Rock e pseudociência: a organização do Rock in Rio contratou médiuns para espantar a chuva



Olha, vou falar uma coisa para vocês: tem horas que minha profissão me deixa meio amalucada. Acho que todo meteorologista se sente um pouco Cassandra, que na mitologia teria alertado toda sua família sobre a Guerra de Troia mas foi desacreditada e considerada louca.

Cassandra, Evelyn De Morgan (1855 – 1919)
Cassandra, Evelyn De Morgan (1855 – 1919)

Somos um país de analfabetos científicos e não é incomum encontrarmos pessoas que não tem a mínima ideia de como separar ciência de pseudociência. E não são necessariamente pessoas com baixa escolaridade que tem essa deficiência. Basta ver como a astrologia é popular, por exemplo. E não me refiro a astrologia de brincadeira, que as pessoas acompanham por puro entretenimento. Falo de gente que só contrata o funcionário se antes fizer um mapa astral!

Muitos não entendem que a Meteorologia é uma área do conhecimento científico. Não compreendem que para ser meteorologista é necessário estudar muito, ingressando em um curso de Bacharelado em Meteorologia. Não compreendem que há esforço científico, de interpretação e experiência de um meteorologista por trás de uma previsão do tempo. Tem gente que talvez nunca parou para pensar como as palavras ditas pela apresentadora da previsão do tempo chegaram até ela. Outros talvez pensem que trata-se de um mero “achismo”, um “chute”.

Se você é meteorologista e está lendo esse texto e não tem muita experiência, talvez diga que eu estou exagerando. Não estou! O ponto é que talvez você se relacione com outros meteorologistas ou cientistas de outras áreas correlatas, e claro que esses vão entender a ciência que você estuda. Mas tente conversar com pessoas de outras áreas ou com pessoas que não tiveram acesso ao conhecimento formal. E você vai entender o que quero dizer.

Recentemente tivemos o Rock in Rio, importante e já tradicional festival de música. Eu não acompanhei os shows, porque com bebê novinho, vocês imaginam. Mas o que chamou minha atenção foi que a organização do festival contratou uma fundação “esotérico-científica” para evitar chuvas durante o festival. Não vou mencionar o nome dessa fundação porque não quero mais dar audiência para esse tipo de coisa. Mas vou deixar uma charadinha bocozinha:

1260198727955_f Olha, ainda não há nenhum método ou técnica que possibilite que as condições meteorológicas sejam modificadas. Podemos mudar o clima e estamos fazendo isso. Começamos a mudar o clima sem intenção de fazê-lo, mas hoje sabemos que os gases de efeito estufa que emitimos para a atmosfera absorvem o calor e deixam nosso planeta mais quente, modificando o regime de precipitação, a frequência da ocorrência de fenômenos extremos, etc. Além disso, a mudança do uso do solo (desmatamento, erosão do solo, áreas densamente povoadas,etc) também tem estreita relação com as mudanças climáticas, pois isso pode alterar a circulação atmosférica da região.

Repito: não há nenhuma maneira comprovada cientificamente de modificar as condições meteorológicas, ou seja, as condições do tempo  (o que está acontecendo agora na atmosfera ou o que vai acontecer a curto prazo). Se não ficou muito claro, sugiro esse post que explica a diferença entre tempo e clima.

Fala-se muito em usar técnicas para gerar chuva artificial, que já foram usadas sobre reservatórios em períodos de estiagem prolongada, por exemplo. Entretanto, os métodos que prometem gerar chuva artificial não possuem eficácia comprovada (falei disso aqui). Também não há nenhum método que garanta que a chuva deixe de acontecer.

Quer sucesso em um evento ao ar livre? Procure uma consultoria de um meteorologista para dizer qual época do ano, no local de interesse, em que a probabilidade de chover é menor. Por exemplo, na Região Sudeste, as chuvas acontecem entre os meses de Setembro e Março. Claro que pode chover nos demais meses, mas as chances de uma chuva forte ou tempestade são um pouco menores. E para saber disso, não há nenhum tipo de adivinhação: é o conhecimento da climatologia da região, usando dados meteorológicos medidos no local ao longo de vários anos. A verdade é que as mudanças climáticas tem tornado esse trabalho de consultoria um pouco mais difícil, porque há registros de tempestades intensas em períodos ou locais onde não são comuns. Mas isso é assunto para outra oportunidade.

Como o Rock in Rio aconteceu em Setembro, as chances de chover eram bem altas. Temperaturas em elevação, presença de umidade e instabilidade atmosférica são característica da primavera nos trópicos. Se quisessem uma probabilidade um pouco menor de chuva, poderiam ter realizado o evento em Julho ou Agosto.

Até aqui falei em ciência e a tal fundação “esotérico-científica” nem menciona ciência. Eles alegam que o espírito de um cacique incorpora em uma médium e esse cacique tem o poder de desviar frentes frias, por exemplo. Ou seja, nem preciso falar que é mais um caso de charlatanismo. Além disso, toda essa história me parece um profundo desrespeito com crenças nativo-americanas.

É lamentável que a organização de um evento tão grande contrate uma fundação “esotérico-científica” para prestar uma consultoria. Logo se vê que os organizadores não tem ideia do que é o conhecimento científico. Como disse a querida @daniminu no Twitter, quando é dinheiro privado, a gente senta e dá risada. Mas e quando é dinheiro público? Essa fundação já prestou serviços para prefeituras e governos de Estados, como mencionei nesse post.  O Estado, que deveria cuidar do povo da melhor maneira possível e usando todos os recursos técnicos disponíveis, está usando de crenças para resolver problemas. Em outras palavras, é a mesma coisa que se a Dilma resolvesse ir até a cartomante para ajudar na distribuição dos ministérios (não que o critério usado atualmente seja muito diferente disso rs).

E a coisa fica mais ridícula. A previsão do tempo (dos meteorologistas, de empresas e instituições sérias) claro que indicou a possibilidade de chuva para o segundo dia do festival, o que se confirmou. Várias fotos de gente curtindo os shows com capa de chuva circularam por aí.

Ué, mas a tal fundação não tinha espantado a chuva? Pois é, a galera da fundação “esotérico-científica” alegou que faltou um adesivo em um carro e isso fez com que chovesse. Eu já ouvi que “o bater das asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural das coisas”. Isso é Teoria do Caos,  efeito analisado pela primeira vez por um meteorologista, Edward Lorenz, na década de 1960. Dizemos que a atmosfera é caótica porque são muitos “detalhes” responsáveis pela circulação atmosférica: ocupação do solo, presença ou não de água, relevo, atividade humana, gases do efeito estufa presentes na atmosfera, etc. Os modelos meteorológicos fazem cálculos em grade, ou seja, divide-se a área de interesse em uma malha com quadradinhos de 1km x 1km, por exemplo. E a cada “quadradinho” desse, o cálculo das equações que regem a atmosfera é feito. Só que muita coisa pode acontecer dentro de um quadradinho de 1km² e não conseguimos parametrizar com sucesso total todos os fluxos. A previsão do tempo que temos disponível hoje é muito boa, quando comparamos com a de poucas décadas atrás, mas existem essas limitações. Falei um pouco disso nesse post e também falei sobre a importância das observações meteorológicas na qualidade da previsão do tempo nesse texto do UOL.

Vai ver o fato de não ter colado um adesivo em um carro foi o responsável pela formação da chuva. Vai ver a galera da fundação “esotérico-científica” está falando em teoria do Caos e eu estou aqui, julgando.

Vai que cola.

P.S.: Errata engraçada (já corrigi no texto). Eu tinha escrito ASTRONOMIA no lugar de ASTROLOGIA. Não sei onde eu estava com a cabeça rs. Obrigada, Rodrigo e Simone.