são claros e quando explicados por pessoas que tem o dom da didática, são muito fáceis de entender. Quando você pergunta a um pseudocientista sobre seus argumentos, ele vai acabar culminando, em algum momento, em “experiência pessoal” ou “experiência religiosa pessoal”. Dessa forma, não é possível validar o que o pseudocientista está dizendo. E se você questiona, muitas vezes ouve algo como:

– Então você está dizendo que sou mentiroso?

Difícil argumentar assim. Já a ciência é amplamente discutida por diversos cientistas. Não importa se há um pesquisador muçulmano, um sikh e um cristão. Todos vão falar o mesmo idioma. O idioma das evidências e hipóteses bem fundamentadas, independentemente de seu background cultural.

Um pouco antes, falei da placa energética púrpura. O texto de propaganda na época (o produto nem é mais vendido rs), que reproduzi parcialmente aqui, era todo confuso e recheado de adjetivos. Isso é outro indício e também faz parte do obscurantismo. O objetivo é bombardear o leitor com os supostos benefícios do produto, para que ele não tenha tempo de questionar sua possível eficácia.

3) A pseudociência não progride

Outro dia, ouvi duas pessoas conversando sobre ovos. Elas diziam que os cientistas não se decidiam, pois ora diziam que não era bom consumir ovos e ora diziam que podia ser consumido a vontade. Claro que não é bem assim, mas ilustra o que quero dizer.

Einstein errou, Newton errou e tantos outros cientistas cometeram erros. Esses erros foram identificados através de novas evidências que apontaram o erro. A ciência é construída dessa forma. Mentes brilhante ao longo dos anos vão descobrindo coisas novas através da pesquisa árdua, sempre amparadas por outras mentes brilhantes. Não há um “protecionismo” entre os cientistas. Pelo contrário, diria que há uma vaidade positiva, já que todos querem se sobressair com alguma descoberta ou apontamento interessante.

Agora mesmo um amigo meu, o Rodrigo, está fazendo algumas observações sobre um texto que escrevi. Acho válido e importante, pois isso ajuda com que eu melhore. É difícil ouvir críticas, então eu diria que o cientista tem que ser um vaidoso humilde.

Já a pseudociência… essa não progride. Vamos pensar no Criacionismo e no Design Inteligente, duas formas de pseudociência que tive contato desde cedo e que só atrasaram minha busca por conhecimento. Tanto o Criacionismo quanto o DI se baseiam no objetivo de provar que o relato do livro bíblico de Gênesis é literal. Ou seja, são válidos apenas argumentos que possam, de alguma forma mirabolante, ajudar a provar a literalidade do relato. Por isso, em palestras de pseudocientistas, sempre os mesmos argumentos são utilizados exaustivamente.

4) A pseudociência sempre envolve um guru espiritual ou um deus que tem autoridade suprema

Aqui devo manifestar todo meu respeito a qualquer religião, desde que seja mantida como escolha pessoal e não afete na harmonia da sociedade.

Após dizer isso, devo dizer que sempre reparei que a pseudociência muitas vezes envolve a revelação de um deus, de um profeta ou de um guru espiritual. E a palavra desse ser iluminado sempre é suprema, nunca pode ser questionada. Então muitos argumentos fecham em: “mas [o ser espiritual] disse que é assim, então é assim”. Esse pensamento é extremamente perigoso.

No final da primeira temporada de  Cosmos: an Spacetime Odyssey, o apresentador Neil DeGrasse Tyson deixa um recado, dizendo que devemos questionar as coisas, que não existe isso de “autoridade científica”. Um bom cientista tem que ser humilde, tem que ouvir os argumentos, esclarecer as dúvidas e inclusive aprender.

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Finalizo o texto com um trecho de um de meus livros favoritos, Dragões do Eden (Carl Sagan o publicou em 1977). Gosto muito desse trecho e já o mencionei em outros posts do blog (como nesse sobre o HAARP). No Capítulo IX, Sagan escreve:

No último capítulo de A Escalada do Homem, Bronowski confessou-se entristecido “por me ver subitamente cercado, no Ocidente, por um sentimento de terrível perda de vigor, um distanciamento do conhecimento”. Na minha opinião, ele se referia parcialmente á muito limitada compreensão e apreciação da ciência e da tecnologia – que moldaram nossas vidas e nossas civilizações – nas comunidades públicas e políticas, mas também â crescente popularidade de diversas formas de ciência marginal, popular ou pseudociência, misticismo e magia.

Observamos hoje no Ocidente (mas não no Oriente) o ressurgimento do interesse por doutrinas vagas, anedóticas e muitas vezes experimentalmente errôneas que, se verdadeiras, anunciariam pelo menos um universo mais interessante, mas também que, se falsas, implicam um descuido intelectual, uma ausência do espírito de luta e um desvio de energias não muito promissor para nossa sobrevivência.

Entre essas doutrinas acham-se a astrologia (a opinião de que as estrelas a centenas de trilhões de quilômetros, que estavam subindo no momento em que eu nascia em um edifício fechado, influenciam profundamente meu destino), o “mistério” do Triângulo das Bermudas (que comporta muitas versões de que um objeto voador não-identificado atua nas imediações das ilhas Bermudas e faz desaparecer navios e aviões), os relatos a respeito de discos voadores em geral, a crença em astronautas vindos à Terra no passado, a fotografia de fantasmas, a piramidologia (inclusive a opinião de que minha lâmina de barbear fica mais afiada dentro de urna pirâmide de cartolina do que dentro de um cubo do mesmo material), a cientologia, auras e fotografias Kirlian, a vida emocional e as preferencias musicais dos gerânios,a cirurgia psíquica, a terra plana e oca,a profecia moderna,o entortamento de talheres a distância, as projeções astrais, o catastrofismo velikovswiano, a Atlântida e o Mu, o espiritualismo, e a doutrina da criação especial da natureza por Deus ou por deuses, apesar de nossa pio funda correlação, tanto do ponto de vista bioquímico quanto da fisiologia cerebral, com os outros animais.Pode ser que haja uma ponta de verdade em algumas dessas doutrinas, mas sua aceitação disseminada demonstra uma falta de rigor intelectual, uma ausência de ceticismo, uma necessidade de substituir as experiências pelos desejos.

Ilustrei esse texto com uma foto de Uri Geller. Quem não conhece a fama desse charlatão, precisa primeiro conhecer um pouco sobre James Randi, um fascinante mágico que tem uma história de vida fantástica e luta contra o charlatanismo. No texto, falo sobre Uri Geller também, esse notório entortador de colheres.

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Links interessantes sobre o assunto

Artigo da SciAm

Ateus.net

Verbete da Wikipedia

Ceticos.com.br

ColegioWeb

UniversoRacionalista